 

A lgica do amor
 Day Leclaire

 
Ttulo: A lgica do amor
Autor: Day Leclaire  
Ttulo original: The twenty-four-hour bride
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo:  Nina
Estado da Obra: Corrigida

E a noiva estava... 
grvida!
Nick Colter no consegue esquecer a nica noite que passou com Dani Sheraton.
Ela tambm no consegue, no s vsperas do nascimento do beb de ambos. Durante nove meses escondera dele a gravidez, sabendo das cicatrizes de seu passado. Ele no a amava, no parecia capaz de amar algum. Vinte e quatro horas aps  volta de Nick, Dani via-se esposa e me. Agora, tinha a vida toda para ensinar ao novo marido o que era o amor!


PROLOGO

Nick Colter deixou Paris duas semanas inteiras antes do programado.
No sabia o que o motivara. Fora uma deciso impulsiva, baseada mais na emoo do que no intelecto, e totalmente incompatvel com um homem apelidado de Gelo. Tampouco fora de seu feitio a nica noite em que permitira ao instinto sobrepujar o bom senso.
A noite em que fizera Danielle Sheraton sua.
O instinto de sobrevivncia fazia-o negar o impacto daquela noite inesquecvel, tentava impedi-lo de resgatar a lembrana. Sem sucesso. Nem toda a fora de vontade do mundo podia mudar um fato.
Na noite anterior quela viagem  Europa, aproximara-se de Dani. Tomara-a nos braos e levara-a para a cama. E ento, aps cinco longos anos de espera, fizera amor com ela.
Em seguida, partira.
Mas as lembranas daquele breve momento persistiam, perseguindo-o noite e dia. Qualquer coisa podia desencade-las. Um par de olhos negros em Roma. Cabelos escuros acariciando ombros alvos em Madri. Uma gargalhada feminina no meio de uma reunio de negcios em Londres. Instantaneamente, voltava no tempo.
Via Dani de p diante de sua lareira de granito, abrindo o vestido lentamente, despindo uma a uma as peas de cetim cor-de-rosa.  medida que caam, mais e mais da mulher se revelava.
Ardente, ela foi derretendo sua guarda, levando a primavera a um homem que passara toda uma existncia em tenebroso inverno.
Ela se ajoelhara a seu lado, a luz do fogo banhando-lhe a pele lisa, refletindo-se na cabeleira negra. Nunca desejara tanto uma mulher, nem antes, nem depois. Mesmo assim, mostrara-se cauteloso. Ela continuara muito sria, meio hesitante talvez. Qual nada! Nunca conhecera ningum to confiante e determinado quanto Dani. Mas naquela noite...
Talvez as lembranas a perseguissem tambm, pois naquela noite ela se transformara de cigana selvagem numa criatura tmida, de incerteza quase virginal. E, no instante em que se uniram, ela o olhara maravilhada, como se acabasse de descobrir um segredo. Tal imagem consumia-lhe o corao e a alma, perseguindo-o por dois continentes e por meses a fio.
Fechando os olhos, finalmente dava-se conta do que o levara a deixar Paris. Estava na hora de voltar para casa.
Dani precisava dele.

CAPITULO 1

	V oc est grvida.
 Com os dedos brancos em torno da maaneta, Dani olhou furiosa para Nick, cujos olhos azuis no externavam a mnima emoo. Como sempre, ele permanecia frio como gelo, enquanto ela se continha ao mximo para no explodir em chamas.
	Voc tem talento para declarar o bvio  retrucou
ela, pondo a mo sobre a barriga imensa.
Fora tolice pensar que no sentiria nada por Nick quando se reencontrassem. Como, se sua saudade dele fora aumentando a cada ms, at se tornar quase insuportvel? Em contrapartida, ele parecia no ter sentido a menor falta dela.
	De quanto tempo?  Sem esperar a resposta, ele balanou a cabea, o sol de setembro reluzindo em seu cabelo loiro.  J sei. De nove meses.
	Exatamente  confirmou Dani.
	O que significa que  meu.
	Brilhante deduo, Sherlock!
Dani era capaz de rplicas melhores do que aquela, mas no tivera tempo para se preparar, uma vez que Nick batera em sua porta sem nenhum aviso ou telefonema.
Claro que, se ele houvesse avisado, ela teria fugido correndo! Ou melhor, andando feito pata choca, que era o mximo que conseguia fazer naquele final de gravidez. Simplesmente no conseguia enfrentar as consequncias de sua atitude naquela noite longnqua. Tampouco podia encarar o fato de que mais uma vez se entregara de corpo e alma a um homem incapaz de amar.
Oh, por que ele antecipara o retorno, pegando-a desprevenida? Em duas semanas, ela j teria dado  luz e... E o qu? Durante todos aqueles meses interminveis, no chegara a imaginar o que aconteceria depois. Pelo jeito, continuava a viver sob o lema do falecido marido: "Por que planejar o amanh se podemos deix-lo ao acaso?"
Agora, diante de Nick, queria ao mesmo tempo ficar e fugir.
	Posso entrar? Estou muito interessado na sua explicao...
Dani cruzou os braos, indignada.
	No lhe devo nenhuma explicao.
Uma fasca malvola brilhou nos olhos azuis glidos de Nick.
	Ah, deve, sim. Vai desativar o sistema de alarme para eu entrar?
	No.
Sem dizer mais nada, Nick a fez ficar de lado e transps a soleira da porta. O alarme soou de imediato.
	Sistema anulado  ordenou ele.  Colter zero-zero-um. Cancele o alarme, Gem.
	ALARME CANCELADO, SENHOR COLTER  respondeu uma doce voz feminina, atravs de alto-falantes ocultos.  RESTABELECER SISTEMA?
	Afirmativo.
Aps breve pausa, Gem anunciou:
	RESTABELECIMENTO DE SISTEMA EM PROGRESSO. ALARME REATIVADO PARA ZONA UM.
BEM-VINDO AO LAR, SENHOR COLTER.
S agora Dani recuperava a fala.
	Como assim, "bem-vindo ao lar"?  protestou. Esta  minha casa e meu sistema de segurana!
Nick deu de ombros.
	Alguma falha no sistema.
	Muito improvvel, considerando que voc o projetou.
		 Chega disso, Dani  ralhou ele, severo.  No vim aqui falar de Gem. No pode continuar evitando o assunto.
Ela adotou uma expresso parva.
	Que assunto?
	O beb.
Dani pousou a mo na barriga, protetora. Tinha um beb flutuando docemente l dentro. A cada chutinho dele, lembrava-se da noite delirante partilhada com o homem que agora se lhe impunha autoritrio. Quanto no temera aquele reencontro, incerta de como um homem de gelo encararia a paternidade para breve.
	Prefiro adiar este assunto por alguns dias. Algumas semanas. Alguns meses.
	De jeito nenhum, querida. Vamos resolver isto j. Onde gostaria de conversar? Na cozinha ou na sala?
Dani rolou os olhos para o teto. Ele vencera.
	No meu escritrio.
Nick inclinou a cabea e fez um gesto para que ela o precedesse.
Prevendo um dilogo difcil, Dani escolhera o escritrio porque teria a vantagem de acomodar-se  escrivaninha e tratar Nick como cliente, ou visitante.
Seguindo Dani pelo corredor, Nick lutava para recuperar o autocontrole. Um beb. Por mais incrvel que parecesse, Dani carregava o pequeno fardo inestimvel com uma graa feminina inata. A gravidez impunha-lhe um gingado leve, um balano ritmado que o hipnotizava. Pouco importava que estivesse para dar  luz. Para ele, ela continuava a mulher mais linda do mundo. Seus cabelos pareciam ainda mais brilhantes, ultrapassando os ombros em pesadas ondas negras, e sua pele parecia translcida, como se iluminada de dentro. Precisou reunir todas as foras para no alcan-la, tom-la nos braos e reclamar tudo a que tinha direito. Havia um motivo para no toc-la.
Ela no lhe contara sobre o beb. Durante nove longos meses, mantivera o fato em segredo. E para isso s havia uma explicao. Ela no o queria em sua vida. Endureceu o queixo. Fosse do gosto dela ou no, pretendia desempenhar um papel importante em sua vida, e na da criana. No se deixaria excluir.
	Quando o beb vai nascer exatamente?  indagou.
	Qualquer dia desses.
	Sendo assim, no temos muito tempo.
Dani acomodou-se na cadeira de couro atrs da mesa e encarou-o desconfiada.
	Tempo para qu?
	Para nos casarmos.
No era para Dani se espantar. Convivera com Nick por cinco anos e sabia quo persistente ele era. Tambm aprendera, por dolorosa experincia, que ele no mudava de ideia aps uma resoluo. Tinha de se apressar e dissuadi-lo daquela ltima antes que ela se cristalizasse.
	No quero me casar de novo. Uma vez foi suficiente.
	Uma vez com Peter. Eu no sou Peter.
No, no era. Na verdade, os dois homens no se pareciam nem um pouco. Peter Sheraton conquistara-a na poca do colgio com seu jeito infantil, charmoso, persuasivo. Para depois revelar-se indigno de confiana. Nick, por outro lado, nem imaginava o que era charme e na persuaso era to habilidoso quanto uma mquina de terraplenagem.
	Nick, sei que est surpreso...
	Vamos nos casar.
	Mas logo vai se acostumar com a ideia  completou Dani, fingindo no ouvi-lo.
	Claro. Depois que nos casarmos, terei dois ou trs dias para me preparar.
Ela notou o sarcasmo. Quanto ao prazo... Naquela mesma manh, seu mdico advertira: "Pode ser a qualquer momento".
	Podia ter me contado h um ms  resmungou Nick.  Ou h dois meses. Ou h seis ou sete meses!  Encarou-a colrico:  Por que no me contou?
Ela ergueu o queixo. Como explicar o quanto o desejava, e o quanto temia aquele desejo? Como explicar o temor de que ele assumisse o controle de sua vida e da do beb?
	Porque no quis!  declarou, simplesmente. Os olhos azuis cuspiram fogo.
	Eu exijo uma resposta!
	Porque eu sabia que voc tomaria alguma iniciativa idiota!
Ele pensou um pouco.
	Como dar um nome ao meu filho, por exemplo?
	O beb j tem nome! O meu!
Quem inventara que aquele homem no tinha emoes? Rubro de raiva, ele eliminou em poucos passos a distncia entre ambos e apoiou as duas mos na mesa.
	Est muito enganada se acha que vou permitir que meu filho tenha o nome de Peter.
Dani no pensara nisso. Sinceramente, no.
	Podemos mud-lo legalmente.
	No vai ser necessrio. Quando ele chegar ao mundo, j ter o meu nome.
	Pode ser ela.
	Sim, ele, ou ela, e todos os outros sero Colters.
Dani engoliu em seco. Todos os outros? No, de jeito nenhum!
Bem que previra aquela atitude dele quando soubesse do beb. J chegara impondo exigncias e condies, o-brigando-a a analisar e reconhecer sentimentos que mantivera bem trancados por quase um ano.
	Chega de discusso, Nick. No vou me casar com voc. Entendeu?
	Vamos ao cartrio requisitar a licena amanh logo cedo. Voc decide se vamos fazer os votos diante de um juiz ou de um pastor. Para mim, tanto faz.
	Voc no est me ouvindo.
	Amanh, a esta hora, j seremos marido e mulher.
	Pare, Nick!  Ela se levantou, no sem dificuldade.  No vou me casar com voc, nem com ningum, e ponto final! Quantas vezes vou ter de repetir? No quero me casar nunca mais!
Ele recuou, como se s agora notasse a postura agressiva.
	Pode no querer se casar de novo, mas a responsabilidade para com essa criana deveria prevalecer sobre seus desejos pessoais.
Dani balanou a cabea, irredutvel.
	Muitas mulheres solteiras criam os filhos sem a ajuda do pai.
	No quando o pai est pronto, disposto e capaz para contribuir com sua parcela.
Era fato que Dani nunca vencera uma batalha verbal com Nick, mas dessa vez seria diferente.
	J somos scios.  mais que suficiente, obrigada.
	Est se esquivando. Nossa sociedade no tem nada a ver com o beb.  Ele ergueu o sobrolho.  Ou tem?
	Claro que no.
Dani raciocinou. No era o melhor momento para abordar seu outro problema, mas, para desviar a ateno de Nick do beb e daquela ideia ridcula de casamento, usaria todas as armas.
	J que tocou no assunto, saiba que tomei uma deciso. Quero vender minha parte na Security Systems International.	
O efeito foi instantneo. O brilho da determinao nos olhos cor de cobalto desapareceu. Lvido, Nick apenas indagou:
	Por qu?
	Peter tinha interesse na SSI, no eu. Afinal, voc e meu sogro montaram o negcio. Eu entrei de carona.
	Voc  parte importante da empresa.
	Nunca entendi de computadores e sistemas de segurana, sabe disso. No tenho utilidade nem para voc, nem para a empresa.
		Peter no era nenhum expert em computao, tampouco.
Dani percebeu o tom de crtica, mas no comentou nada. Os dois homens h haviam discutido bastante a respeito.
O pior era que Nick tinha razo. Um scio de empresa de sistemas de segurana computadorizados deveria exibir conhecimentos nessa rea.
	Peter no sabia tanto quanto voc, concordo, mas era um vendedor nato. Conquistou muitos clientes.
	Errado. Voc conquistou os clientes. Era voc que eles ouviam, no Peter.
Dani apoiou-se na mesa, fatigada.
	Esta discusso no faz sentido. Voc vivia nos propondo comprar a nossa parte.
	E Peter sempre rejeitando. Ela o encarou firme.
	Desta vez, no vou rejeitar. Nick cruzou os braos, vitorioso.
	O problema  que no estou mais interessado. Dani deixou os ombros carem, frustrada.
	No entendo. Passou anos querendo a SSI s para voc e agora quer que eu fique. Por qu?
Ele tentou disfarar o constrangimento, sem sucesso. Fitando-a nos olhos negros, declarou simplesmente:
	Preciso de voc. Ela sorriu, divertida.
	Voc no precisa de ningum. Nick deu de ombros.
	E o que sempre me disseram. Mas preciso de voc. Pelo menos por enquanto.
	Para qu?
Ele comeou a andar para l e para c, deixando-a preocupada. Ele nunca fazia gestos desnecessrios, nunca deixava transparecer os sentimentos. Mas l estava ele, revelando um turbilho interior.
Como se lesse tais pensamentos, ele parou e adotou uma postura de calma absoluta.
	Passei quase um ano no exterior, reestruturando nossa diviso internacional e, infelizmente, negligenciei nossos clientes domsticos.
	E que isso tem a ver...
	Temos concorrentes agora. Concorrentes fortes. Estou surpreso que no tenha notado.
	Andei preocupada  justificou Dani, no sem uma pitada de ironia.  Sei que perdemos alguns clientes, mas...
	E vamos perder muitos mais se no nos esforarmos por uma recuperao. Ningum paparica clientes como voc.
Ela fez um gesto para o barrigo.
	No estou em condies de paparicar ningum. Estou para dar  luz, caso no tenha reparado.
	Reparei.
A fala mansa dele era preocupante. Enquanto Peter vivia tendo acessos de fria, Nick nunca perdia sua famosa, e intimidadora, calma.
	Nesse caso,  fcil concluir que no disponho de tempo para dedicar  SSI agora  concluiu Dani.
	No vai exigir muito do seu tempo  argumentou Nick.  Por que essa urgncia em vender? J faz quase dois anos que Peter morreu. Por que essa deciso sbita?
Dani hesitou, sem saber quanto revelar. Ele era to analtico, to lgico, to sagaz. Como revelar seus desejos mais ntimos com relao a ele?
	Est na hora de eu tocar minha vida  declarou.  Gostaria de vender esta monstruosidade que Peter chamava de casa e comprar algo mais aconchegante. E estou pensando em abrir meu prprio negcio.
	Voc j tem um negcio.
	Nunca foi meu, e voc sabe disso. Era seu e de meu sogro, depois, seu e de Peter.
	E como pretende montar um novo negcio e cuidar de um recm-nascido se no aguenta nem colaborar para a SSI?
Dani suspirou.
	So planos futuros,  clara. No so para j.
	Sendo assim, at nosso beb nascer e voc estar pronta para iniciar seu novo empreendimento, pode continuar conosco.
Nosso beb. Nick deliberadamente estabelecia uma ligao entre eles, uma ligao que ela queria romper. Tentou controlar a irritao massageando as costas no ponto em que uma dorzinha se insinuava.
	Podemos deixar esta discusso para mais tarde?
Estou um pouco cansada.
Em dois segundos eleja estava a seu lado, segurando-a pelo cotovelo.
	Sente-se, Dani. Tente relaxar.
	Vai ser um pouco difcil no momento  replicou ela.
	Porque voc complica a situao mais do que o necessrio.  Antes que ela pudesse protestar, Nick indagou:  Quando foi sua ltima consulta ao mdico?
	Hoje de manh.
	Nenhum problema, presumo?
	Nenhum.
Ele se inclinou at que seus olhares estivessem no mesmo nvel. Oh, como sentira falta dele, pensou Dani. Falta de sua preocupao e gentileza, de sua inteligncia aguada e influncia tranquilizadora. Do pnico que a assaltara ao rev-lo j no restava vestgio, substitudo por emoes indescritveis.
	No tem dormido bem, acertei?  adivinhou ele.
	 difcil  confessou ela.  No importa quantos travesseiros coloque, no consigo ficar confortvel.
	Falta pouco agora  consolou Nick.
Se ao menos no estivessem to prximos. A proximidade trazia de volta lembranas que Dani passara nove longos meses tentando apagar. No lhe dizia nada o fato de Nick exibir o melhor terno italiano, a camisa mais fina, a gravata mais moderna, tampouco significava algo sua lgica computacional e capacidade de manter as emoes presas em calotas polares. Ela sabia a verdade.
Com um nico toque, ele obtinha poder absoluto sobre as mulheres.
	Est pensando naquela noite.
Ele apenas sussurrara as palavras, mas minara suas defesas e invocara uma srie de imagens que j banira da mente. Por que no conseguia esquecer aquela noite? Era vspera de ano-novo e ela fora  casa dele entregar uns documentos que encontrara no cofre pessoal de Peter, documentos financeiros importantes, pensara. A pedido dele, aguardara enquanto ele os examinava.
Aparentemente, Nick no se sara melhor do que ela na tarefa de decifrar a confuso de nmeros e comentrios escritos  mo. A julgar por seu cenho franzido, porm, a parte inteligvel no o agradara nem um pouco. Aps meia hora de silncio, ele pusera os papis de lado e, em vez de dispens-la, jogara mais lenha na lareira e ligara o aparelho de som. Em seguida, oferecera-lhe uma taa de champanhe e...
O relgio soara as doze badaladas.
	 ano-novo!  festejara ele, com um sorriso.  Vamos comear com o p direito!
Num instante, Dani estava nos braos dele, partilhando um beijo amigvel. Sentia-se particularmente vulnervel naquele noite, pois fazia exatamente um ano que Peter encontrara a morte espatifando o carro esporte contra um poste, e logo aps declarar que queria o divrcio. Nick tambm partiria dali a algumas horas, para a Europa. Sentira-se to s, desamparada. Eis a justificativa que encontrara ao recuperar a sanidade, pela manh.
Mas tudo comeara com aquele beijo, a boca de Nick firme e determinada, degustando champanhe e paixo. Nada a ver com um homem apelidado de Gelo. A contradio intrigou-a, tentando-a a provar aquela boca mais e mais. Ele lhe concedeu tudo o que pediu a cada beijo mais profundo, e muito mais.
Com toda a honestidade, naquela noite ela no pensara nas consequncias. Outros pensamentos ocupavam-lhe a mente. As trocas foram se tornando mais demoradas, mais ardentes, e logo se viram avassalados por uma urgncia incontrolvel. Contrariada, ela desfizera o n da gravata dele e a arrancara antes de atacar os botes da camisa.
	Sempre se veste assim formal em casa?  questionara Dani.
	No.  que sa h pouco.
	A negcios, aposto.
Um frio amargo dominou os olhos azuis dele.
	Que mais poderia ser?
Ela se zangara ao comentrio, triste e desolada.
	Vou mostrar o que poderia ser...
A determinao tomara conta dela, eliminando o que restava de escrpulo e bom senso. Ele no protestara ao v-la remover suas abotoaduras de ouro e livr-lo da camisa, mas sentira nele alguma hesitao, que no combinava com sua natureza implacvel. Mas no era hora de analisar, ou questionar. Estava fascinada com o que descobrira debaixo da camisa.
Nick exibia ombros largos, com msculos lindamente esculpidos em linhas claras, msculas. Como nunca os notara antes? A pele dele fulgurava como cipreste dourado, irradiando luz e calor, implorando para ser acariciada. Recuou um pouco e viu o realce que a luz do fogo proporcionava aos bceps com os feixes de msculos salientes que convergiam ao peito coberto de plos.
Ela estendera as mos, traando um caminho dos ombros at o ponto em que os plos castanho-escuros se iniciavam. Como podiam ser dessa cor, se os cabelos dele eram loiros? Mais impressionante era a textura grossa deles, quase arranhando-lhe a palma das mos, excitando-a como a pele lisa e infantil de Peter nunca conseguira. Afagou aquele peito, incapaz de resistir. E fora baixando as mos, centmetro por centmetro, ao longo do abdmen duro e irregular, at alcanar a fivela do cinto. Ele a detivera ento.
	Tem certeza de que  isso o que quer? Ainda pode mudar de ideia.
	No, no posso. E agora ou nunca.
	No comece algo que no pretende terminar  advertira Nick, srio.
No fosse to impulsiva, talvez Dani tivesse ouvido. Mas ela s captara a necessidade embutida no tom spero dele. E respondera aquele chamado desesperado com todo o corao.
Desvencilhara-se dos braos dele e fora at a lareira. Diante dos olhos azuis dele, brilhantes como estrelas, despira o vestido preto e as pequenas peas de cetim rosa-avermelhado. Restou uma presilha em seus cabelos, que Nick descartou s para ver cair a cortina de cabelos negros.
	Nick?
	Por favor  murmurara ele.  Que isto no seja uma iluso.
Ela no soubera como responder ao apelo. Nem precisara. Nick a abraara, a apertara, combinando paixo e preocupao. O que se seguiu transformou-a. Profunda e completamente. Fazer amor com Nick revelou-lhe um segredo cuja existncia nem sequer vislumbrara nos anos em que fora casada com Peter.
Nick lhe mostrara o verdadeiro significado do amor.
	Tambm no consegue esquecer aquela noite, no ?  adivinhou ele, brando.
Dani fechou os olhos, lutando para enterrar as lembranas. Sem sucesso.
	No consigo esquecer a manh seguinte tambm  rebateu.
A desiluso fora terrvel ao acordar numa cama vazia e dar-se conta de que seu amante partira havia muito.
	Eu ia viajar!  defendeu-se Nick.  Voc sabia disso!
	No quero discutir! Todo aquele episdio foi uma aberrao, de qualquer forma.
	Aquela aberrao deu origem a nosso filho! Dani estremeceu e ps a mo sobre o ventre.
	No quis dizer...
	No?
	No! Eu quero o beb.
	Eu tambm  afirmou Nick, sem hesitar.
Ele estava sendo sincero. Ela o sentia em suas palavras. Infelizmente, porm, passara os ltimos nove meses pensando no beb como s seu e era um choque saber que Nick tinha sentimentos semelhantes. Nick Colter, um homem de sentimentos. Ha!
	Parece que estamos com um problema, ento.
	Problema nenhum  contrariou Nick.  J apresentei a soluo.
	Casamento.
Ele a encarava firme.
	Casamento.
	E se eu no concordar?
Ele adotou uma expresso implacvel.
	No tem opo.
	Claro que tenho.
	Est enganada.  Calculista, Nick resumiu a situao dela:  Voc quer me vender sua parte na empresa, bem como iniciar seu prprio negcio. No conseguir nem uma coisa, nem outra, sem meu acordo e cooperao.
Dani no acreditava no que ouvia. Nick lhe aplicaria um golpe baixo?
	E o preo da sua cooperao  o casamento?

CAPITULO 2

Se sentia algum arrependimento por coagir Dani, Nick no o demonstrava. Era como se apenas lhe houvesse sugerido colocar molho branco em vez de vinagrete na salada.
	Um ano  reiterou ele.  E tudo o que estou pedindo. Voc nos ajuda a firmar nossas vendas domsticas e, no primeiro aniversrio do beb, compro a sua parte na empresa, se ainda estiver querendo vender.
	E o casamento?
Ele no respondeu de imediato. Frustrada, Dani desejou poder interpret-lo to facilmente quanto ele parecia interpret-la. Por que conseguiria agora, se durante os cinco anos em que conviveram como scios nunca decifrou seus pensamentos?
	No se pode manter o que nunca se teve  filosofou ele, por fim, em tom crtico.
	Fale claro, Colter. Vai me dar o divrcio?
	Voc estar livre em um ano. S quero que prometa que no ir para longe.
	Vou ter de permanecer em San Francisco?
	Quero meu filho, ou filha, por perto.  pedir demais?
El, quase gritou Dani, mas se conteve. De qualquer
forma, ele devia ter adivinhado a resposta, a julgar pela amargura que brotou em seus olhos azuis.
	Desculpe-me  murmurou ela, pesarosa.  No estou tentando dificultar as coisas, mas voc me pegou desprevenida!
	Eu tambm fui pego desprevenido.
	Eu sei. Mas essas exigncias...
	So mais que razoveis.
	Eu no acho!  Dani fechou os olhos, lutando para se recompor e para bloquear as lgrimas que vinham fcil ultimamente.  Nick, isto no devia ter acontecido.
	Mas aconteceu. Goste ou no da ideia, vai dar  luz um filho meu.
Agachando-se ao lado dela, Nick estendeu o brao sobre o ventre dilatado, mas ento se deteve, a mo espalmada pairando poucos milmetros acima da criana. Foi s por um instante, mas ela viu sua mscara de indiferena cair, expondo um anseio agridoce de tocar o beb, de sentir a vida que crescia l dentro. Mas o controle voltou a congelar-lhe as feies.
Quando ele j recuava, ela impulsivamente agarrou-lhe as mos e apertou-as com fora contra sua barriga enorme. Sabia que o que ele mais queria era sentir a vida do filho pulsando. O calor de suas mos grandes espalhava-se deliciosamente por todo seu ventre maduro.
	O beb costuma se mexer bastante a esta hora do dia  confidenciou Dani.
Mal ela acabou de falar, Nick sentiu vrios chutes sob a palma da mo.
	 ele?!  exclamou, maravilhado.
	J tentando sair. Pelo menos  o que parece.
Ele apertou os lbios e baixou os clios queimados de sol sobre os olhos azuis que ameaavam denunciar uma emoo. Passou a demonstrar apenas uma curiosidade moderada.
	Di?  quis saber.
Se s a proximidade de Nick j a perturbava, o que aquele contato fsico no ameaava provocar!
	No. Se bem que todo desconforto vale a pena.  Sorriu.  Vale muito a pena.
	Est... feliz com o beb?
	Sempre quis ter, mas Peter...  Dani percebeu que no era hora de criticar o falecido marido.  Sim, Nick, estou muito feliz com o beb.
	S no est feliz com o fato de eu ser o pai.
	Eu no disse isso!
	Nem precisava! H minutos, disse que o que aconteceu entre ns no ano-novo foi uma aberrao!
Dani baixou os olhos para o barrigo.
	A situao escapou ao controle. Nick recuperava o sarcasmo:
	Com certeza, no houve planejamento.
	De qualquer forma, quero o beb  reafirmou ela, pois isso fazia toda a diferena.
	S no quer a mim.  Ele afastou as mos e se levantou.  Devia ter me contado h meses. No tinha o direito de esconder essa gravidez de mim.
Nick tinha razo, e Dani reconhecia o fato.
	Desculpe-me. Acho que pressenti essa sua atitude quando descobrisse.
	E que outra atitude eu poderia tomar?  questionou ele.
	Qualquer uma mais sensata, que no envolvesse casamento.
Dani jamais voltaria a confiar num homem, no de todo o corao, nem a ponto de assumir um compromisso sagrado como o matrimnio.
	Pois no vou mudar de ideia, nem minhas exigncias  finalizou Nick.  Est de acordo com meus termos, ou no?
	Tenho alguma escolha?
	No.
	Posso me recusar a me casar com voc.
	Mas no vai fazer isso.
Dani conseguiu encar-lo to impessoalmente quanto ele.
	Vou, sim, Nick.
Ele respirou fundo.
	Receio que esteja cometendo um erro.
Ela odiava quando ele adotava aquela postura e expresso felinas, como um tigre prestes a investir. Principalmente quando focalizava a ela, pois isso significava que ela era a presa e estava para sucumbir.
	Que erro?
	 s eu pegar esse telefone, ligar para seus pais e fim de jogo.  Nick no pde conter o sorriso vitorioso.  Xeque-mate, queridinha.
Dani o olhava boquiaberta, incrdula e furiosa.
	Voc no faria isso...
	Quer apostar? A esta altura, eles j devem saber que voc est grvida.
	Teria sido um pouco difcil esconder isso deles.
	Eles sabem quem  o pai?
	No.
Ele alargou o sorriso. Ela recordou quo despudora-damente beijara aquela boca na tal noite inesquecvel.
	Como acha que reagiriam ao saber que sou eu o pai da criana?
	Depois de se levantarem do cho, voc diz?  retrucou Dani.
	, depois.
	Eles ficariam muito zangados  preveniu ela, tentando intimidar.  Muito zangados.
	At eu explicar que no sabia da sua gravidez. Ela contraiu a boca.
	, at voc explicar.
	E quando eu dissesse que gostaria de me casar com voc...
	Ficariam exultantes  completou ela.
	Foi o que pensei.  Nick concedeu-lhe alguns segundos de reflexo antes de aplicar o ltimo golpe:  Pronta para reconhecer a derrota?
Dani fumegava em silncio. Nick conhecia muito bem seus pais, fervorosos adeptos da unidade familiar. Seis meses antes, haviam recebido com alegria a notcia de que seriam avs, mas encararam mal sua recusa em revelar o nome do pai do beb, bem como a ideia de despos-lo. Podia contar com seu amor e apoio, mas sabia que os magoara e decepcionara muito.
Estava derrotada, mas fez Nick esperar dois minutos inteiros antes de se manifestar:
	Casamento por um ano. Continuo colaborando com a SSI, mas voc compra a minha parte ao final desse perodo. Combinado?
	Combinado.  Ele consultou o relgio de pulso.  Passo aqui amanh s nove horas para irmos ao cartrio. Vou falar com o juiz Larson. Se ele conseguir abreviar os trmites, ao meio-dia estaremos casados.
	To rpido?
	No temos muito tempo, concorda?
Dani odiava o fato de Nick estar sempre certo. Mas j concordara em despos-lo e no havia por que adiar o inevitvel. No se quisesse que o beb tivesse o nome do pai.
	Acho que no vai dar para nos casarmos na igreja, ento...
	Importa-se?
	Importo-me. Mas, dadas as circunstncias... Nick deu de ombros.
	Seus pais vo querer estar presentes, imagino. Dani sorriu, cansada.
	Creio que no conseguiramos evitar.
	Ficamos assim, ento.
Passaram alguns segundos em silncio. Por fim, Dani levantou-se, desajeitada devido  barriga grande, constrangida devido  presena do homem que logo seria seu marido.
	Vou acompanh-lo.
Ele no recusou, e caminharam juntos pelo corredor at o saguo de entrada.
	Tome conta dela, Gem  instruiu Nick ao sistema de segurana.  E me avise se houver algum problema.
	RECOMENDAO REGISTRADA, SENHOR COL-TER. BOA TARDE.
Dani olhou brava para o painel de controle do sistema.
	Espere s um minuto...
	Est para dar  luz a qualquer momento, Dani  cortou Nick, num tom condescendente que a fez ferver de raiva.  S estou prevenindo o sistema quanto a complicaes de ltima hora. Gem vai tomar conta de tudo.
	No gosto de ser espionada!
	Gem no est espionando. Est protegendo voc.  sua funo.
	Por ora  avisou Dani.
	At que eu diga o contrrio  corrigiu ele.
	At que eu descubra os cdigos de anulao.  Cansada de discutir, Dani perguntou o que estava querendo saber desde a chegada inesperada de Nick.  Por que voltou antes do planejado?
	Digamos que tive um pressentimento. Ela ergueu o sobrolho.
	Um pressentimento, ? Voc, Nick?
Ele no pareceu se perturbar com a insinuao.
	Ao contrrio do que imagina, Dani, no sou um computador.
Com isso, Nick transps a soleira e se foi.
Nick permanecia na varanda da casa de Dani, de costas para a porta que ela acabara de bater. O simbolismo da cena no lhe passava despercebido, tampouco a ironia daquela situao. Mais uma vez via-se abandonado ao relento. Uma imagem assaltou-lhe a mente, a de um garotinho estico.
Sozinho, o garoto via  frente uma vaga de estacionamento vazia. A suas costas, um feio prdio escolar projetava-se contra um lgubre cu de inverno. Enquanto ele esperava, um floco de neve solitrio desceu devagar diante de seus olhos, instvel ao sabor de um vento glido. Nem assim ele se moveu, alheio ao frio,  raridade da neve em San Francisco ou ao adiantado da hora. Recu-sava-se a liberar as emoes que lhe aoitavam a alma. Lgrimas seriam inteis, mesmo que ainda tivesse a capacidade de chorar. Mas j no podia. Elas haviam se congelado, muito tempo atrs.
Por isso, continuou esperando, como sempre esperara.
Reprimindo as lembranas, Nick baixou a cabea, a exemplo de um touro enfurecido pronto a atacar. Endureceu o queixo e cerrou os punhos. De novo, no. Descobriria um jeito de entrar, de alcanar o calor pelo qual ansiava. No importava quanto tempo levasse, ainda iria se regozijar no aconchego que era Dani.
Como se sente?
Dani fez uma careta e se remexeu no desconfortvel banco de madeira do lado de fora do gabinete do juiz. No que fizesse diferena. Por mais que mudasse de posio ou massageasse os msculos contrados  base da espinha, no encontrava alvio.
	Quer mesmo saber?
	Eu no teria perguntado, se no quisesse.
	Estou bem. Apenas toda inchada, dolorida e com mal-estar geral.
Nick no se divertiu, conforme ela esperara. Tampouco lanou mo de chaves inteis. Em vez disso, estendeu o brao em torno dela e apertou o punho cerrado em suas costas junto  cintura.
	Melhorou?
Ela soltou a respirao quase gemendo de prazer.
	Onde aprendeu a fazer isso?
	Puro instinto.
Instinto?! Eis algo difcil para Dani imaginar. Nick mostrara-se sempre to metdico e disciplinado. Definitivamente, no parecia algum que reagia a impulsos. No que se referia  impulsividade, ela era a especialista.
	H um assunto que gostaria de discutir com voc.
	Mais surpresas?  retrucou ele, irnico.  No me diga que vamos ter gmeos.
Vamos ter! Dani apertou as mos unidas no colo. Ele repetia a atitude. Destacava o lao que os unia, lembrando que tinha tanto interesse quanto ela na pequena vida que se expandia sob seu corao. E essa atitude dele a abalava mais do que gostaria de admitir.
	No, no vou ter gmeos. Pelo menos o mdico no comentou nada.  sobre meus pais...
	Eles viro para a cerimnia, no?
	Viro, mas... Quando lhes falei do casamento, eles ficaram com a impresso de que... bem, de que amos nos casar por livre e espontnea vontade.
	Mas  por livre e espontnea vontade.
	Eu sei, por causa do beb.  Dani limpou a garganta, constrangida.  Mas eles pensam que  porque... estamos apaixonados.  Olhou-o desolada.  No tive coragem de dizer a verdade.
Nick absorveu o comentrio sem preocupao aparente.
	Como receberam a notcia?
	Ficaram exultantes.
E quo surpresa no ficara Dani ante a satisfao com que os pais aceitaram Nick. Pensando bem, a famlia sempre simpatizara com ele, bem mais do que com Peter, seu falecido marido, talvez por saberem o quanto este era deficiente em termos de honra e profundidade emocional. Nick podia ser de uma dignidade inabalvel, mas no parecia capaz de sentimentos profundos. Sob tal aspecto, os dois maridos se mostrariam muito parecidos.
	Eles no perguntaram por que esperamos tanto tempo?
	Perguntaram.  Dani deu de ombros.  Eu disse que adiamos a deciso at voc voltar da Europa, achando que devamos esperar mais algum tempo aps a morte de Peter para assumirmos um compromisso. E tambm para termos certeza de que nossos sentimentos um pelo outro no mudariam.
	E eles?
Dani sentiu as faces queimarem.
	Eles disseram que, se estvamos certos de nossos sentimentos para dormirmos juntos, estvamos certos o bastante para nos casarmos.
	Sempre gostei dos seus pais!  festejou Nick, indiferente  zanga dela.  E o beb? Eles no perguntaram por que no me casei com voc to logo soube da gravidez?
Dani temera que ele chegasse a tal questo.
	Eu disse que voc s soube do beb ao voltar da Europa.
Nick olhou-a admirado.
	Mulher corajosa.
	Era a verdade. Pelo menos isso era.
	O que leva a outro enigma. Por que no me contou antes sobre o beb?
Dani deu de ombros.
	Voc ia voltar em trs meses, lembra-se? Achei melhor dar-lhe a notcia pessoalmente.
	Mentira.  o que vem afirmando a si mesma todo esse tempo, mas no entrou em contato comigo por um motivo muito simples: estava com medo.
Dani endureceu o queixo. Nem sob tortura reconheceria a verdade daquela observao acurada. Sem ousar encar-lo, concentrou-se na parede oposta.
	Eu queria dar a notcia pessoalmente, j disse. No tenho culpa se decidiu estender a viagem para seis meses e, depois, para nove. Ora, Nick, em nossa ltima conversa, voc j falava em completar um ano de estadia l!
	Eu teria voltado antes, se voc tivesse me contado. Bolas, eu teria pego o vo seguinte se me pedisse: "volte para casa", ainda que no me contasse sobre o beb.
Para casa? Dani arrepiou-se  ideia.
	Bem, no foi necessrio, concorda? Voc antecipou seu retorno, de qualquer forma.  Novamente desconfortvel, mexeu-se no banco. Nada de alvio.  No acreditei quando abri a porta e vi voc de p na minha frente.
	Eu tambm fiquei espantado  replicou Nick, seco.
	Nesse caso, disfarou bem.
	Anos de prtica. Dani olhou-o curiosa.
	Quer dizer que treinou esconder as emoes? Por qu?
	Foi uma escolha lgica, na poca.
Dani no se deixou enganar pelo tom indiferente. Aos poucos, aprendia a espiar atrs daquela mscara dele. Por mais intrigante que parecesse, era como se ele implorasse que ela descobrisse aquilo que ele tanto se empenhava em esconder.
	Mas algum acontecimento deve ter imposto tal escolha. O que foi?
	Descobri a inutilidade das emoes numa fria tarde de dezembro.
	Uma epifania, Nick? Voc?  Superada a surpresa, Dani concluiu:  Em consequncia, decidiu seguir os passos do senhor Spock? Adotou a filosofia vulcaniana da lgica sem emoo?
Os olhos azuis dele eram puro gelo.
	Digamos que nunca me apresentaram um argumento convincente para que eu mudasse de ideia.
	Algo terrvel deve ter acontecido para voc tomar uma deciso to radical.  Dani franziu o cenho, preocupada.  O que foi? Algum magoou voc?
Nick no teve chance de responder, presumindo que quisesse. Os pais de Dani chegaram, mais uma leva de irmos, irms, cunhados, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas.
	Meus parabns!  exclamou a me, Ruth, beijando-a no rosto. Abraou Nick, que se levantara.  No se preocupem com nada, vocs dois, temos tudo sob controle.' E no se levante, Danielle! Nick, no permita que ela se levante at a hora da cerimnia.
Dani adorou ver Nick embasbacado. Precisava praticar mais a arte de esconder as emoes.
	Mas do que est falando, me?  indagou, conhe-cendo-a bem.  O que  que vocs tm sob controle?
	O casamento,  claro!  Ruth bateu palmas.  Vamos l, meninas.  preciso comear com o p direito.
As irms de Dani formaram um semicrculo em torno dela, cada uma com um presente. Ela no pde evitar as lgrimas, embaraada e feliz ao mesmo tempo. Embaraada por deix-las pensar que aquele casamento ocorreria por mais do que convenincia, feliz porque elas se importavam e faziam questo de demonstrar.
	Primeiro, uma coisa velha  anunciou Ruth, sentando-se a seu lado. Estenderam-lhe um pacotinho.  Vamos, abra.
Dani rasgou o papel de embrulho, sorrindo para Nick, que recolhia o material descartado. Quase no acreditou ao abrir a caixinha.
	O camafeu da vov! Oh, me, no pode estar se separando dele...
Com cuidado, abriu o fecho minsculo e puxou a tampinha dupla. Dentro havia uma foto sua e uma de Nick. Ele espiava por sobre seu ombro.
	Onde conseguiram essa foto?  Ele pensou bem e se lembrou.  Ah, foi numa festa de Natal, h dois anos.
	Deu um pouco de trabalho, mas somos uma famlia decidida.  Ruth passou a mo na barriga de Dani.  Assim que este pimpolho der o ar da graa, vamos acrescentar a fotinho dele. E ainda sobra espao para mais uma.  Deu-lhes uma piscadela.  Como Danielle adora crianas, tenho certeza de que esse espao logo estar preenchido. Depois,  por conta de vocs.
O rubor tomou as faces de Dani, ao mesmo tempo que lhe estendiam outro presente.
	Uma coisa nova?  arriscou, tocando na fita cor-de-rosa. Puxou a tampa da caixa e paralisou-se. Era uma fronha branca com dois monogramas em rico bordado: um "N" entrelaado num "D".
	Como no sabamos o tamanho certo da roupa de cama, vamos encomendar o resto assim que nos disser explicou Ruth.  Gosta?
Dani mordiscou o lbio, embaraada. Como no pensara nisso? Seus pais imaginavam que Nick e ela, uma vez casados, passariam a viver como marido e mulher de verdade, partilhando uma casa e uma cama. Esfor-ou-se por manter a mo firme ao sentir a textura do trabalho manual.
	 lindo! Obrigada.
	Nossa cama  king-size  informou Nick, para desalento de Dani.
Ruth alegrou-se.
	Vou fazer a encomenda assim que chegarmos em casa!
	Agora, uma coisa emprestada  anunciou Jamie, irm mais velha de Dani.  Usei isto no meu casamento, deve se lembrar.  Estendeu-lhe uma grande caixa quadrada.  Voc achou to lindo. Eu empresto.
Dani removeu com cuidado as- camadas de papel de seda, at se revelar o chapu de aba larga que Jamie usara no lugar do vu. Delicado e feminino, o acessrio, enfeitado com uma larga fita e imenso lao de cetim, prendera seus cabelos castanho-escuros com perfeio. Sem dvida, lhe cairia igualmente bem. Tinha o mesmo tom de branco do vestido que escolhera para a cerimnia, e o lao combinava com o debrum no corpete.
	Obrigada, Jamie.  Esforava-se por manter um sorriso, emocionada com a considerao da famlia. No esperara nada daquilo, quando deveria.  Prometo devolv-lo intacto.
Prestativo, Nick tirou o chapu de dentro da caixa e ajeitou-o sobre seus cabelos, inclinando-o de modo que a aba larga se dobrasse levemente sobre um de seus olhos.
	Est linda  elogiou, sincero.  Ou melhor, perfeita.
	Ainda no  protestou a irm mais nova de Dani.
 Ela ainda no abriu o meu presente.
Dani ficou pensativa.
	Bem, j ganhei uma coisa velha, uma coisa nova e uma coisa emprestada. Est faltando...
	Uma coisa azul  completou Kendell, estendendo uma caixa estreita.
	Estou quase com medo de abrir  confessou Dani, escaldada das brincadeiras da irm.
Tratava-se de uma insinuante meia-liga preta enfeitada com uma fita de cetim azul, no mesmo tom dos olhos de Nick.
	Vamos ver se serve  atiou Kendell, expondo a pea diante de todos.
	Cabe a mim, acho  prontificou-se Nick, pegando a meia-liga.
Antes que Dani pudesse protestar, ele ergueu seus tornozelos e removeu seus sapatos. O desafio era evidente nas profundezas de seus olhos azuis, ora em brasa. Pou-sando-lhe ambos os ps na coxa musculosa, posicionou a meia-liga e comeou a desloc-la lentamente pernas acima.
De incio, suas mos apenas roaram os. ossos finos dos tornozelos. Mas ento ele comeou a brincar com a pele sensvel, ensaiando um ritmo primitivo que lhe aqueceu o sangue e encheu-a de um desejo doce, forte. Ao mesmo tempo que queria cessar o contato, ansiava por atirar-se nos braos dele e reaprender os passos daquela dana especfica. Esta opo era impossvel, com a famlia toda observando-os. Por isso, submeteu-se  agonia, centmetro por centmetro, conforme ele deslizava a meia-liga por suas pernas protegidas por meias finas. A altura dos joelhos, ele se deteve.
	Est bom a  sussurrou Dani, aflita.
	De jeito nenhum  contrariou Nick, determinado.
A famlia no ajudava em nada. Em vez de apoiar Dani, incentivava Nick a fazer o pior. Aps lanar-lhe um olhar zombeteiro, ele se concentrou na barra do vestido, sob a qual fez desaparecer a meia-liga. Por fim, alcanou o topo das meias, tateando o elstico apertado que as mantinha no lugar. Acabava de descobrir que as meias modernas dispensavam ligas. De qualquer forma, meias-ligas e gravidez no combinavam.
	Mas o que temos aqui?  indagou ele, confuso.
Dani viu as irms suprimirem o riso.
	Estou usando meias sete-oitavos. O elstico forte dispensa ligas.
	Ah, que interessante. Vou querer ver isso depois...
	De jeito nenhum!
	Mas, querida, nunca vi esse tipo de meia antes.  Um brilho traquinas iluminou os olhos dele.  Voc, nosso beb e essas meias. Eis algo que eu daria uma fortuna para ver.
Trmula, Dani desanimou:
	Creia-me, neste caso, a ignorncia  uma bno.
De qualquer forma, no estou em condies de dar um show ertico.
Nick ficou srio, e ela podia jurar que ele recordava algo com saudade.
	A gravidez a deixa mais bela do que pode imaginar  afirmou, franco.  Pelo menos, na minha opinio. Neste momento, nada me daria mais prazer do que ver voc nessas meias, com nosso beb seguro dentro da sua barriga. Nada... exceto colocar a aliana em seu dedo.
	Oh, Nick  murmurou Dani, emocionada s lgrimas. Fitou-o enternecida.
	Lamento interromper, mas esto nos chamando  informou Kendell.
Nick j estava recomposto.
	Acho que vamos ter de deixar isto para outro dia.
Com evidente relutncia, ele fez as mos percorrerem o caminho inverso, das coxas para os joelhos, dos joelhos para os tornozelos. Aps calar-lhe novamente os sapatos, levantou-se e ajudou-a a se erguer do banco.
Dani continuou se apoiando nele at sentir as pernas firmes. A incurso das mos dele sob sua saia abalara-a ao ponto do enfraquecimento. Para completar, sentia cibras devido ao longo tempo sentada no banco de madeira duro.
Nick fez a famlia toda de Dani entrar primeiro no gabinete do juiz e ento se mostrou hesitante, olhando para os dois lados no corredor.
	Nick?  chamou ela, curiosa.
	J vou.
Ele se demorou mais um minuto, checando o corredor inmeras vezes. O que estaria esperando? Ou melhor, quem? Conforme Peter comentara certa vez, os pais de Nick j eram falecidos e ele era filho nico, ou seja, no tinha famlia. Teria convidado parentes distantes para assistir  cerimnia?
	Quem voc est...?
A expresso glida dele a fez desistir da pergunta. O inverno devastara toda a vida em seu rosto, atingindo-lhe a alma com a fora de um vento rtico. O que teria causado tamanha transformao? Minutos antes, ele se mostrara todo alegria e ternura, provocando-a e seduzindo-a.
Mas ento acontecera algo que lhe roubara as emoes e o obrigara a se fechar. Algo relacionado a algum que deveria ter surgido naquele corredor, mas no surgira.
	Est pronta?  indagou ele.
As palavras mais pareceram cacos de gelo, brilhantes e duras, cheias de uma terrvel frieza.
	Eu estou  garantiu Dani.  Mas e voc?
Ele a encarou ento, e ela se assustou. Seus olhos estavam vazios. Horrivelmente vazios. As ris azuis eram ao, chamas desprovidas de calor e luz.
	Para que protelar?  Nick pegou-a pelo cotovelo. Vamos. Est na hora do nosso casamento.

CAPITULO 3

Austero e perspicaz, o juiz Henry Larson aguardou que todos se acomodassem em seu espaoso gabinete antes de encarar os noivos severamente.
	Consertando o erro, Nick?  repreendeu.
Dani olhou apreensiva para o futuro marido, imaginando como ele reagiria ao comentrio, considerando seu estado de esprito. Para seu alvio, ele no se mostrou ofendido, respondendo simplesmente:
	Estou tentando.
	E bem a tempo, ao que parece.
Dani estremeceu. No queria que Nick levasse a culpa por algo que ela fizera, ou melhor, deixara de fazer.
	O atraso foi culpa minha  esclareceu.
O juiz arqueou as sobrancelhas.
	Nesse caso, fico aliviado por ver que ele a convenceu a se casar.  um bom homem.
	Sem dvida  confirmou ela, sem hesitar.
Nick passou o brao em torno da cintura dela.
	Henry, importa-se se Dani ficar sentada durante a cerimnia? Acho que ela no deve permanecer de p mais que o necessrio.
S ento Dani percebeu que vinha jogando o peso do corpo ora num p, ora no outro, num esforo vo para aliviar a cibra  base das costas. Agradecida, sorriu para Nick e ganhou um sorriso dele tambm. Foi um sorriso comedido, mas suficiente para quebrar as linhas rgidas em torno de sua boca e derreter o gelo que ela considerava parte de sua natureza.
Mas surpresa mesmo ela teve quando ele pousou a mo sobre sua imensa barriga.
	Sei que a forcei a aceitar este casamento  reconheceu, a meia voz.  Se no for isso o que quer, ainda pode mudar de ideia.
Ela se arrepiou ao ouvir as palavras. Ele usara as mesmas antes de fazerem amor, havia nove meses. Relembrou aquela noite especial, a noite em que geraram o beb agora apertado contra a palma da mo dele. Tambm naquela ocasio ele sorrira, com a mesma paixo selvagem conferindo a seus olhos um azul profundo. Indefesa, ela se atirara de cabea em seus braos, e em sua cama.
	Voc guarda mesmo as lembranas, hein?  provocou Nick, sagaz.  Tambm no consegue tirar aquela noite de sua cabea, no ?
Bolas, como ele adivinhara? Era to fcil assim interpret-la?
As palavras speras esfolavam suas emoes, deixan-do-a vulnervel e exposta.
	Se no quer que eu pense nisso, no sorria desse jeito! A ltima vez que sorriu assim foi...
	Na vspera de ano-novo?  Nick deu outro sorriso, do tipo impiedoso, que a fez recordar quo gulosamente j sorvera aquela boca.  Nossa, querida, basta isso? Um sorriso? Devia ter me contado h anos!
Ao redor pelo gabinete, os familiares de Dani conversavam sem parar, rindo e gargalhando a curtos intervalos. No que ela tivesse ideia do que diziam. Com o olhar atrado pelo de Nick, viu-se em guas azuis perigosas e sua nica opo era aprender a nadar, ou morrer afogada. Naquele momento, afogar-se parecia a opo mais segura. Lutou por ar, desesperada ao perceber que at o ato simples de respirar se tornara impossvel.
	Nick, acho que no posso continuar com isto.
Ele deu um sorriso predador, os olhos externando fome incontrolvel e desejo selvagem.
	Mas eu no posso perder voc.
O juiz Larson ofereceu uma eadeira. Dani deixou-se afundar no estofado de couro, aliviada por no ter mais de fitar Nick nos olhos.
	Esto prontos?
Nick posicionou-se ao lado da cadeira.
	Dani?
Cabia a ela decidir. Podia dizer  famlia que mudara de ideia. Todos a apoiariam, apesar da preocupao, e da decepo. Ou podia dar um pai a seu beb. O juiz a olhava paciente, compreensivo e sbio.
	Estou pronta  declarou, a respirao levemente ofegante.
Nick pegou-lhe a mo e apertou-a gentilmente.
	V em frente, Henry.
Ento, aconteceu.
A dorzinha chata  base da coluna que a incomodara a manh toda cresceu, transformando-se numa contrao forte. Ofegante, apertou a mo de Nick e olhou-o em pnico.
Ele entendeu na hora.
	Henry?
O juiz ergueu os olhos dos papis.
	Tem algo a dizer antes de comearmos?
	S um pedido. Dani e eu preferimos a verso abreviada, se no se importar.
O juiz tambm entendeu de imediato.
Sem palavras, Nick deu a entender que no deviam passar a informao aos convidados. Se soubessem que Dani entrara em trabalho de parto, ficariam to alvoroados que o casamento jamais se realizaria.
Experiente, o juiz j avaliara o temperamento da famlia de Dani e rapidamente escolheu a melhor estratgia.
	Na verdade, Nick, eu  que ia sugerir isso  replicou, astuto.  Como estou com a agenda cheia, se ningum se opuser, vou casar vocs dois sem floreios.
	J no era sem tempo  retrucou a irreprimvel Kendell.
	Apenas nove meses de atraso  resmungou Ruth, sem poder evitar.
Nick olhou para Dani, que apertara de novo sua mo. Outra contrao! No tinham muito tempo!
	Henry!
	Meus caros...
	Esperem! E as flores?
Nick no sabia qual irm de Dani interrompera, seno a teria estrangulado.
	Vou comprar um caminho de flores para Dani, assim que estivermos casados. Prossiga, Henry.
	Estamos reunidos aqui hoje...
	O beb merece flores  manifestou-se Austin, o pai de Dani, pela primeira vez.
	Pai, no preciso de flores  replicou Dani, aflita.
	Acho que vi uma banca bem em frente ao cartrio. Algum pode dar um pulo l e comprar um buque.
	Est bem.  Nick pegou a carteira e sacou um mao de cdulas.  Quem se habilita?
Um dos sobrinhos de Dani apresentou-se, pegou o dinheiro e disparou porta afora.
O juiz reiniciou o discurso sem demora:
	Estamos aqui reunidos hoje para unir este homem e esta mulher em matrimnio.
	Mas no vamos esperar Christopher?  indagou outra irm de Dani.  S mais cinco minutos.
	Christopher vai perder uma ou duas palavras  ralhou Nick.  Sua Excelncia est com a agenda apertada, no , Henry?
Dani ofegou, e o juiz Larson comeou a transpirar na testa.
	Muito apertada. Acho melhor procedermos  verso curtssima. Nicholas Colter, aceita Danielle Sheraton como sua legtima esposa?
	Nunca vi coisa igual  reclamou Ruth, insatisfeita.
	Aceito!
	E voc, Danielle...
	Eu aceito, eu aceito!  antecipou-se Dani.
	Mas que espcie de casamento  este?  protestou Austin.
	J  meu segundo casamento, pai! A nica diferena  o marido!
	E que bela diferena!  festejou a me.
	Trouxe a aliana, Nick?  apressou o juiz.
	Claro!  Nick abriu a caixinha, abriu a mo esquerda de Dani  fora e colocou o solitrio em seu dedo anular. No esperou a sentena do juiz.  Voc  minha agora, Danielle Colter. Na riqueza e na pobreza, na doena e na sade, e no nascimento dos filhos. Querida, est definitivamente presa a mim.
- Voc fala de um jeito, Nick. S gostaria...  Dani fechou os olhos e estremeceu.
	Do que gostaria, amor?  quis saber ele.
	De poder lhe dar algo.
	Logo vai me dar.  Nick olhou para o juiz.  Henry, tudo em ordem?
	Quase. Se algum sabe de algum impedimento para este matrimnio, que fale agora ou se cale para sempre.  Aps um segundo, concluiu:  Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
	No vai dar tempo.  Nick agarrou a cadeira pelo espaldar e carregou Dani para a porta.  Saiam da frente! Henry, ser que consegue batedores da polcia?
O juiz pegou o telefone.
	Vo estar  espera na frente do cartrio. No se apavore, Nick. Vo chegar  maternidade a tempo.
Ruth deixou cair o queixo, de repente entendendo tudo. Agarrou o brao do marido.
	Oh, minha nossa, ela est em trabalho de parto! Danielle, comeou agora?
	Achei que era s dor nas costas, mas...
	Oh, igualzinho  vez em que tive Richey. Quando percebi que tinha chegado a hora... Oh, Nick,  melhor correr, se no quiser que ela tenha o beb aqui mesmo no corredor.
A cadeira de rodzios deslizava to facilmente quanto uma cadeira de rodas. Dani agarrava-se ao brao da cadeira e  mo da irm Jamie.
	Aguente firme, querida  consolou Nick.  A polcia vai nos abrir caminho.
Ele assim esperava.
Ao longo do corredor, a correria provocava cenas cmicas. Uma jovem advogada pulou para fora do caminho e colidiu com um atendente. A pasta dela voou e se abriu, espalhando o contedo por todo o cho lustroso.
	Oh, devamos pedir desculpas  lamentou Dani, afastando a aba larga do chapu.
	Estamos em situao de emergncia  observou Nick, conduzindo habilmente a cadeira.  Alm disso, seu pessoal vem logo atrs. Eles podem dar uma mozinha.
Olhando por sobre o ombro, viu a famlia de Dani passar pelo local do incidente com toda a delicadeza de um trem expresso. Mais papis se lanaram ao ar. O atendente se viu prensado contra a parede. A pasta da advogada voou de novo, espalhando o pouco que ela conseguira recolher.
Nick e Dani chegaram  entrada do cartrio. Ele a ergueu nos braos.
	Fim da linha, querida.
	Por qu?
	H uma escadaria, lembra-se? No estou vendo a ambulncia, mas os batedores da polcia j chegaram.
Ela colocou os braos em torno do pescoo dele e se-gurou-se bem. O barrigo se apertava contra o peito dele, fazendo-o sentir tambm as contraes fortes. Aflito, ele tentou no se afobar na descida dos degraus.
Bolas, no devia ter insistido na realizao da cerimnia! Fora muito egosmo de sua parte. Devia ter mandado o casamento s favas e corrido com Dani para a maternidade. Se acontecesse algo com o beb devido a sua negligncia, jamais se perdoaria.
Diante do carro da polcia, Nick colocou Dani de p gentilmente.
	Oh, no  sussurrou ela, olhando-o aflita.
	O que foi agora? Ela olhou para baixo.
	Acho que a bolsa se rompeu. Nick apavorou-se de vez.
	A bolsa de gua se rompeu  explicou ao jovem policial, que enrubesceu.  Temos de lev-la para a maternidade rpido. Tem um cobertor a?
O rapaz arranjou um cobertor e abriu a porta traseira do carro. Assim que Nick acomodou Dani no banco, acendeu as luzes, ligou a sirene e arrancou, avanando rapidamente pelas ruas.
	As contraes esto cada vez mais prximas  anunciou Dani, nervosa, e gemeu alto. Seu chapu estremecia a cada contrao, cobrindo-lhe o rosto solidariamente.
Rpido!, urgia Nick em pensamento. Como se ouvisse, o policial afundou o p no acelerador.
	S mais cinco minutos, querida. Aguente firme s mais cinco minutos.
	No sei se vou aguentar tanto tempo! Tenho que empurrar o beb!
	No, ainda no! No empurre!
	Mas tenho que empurrar!  insistiu Dani, os olhos flamejantes.  Sinto que  hora!  Apertou os braos dele, com fora suficiente para interromper a circulao.
	No empurre! Voc tem que...
O que ela tinha de fazer, afinal? Nunca se sentira to indefeso e despreparado na vida.
	Respirar?  sugeriu o jovem policial ao volante.
	Isso, respirar!  acatou Nick.  Respire fundo!
	Eu sei!  esbravejou Dani.  Fiz um curso de preparao para o parto.
Nick sentiu-se culpado. Dani comparecera s aulas sozinha.
	Bem, lembra-se de alguma coisa?
	Claro que me lembro! No est ouvindo minha respirao...  Ela deixou escapar um grito abafado.
	Ofegar!  exclamou Nick.  Tente ofegar. Li em algum lugar que isso ajuda.
Dani recuperou a fala.
	Quer que eu ofegue? Tente voc ofegar com as vsceras contradas como... oooohhhhh!
Ele a estreitou nos braos.
	Acredite, querida, minhas vsceras esto contradas.
Ela enterrou o rosto no ombro dele, deixando cair no assento o chapu de renda branca e fitas de cetim.
	Por que me engravidou? Eu s queria dormir com voc, no ter um filho seu.
O oficial ao volante enrubesceu de novo.
	Acho que ganhou um pacote completo  retrucou Nick, brando.
	Voc fez um estrago enorme, Colter!
Nick no pde evitar o sorriso orgulhoso.
	Desculpe  sussurrou, apaziguador.  Se a faz se sentir melhor, saiba que no planejei engravid-la.
	No, no me faz sentir melhor. E fez um timo trabalho, para quem no planejou nada.  Mais uma contrao a fez expirar por entre os dentes.  Devia ter considerado essa possibilidade quando me seduziu. Como explica? Voc  o crebro da dupla, no eu.
	Caso no tenha percebido, no era meu crebro que estava no comando naquela noite.
	Grande! Decide se libertar dos clculos pela primeira vez na vida e olhe o que acontece!
	Ela deve estar em transio.  o pior estgio do trabalho de parto. Muito doloroso. Elas sempre falam assim na transio, mas no  o que querem dizer de verdade.
	 o que quero dizer, sim! Era para ter sido s uma aventura. Eis meu castigo por uma noite de amor incrvel!
Nick ergueu o sobrolho.
	Incrvel?
	Incrvel. Espetacular. Mas devia ter sido mais. Era difcil para ele entender a lgica dela.
	O que devia ter sido mais?
	Eu devia ter arrancado mais do que uma noite de amor em troca desta agonia. Acho que mereo meses, talvez anos de amor espetacular!
	Verei o que posso fazer por voc.
	Acontece que no vai ter oportunidade!  Ela agar-rou-lhe as lapelas do palet, quase descosturando-as.  Nunca mais vai acontecer. Voc s teve uma chance, e acertou no alvo. Parabns, querido.
	S pode estar em transio  murmurou o policial.
Nick afastou as mechas de cabelo midas da testa dela, nem um pouco desolado. Estavam casados. Teria um ano para faz-la mudar de ideia, e muitas oportunidades para acertar no alvo.
	Grande tacada, no, querida?
Num segundo, Dani passou de raivosa a tristonha, os olhos marejados de lgrimas.
	Nem sequer escolhi os nomes. Se ficar muito tempo assim, o beb pode ficar com complexo e nos odiar para sempre.
	Se for menino, pode se chamar Austin, como seu pai, ou Richard, como seu irmo  sugeriu Nick.  Se for menina... que tal Abigail?
	Abigail?  Ela repetiu o nome mais vezes, baixinho.  Eu gosto.  doce. Um pouco antiquado, mas bonito.
	Combinado, ento? Se for menina, vai se chamar Abigail. Se for menino...
	E seu pai? No gostaria de dar o nome dele a seu filho?
Nick mostrou-se azedo.
	Acho que Austin vai ficar mais satisfeito. Outra contrao se fez, durando uma eternidade.
	Ai, Nick, como di! Por que dar  luz di tanto? Ele detestava sentir-se de mos atadas.
	Eu lamento. Se pudesse sentir as dores por voc, eu sentiria.
	No daria certo  choramingou ela, conformada.
Tratava-se de uma conversa irracional, ridcula mesmo, mas parecia distra-la do parto em andamento.
	Por que no?
O policial freou o carro diante da entrada de emergncia da maternidade e saltou, escancarando a porta traseira.
Dani ainda respondeu:
	Porque voc no pode sentir.
A porta do quarto de Dani na maternidade, Nick segurava um buque de flores, mais constrangido do que nunca.
Ela o viu e sorriu deleitada.
	So para mim? No precisava.
Ele deu de ombros e estendeu-lhe o ramalhete.
	Christopher no chegou mesmo a tempo da cerimnia. E Austin tinha razo. Voc merece flores no dia de seu casamento.
A profuso de cores contrastou lindamente com a renda branca da camisola vitoriana que Dani usava, as fitas que atavam as flores derramando-se sobre a cama. Ela mais parecia uma noiva do que uma mulher que acabara de dar  luz.
Nick pegou dois botes de rosa e prendeu-os entre os cachos da cabeleira castanho-escura.
	Voc merece mais. Muito mais. Mas vai ter de se contentar com isto, por ora.
	Obrigada. So lindas.  Dani olhou para o bero ao lado da cama.  Por falar em linda...
Nick via a filha pela primeira vez. A emoo tirou-lhe a fala. Estendeu a mo para toc-la, mas deteve-se. Ela era perfeita demais. A criatura mais perfeita que j vira. Um dia antes, sentira seu chutinho dentro do tero da me. Agora, podia contar todos os seus dedinhos. Como aquilo era possvel? Quase desafiava a compreenso.
	Quer peg-la?  perguntou Dani.
	No se importa?
	Claro que no. Voc  o pai dela.
Com toda a delicadeza, ele deslizou a mo por sob as costas e cabea do beb. Nossa, como era pequenina. Quase se encaixava na palma de sua mo. Ergueu-a e aco-modou-a no brao. Ela o fitava com olhos grandes e solenes, piscando os clios fartos. Ento, deu um grande bocejo e adormeceu num instante. Simplesmente adormeceu. Era inacreditvel.
	Abigail  murmurou, passando o dedo pela cabecinha ruiva.  Pequena Abigail.
Dani olhou-o curiosa.
	 um nome de famlia?
	No.  s um nome.
Uma enfermeira entrou trazendo um bero mvel.
	Receio ter de levar essa pequena. O pediatra quer fazer um exame completo nela, e a me precisa descansar.
Sem dar a Nick tempo para protestar, tirou o beb adormecido de seus braos e acomodou-o no bero.
Nick viu a filha se afastar sentindo os braos muito vazios. Segurara Abigail por poucos minutos, mas for-mara-se um vnculo irrevogvel. Queria-a de volta. Queria a filha onde pudesse v-la, ouvi-la, proteg-la.
	Foi um dia e tanto  comentou Dani, com um suspiro.
Nick voltou-se para ela, lembrando-se de que tinha uma esposa tambm. Foi sentar-se na beirada da cama.
Leves manchas lilases sob os olhos escuros denunciavam o cansao dela.
	Num prazo de vinte e quatro horas, voc se tornou esposa e me. Uma proeza.
	No perco tempo  reconheceu ela, com um sorriso.
Ela queria dizer algo mais, s que no encontrava as palavras. Vendo-a apertar os dedos na borda do lenol, ele concluiu que era algo srio. O medo assaltou-o. Iria ela pedir-lhe que fosse embora? Diria que o casamento fora um erro? Declararia que, agora que Abigail tinha um nome, no havia por que esperarem um ano para se divorciarem?
	Algum problema?  indagou, sem demonstrar apreenso. Afinal, era um homem insensvel.
	Eu... peo desculpas  murmurou Dani, embaraada.  Disse coisas terrveis a caminho daqui. No sei o que deu em mim. Mas sinto muito se o ofendi. Voc no merecia nada daquilo.
Profundamente aliviado, Nick no pde evitar o sorriso.
	No precisa pedir desculpas. Voc no me ofendeu.
	Ainda bem. No sei como eu teria tido Abigail sem voc.
	Sua famlia teria ajudado.
	No teria sido a mesma coisa.
No, no teria. Pelo menos no para ele. Tivera Dani nos braos naquela ltima meia hora de trabalho de parto, acalmando-a e encorajando-a enquanto lutava para trazer a filha de ambos ao mundo. E ela se agarrara a ele, despejando uma confisso atrs da outra. Sempre quisera um beb. Um menino. No, uma menina. No, gmeos. Ao final, nada importava seno a sade do beb.
Ento veio o arrependimento. Ela quisera avis-lo. Pegara o telefone centenas de vezes, mas sentira medo. Ele teria insistido no casamento.
	Voc sabe por qu.
	Mas eu no queria me casar de novo. No at encontrar algum em quem confiasse. Algum capaz de me amar. No suportaria uma unio como a anterior, sem apoio emocional do marido. No sou um cacto. Um cacto?! Nick abafara o riso.
	No, claro que no.
Aquela altura, tinha de concordar com tudo o que ela dizia, por mais ilgico que fosse.
	Preciso de ar fresco, luz e adubo. E de gua. Muita gua. No posso cuidar de todo o jardim. De vez em quando, tenho de ser aguada e tratada tambm. Peter vivia se esquecendo disso. Deixava que eu secasse e sufocasse.
S ento Nick entendera. Cada palavra atingia-o como uma martelada, porque ela tinha razo. Peter, com todo seu charme e esperteza, s pensava em si mesmo. Durante toda a vida, tomara aquilo que considerava seu de direito.
Tendo vivido sempre em solido, apartado de gente e emoes, Nick queria o que Dani oferecia, a promessa que brilhava em seus grandes olhos escuros. Queria seu calor, carinho e paixo, bem como o beb que juntos haviam gerado.
Mas a dolorosa verdade era... no tinha nada a ofere-cer-lhe em troca. Podia pegar. Mas no podia dar.
Sbito, ps-se a rememorar um dos mais lindos momentos de sua vida:
	Surgiu o topo da cabecinha  dissera o mdico.  Pode assistir ao nascimento pelo espelho, se quiser.
Os minutos seguintes foram os mais miraculosos da vida de Nick. Segurando Dani pelas costas, apertava-a contra o peito, apoiando-a no trabalho de parto. Pasmo, sentiu quando os msculos de seu tero se contorceram no ltimo esforo hercleo.
E aconteceu. O beb escorregara de uma vida para a outra, passando da escurido  luz de um novo mundo.
	E uma menina  anunciara o mdico, animado.
	Abigail  sussurrara Dani.
O bb fez uma careta e emitiu o som mais maravilhoso do mundo, seu primeiro choro.
	Meu pai se alegra  comentara Nick, satisfeito.
	Quer dizer que no est chateado?  indagou Dani, arrancando-o do devaneio.
Nick levou um segundo para voltar  realidade.
	No, Dani. Voc no disse nada que eu j no soubesse.
	Que bom.
	Voc precisa descansar. Vou deix-la.
As faces dela se coloriram.
	Obrigada por tudo, Nick. Pelo casamento e por ter me trazido para c a tempo. E por estar l quando precisei de voc.
	De nada.  Ele hesitou. Precisava reparar uma omisso.  Esqueci uma coisa.
	O qu?
	Ainda no beijei a noiva.
Antes que ela pudesse recha-lo, ele se inclinou e tomou-lhe os lbios. Foi um contato gentil, um sussurro de sensaes. Quisera ser breve, mas a tentao de de-morar-se, de restabelecer contato com aquela boca macia era grande demais para resistir. Aprofundou a unio, derrubando a fraca resistncia dela para explorar os delicados recessos internos. Ela suspirou, sua respirao um blsamo quente, e ele sorveu sua essncia.
Uma noite. Uma noite espetacular, descrevera ela. Era tudo o que tinham tido. No obstante, cada agridoce momento daquela noite fixara-se indelevelmente em sua memria. Aos poucos, foi afastando-se, um nico pensamento dominando-lhe a mente. No foi o bastante. De jeito nenhum. Dani era sua mulher. Dera-lhe uma filha. Estavam unidos, por sangue e pelas circunstncias. E no a deixaria romper aquela ligao. No em um ano.
Nunca.
	Vai voltar?  quis saber ela, sonolenta.
	Claro, querida. Pode contar com minha volta.
Nick foi at um telefone pblico, tirou o fone do gancho e digitou uma sequncia de nmeros. Desligou antes que a ligao se completasse. As mos tremiam-lhe. A causa s podia ser a comoo pelo nascimento de Abigail. De qualquer forma, precisava se conter. No daria rdeas s emoes. No agora. No era seguro.
Controle. Tinha de recuperar o autocontrole.
Fechando os olhos, invocou uma cena especfica. Descobrira que rever-se criana indefesa ajudava-o a controlar as emoes e impedia-o de se magoar. Foram anos de prtica, um interminvel panorama de plancies es-tendendo-se aos horizontes de sua mente. Um grosso carpete de neve cobria cada centmetro do solo gelado. A neve no reluzia ao sol. No havia sol. Nem som. Nem movimento. Nem vida. Apenas manchas cinza-azuladas violavam a pureza da paisagem, bem como o cu acima, encobrindo todo o brilho. A imagem no trazia dor, tam-ouco oferecia paz. Era s uma imagem. E l, naquela terra erma, ele mantinha o autocontrole.
Tirou o fone do gancho novamente e redigitou a mesma eqncia de nmeros. No quarto toque, uma gravao atendeu:
	No podemos atender no momento. Deixe seu recado... por favor.
A voz feminina acrescentara o "por favor" a contragosto, por obrigao. A um sinal agudo seguiu-se um silncio glacial.
	 Nick  declarou, por fim.  S achei que gostaria de saber. Sou pai agora. Minha filha  linda e se chama Abigail. Dois quilos e oitocentos gramas. Ligue-me quando puder e marcaremos uma visita. Ah, e...
Outro som agudo anunciou o trmino do tempo para recado.
	O casamento foi lindo  completou Nick, o queixo duro.  Pena que tenha perdido.
Devagar, desligou o telefone. E foi embora.

CAPITULO 4

Dani aguardava impaciente a chegada de Nick  maternidade. Queria ir embora, fpgir daqueles que gostavam de interferir desagradavel-mente em seus preciosos momentos com Abigail. Infelizmente, porm, no podia ir para casa sem a assistncia do marido, e ele ainda no aparecera.
	Calma, Danielle  pediu Ruth, sua me.  Ele logo vai chegar.
	Talvez ele tenha se esquecido.
	Esquecido a esposa e a filha em menos de vinte e quatro horas? Nick? Impossvel.
	Podemos lev-la, se quiser  ofereceu-se a irm Kendell.
	De jeito nenhum  repreendeu a me, antecipan-do-se a Dani.  Estaramos roubando uma lembrana de Nick, e isso eu no permitiria. Ele j deve estar chegando. E vocs duas, tenham pacincia.
Nick chegou nesse exato instante, detendo-se  porta ao ouvir as ltimas palavras da sogra.
	Perdi alguma coisa?  indagou, desconfiado.
Dani espantou-se ao v-lo vestido informalmente, de camisa de malha esporte e cala jeans to velha que apresentava manchas esbranquiadas. Apesar de folgada, a pea no falhava em delinear seus quadris estreitos, o bumbum musculoso e coxas viris. Seus ombros largos tambm se destacavam sob o tecido macio da camisa.
	Uau!  exclamou Kendell, admirada.  Mas que tansformao! Agora entendo por que quis iniciar o ano-novo com ele!
Com um olhar fulminante, Dani fez a irm caula se calar e concentrou-se de novo no marido. Kendell estava certa. Nick nunca revelara tanto de seu belo fsico.
	Hoje  tera-feira  lembrou, confusa.  Por que no est de terno?
	E assim que ele costuma esconder esses ombros?  provocou Kendell.  Debaixo de risca-de-giz? Vou prestar mais ateno a homens de terno e gravata, de agora em diante.
Nick cruzou os braos, to impressionantes quanto os ombros, e recostou-se no batente da porta.
	Como no vou ao escritrio, dispensei o terno  explicou.  Mas vocs ainda no me contaram quem roubou a lembrana de quem.
Dani custava a acreditar no que ouvira.
	Vai tirar o dia de folga?
Ele a fitou longamente com aqueles incrveis olhos azuis.
	Vou.
Seguiu-se um silncio constrangedor, que o pai de Dani quebrou:
	Bem, vamos embora, ento.  Estendeu a mo a Nick.  Sua filha  linda. Meus parabns.
Ruth abraou o genro.
	Voc foi formidvel. Conseguiu trazer Dani aqui bem a tempo.
	Acho que estou me especializando nisso.
	Isso  timo. Tome conta de sua famlia. Nick abrandou um pouco a expresso sria.
	Sabe que no tem com que se preocupar.
Assim que os sogros se foram, arrastando a filha caula, Nick fixou os olhos em Dani. Ela no sabia o que era pior, se a lgica remota com que ele considerava os demais habitantes do planeta, ou aquele olhar frio e empedernido.
	Bem, vai satisfazer minha curiosidade ou no?
Dani deu um sorriso tmido.
	 s um comentrio que minha famlia costuma fazer. Toda vez que fazemos algo que caberia a outra pessoa, excluindo-a, minha me diz que estamos roubando uma lembrana dessa pessoa.
	E que lembrana iam roubar de mim?
	Eu no estava planejando roubar nada de voc. Kendell  que se ofereceu para me levar para casa...
	Sem mim.
	, sem voc. jAntes que eu pudesse recusar, mame interferiu.	
Dani no sabi se Nick acreditara ou no. Olhando da perspectiva dele, podia entender por qu. Mantivera-o alheio  existncia de Abigail desde o momento de sua concepo, armazenando sozinha nove longos meses de lembranas, momentos que ele nunca pudera partilhar e que jamais reclamaria. E, se dependesse de sua vontade, teria dado a filha  luz sem a presena ou o conhecimento dele. Estava envergonhada.
Recordando os ltimos meses, percebia que cometera um erro terrvel. Exclura Nick de experincias que lhe pertenciam por direito. Numa situao inversa, ou seja, se Nick lhe houvesse omitido informaes que teriam afetado sua vida diretamente, estaria furiosa. Mais que furiosa. Provavelmente, jamais o perdoaria.
Nick no se mostrara furioso, mas preocupado, respeitoso e muito mais gentil do que ela merecia. Sim, forara-a ao casamento, mas tal exigncia ultrajante era at compreensvel, ainda que no a apreciasse. Saber que seu filho carregava o nome de Peter teria enlouquecido Nick, considerando a animosidade que existira entre os dois.
Mordiscou o lbio inferior.
	Peo desculpas, Nick.
Ele no respondeu. Em vez disso, adentrou o quarto e foi at o bero. Sem hesitar, acariciou a bochecha de Abigail.
	Nunca senti nada to macio  murmurou, enternecido.  E como tocar ptalas de rosa.
	Nick...
	O mdico j lhe deu alta?
	J, mas...
	Vou pedir uma cadeira de rodas. Estacionei o carro bem perto da sada.  Deteve-se  porta, rgido.  Comprei uma cadeirinha de carro para Abigail. Foi por isso que me atrasei.
Dani no poderia sentir-se pior. Nick acabara de pro-var-lhe que estava errada. Podia ser inocente desta vez, mas o fato no corrigia seus erros passados. Quando ele voltou com a cadeira de rodas, j estava pronta para ir embora, com Abigail segura nos braos.
Nick continuou solcito e prestativo, mas mal emitiu monosslabos durante todo o trajeto. Recolhera-se a algum lugar secreto s seu, ao qual ela no tinha acesso. Por fim, pararam diante de casa, ou melhor, da casa que fora de Peter.
Nick parecia incomodado com a fato tambm. Contemplou desgostoso a manso exagerada.
	Quanto antes voc se mudar daqui, melhor.
	Pretendo mesmo me mudar para uma casa menor, daqui a um ano, mais ou menos.
	No era nisso que eu estava pensando.
Dani j sabia o que ele ia sugerir e tratou de desiludi-lo:
	Esta casa  muito grande, mas vou ficar at nos
divorciarmos.
Pronto. Deixara claro. Nick contraiu a boca.
	No quero que voc e Abigail fiquem aqui. Minha casa  perfeita para ns trs.
	No vou morar com voc.
	Ah, no?  Ele girou no assento e encarou-a.  E como vai explicar isso a seus pais?
Dani olhou para a frente.
	Vou inventar qualquer coisa.
	Eles esperam que moremos juntos. Esqueceu-se desse pequeno detalhe?
Dani tinha certeza de que ele pensava nos lenis bordados.
	No me esqueci de nada!  Arrepiada ante a prpria voz aguda, olhou por sobre o ombro. Abigail dormia pla-cidamente no assento especial, indiferente  discusso dos pais. Passou a sussurrar:  Morarmos juntos no faz parte do trato, Nick. Foi um ano de casamento em troca de minha colaborao com a SSL No concordei em dormir com voc.
	Pois estou renegociando os termos.
	No pode!
Ele ergueu o sobrolho.
	No? O que vai fazer para me impedir?
	Dizendo uma nica palavra: no.
Nick sorriu malvolo.
	Nesse caso, estou feito! Ainda me lembro de seu sucesso ao usar essa palavrinha da ltima vez.
Dani ficou vermelha como tomate.
	Foi um acidente. Um equvoco. Um acontecimento nico. Com certeza, no serve de base para um casamento.
	Tem certeza?
Ele pousou as mos nos ombros dela.
	Por favor, no  pediu Dani, adivinhando seu intento.  No de novo.
Ele mantinha a boca a milmetros da dela.
	Por que no? Detesta tanto assim?
No, ela no detestava. A estava o problema. Gostava de tudo nele. Gostava de seu toque, de seu gosto, de seus beijos.
Principalmente dos beijos. Mas gostava tambm de torta de ma, o que no significava que lhe fazia bem, ainda mais em excesso. Com Nick, porm, s uma fatia no bastava. No chegava nem perto de satisfazer.
	Por que eu, Nick? - questionou, esgotada.  Por que no outra mulher?
	Porque nenhuma outra mulher consegue me aquecer. Tudo o que quero  me sentir aquecido, querida. Esperei por isso a vida toda.
Ela no entendia aquelas palavras. J o fervor de seus beijos, a fome indisfarada, isso fazia sentido. Era quando entravam em sintonia. No era amor o que sentia. No podia ser. Era luxria. Paixo. Apetite sexual. Tudo bastante aceitvel. Mas no amor. No podia confiar no amor, nem no homem que o oferecia. O amor implicava que ela perderia novamente. O amor implicava abrir mo da prpria vida. O amor implicava dor, frieza e desiluso.
O amor era inaceitvel.
Nick eliminou os milmetros que os separavam, selando seus lbios com os dele, detendo-lhe as palavras, bem como os pensamentos. Os beijos dele no ficariam melhores. E aquele desejo desesperado se abrandaria com o hbito. Ento, sensaes puras dominaram.
Como pudera esquecer-se de quo profundamente ele a afetava? Entreabriu os lbios, convidando o calor, recebendo a doce invaso. Nick era um homem de disciplina, mas seu controle se estilhaara no instante em que se tocaram. Ele exigia, depois, persuadia. Provocava, depois, tentava. O movimento de sua boca e lngua ditava um ritmo que s ele sentia. Mas o corpo dela pareceu recordar, e ela se viu acompanhando-o, regozijando-se na fora crua por trs daquela cano interior primitiva.
Ele enterrou as mos em seus cabelos, erguendo seu rosto para que pudesse explorar ainda mais sua boca. Ela se agarrou a ele, a mente devastada por lembranas. Recordava aquela noite incrvel, inesquecvel. Ele a amara no cho, diante da lareira, e a cada estocada imprimira a si mesmo em seu corao e sua alma. Sentiu um calor na boca do estmago. Acabara de dar  luz. Como podia desej-lo tanto logo aps ter tido Abigail?
Foi o que a fez parar. Abigail. Como pudera esquecer-se dela?
Dani livrou-se de Nick com um repelo, ofegando dentro do carro fechado. Nenhum dos dois disse nada por um bom tempo.
Ento, ele lhe segurou o queixo e obrigou-a a olh-lo nos olhos.
	O que voc sente por mim pode no ser base para um casamento. Pelo menos, no ainda. Mas  um comeo. Goste ou no da ideia, somos uma famlia. Abigail  minha filha tambm. E pretendo ser um bom pai para ela.
	No quero nada alm disso.
	Mas eu quero, e aviso: no vou permitir. Dani ficou confusa.
	O qu?
	Que roube mais lembranas de mim. Dani baixou os olhos, envergonhada.
	Eu errei. Devia ter lhe contado que estava grvida. Desculpe-me. Lamento mais do que pode imaginar. Mas no posso aceitar este casamento. No neste momento.
	E eu no posso ficar sem voc.  Eram as mesmas palavras que ele dissera na hora do casamento, no mesmo tom rspido.  Voc me fez sentir o gostinho do cu. E de admirar que eu no queira que se afaste de mim?
	No posso amar algum como voc.
As palavras simplesmente lhe escaparam, um protesto do corao, eco de um passado de mgoas.
	Por que no?
Dani olhou para a porta da casa.
	J lhe disse. Voc no  mais seguro de se amar do que Peter.
No sobreviveria a outro casamento sem emoes. No era capaz!
	 pena, cara esposa, que no me queira como marido, porque durante um ano estar presa a mim.
Com isso, ele saiu do carro, deu a volta e ajudou-a a se levantar. Abrindo a porta traseira, tirou Abigail de seu assento e apoiou-a contra o ombro.
	Vamos?
Por mais que quisesse contestar aquele autoritarismo, Dani no ousou. A porta, digitou o cdigo trs vezes at que Gem dignou-se desativar o sistema de segurana e autorizar a entrada.
_- BEM-VINDO AO LAR, SENHOR COLTER.
	Solicito mudana de sistema imediata  disse Nick.  Tem uma cpia da voz de Dani na memria?
	AFIRMATIVO, SENHOR COLTER.
	Todas as fechaduras devero atender a seus pedidos verbais at o nvel dois de segurana. Entendido?
	PERFEITAMENTE, SENHOR COLTER.
	O que foi que voc fez?  indagou Dani.  O que significa isso?
	No quero que se atrapalhe com botes e cdigos ao chegar em casa com o beb. De agora em diante, basta se anunciar e pedir a Gem que abra a porta.
	Jura?  s eu dizer "abre-te, Ssamo" e todas as portas vo se abrir?
	Exatamente. Se bem que desaconselho o "abre-te, Ssamo", porque Gem no tem muito senso de humor.
Dani esticou o brao.
	S um minuto, quero ter certeza de que entendi bem. Peo a este monte de circuitos defeituosos que me deixe entrar, e ele permite. Sem alarmes, polcia, botes para apertar e nmeros para lembrar?
	Perfeitamente.
	H quanto tempo isso  possvel?
	Desde o incio.
Dani j fumegava.
	Quer dizer, desde que Peter e eu entramos para a empresa?
	Exato.
	Por que passei todo este tempo sofrendo com esses cdigos, posso saber?
	Pensei que quisesse que Gem operasse dessa maneira.
Nick estava mentindo. Nem se incomodava em tentar disfarar. Estava escrito em sua testa.
	Oh, eu podia mat-lo por isso! Cinco anos tentando me lembrar de todos os nmeros que me passou, e voc me diz agora que no era necessrio?
	Isso mesmo.
	E as mudanas de cdigo a cada ms?  Dani baixou a voz, lembrando-se de Abigail.  No eram necessrias, tampouco?
	Eram, se bem que no todo ms.  Nick achou melhor tirar Abigail dos braos da me agitada.  O sistema de reconhecimento de voz  muito bom, assim como o de anlise de impresses digitais.
	Ah, eu vou matar voc! Fez de propsito, no fez? Deliberadamente, nos fez sofrer na mo dessa parafernlia eletrnica s para se divertir.
Nick embalava o beb.
	No seja ridcula. Isso requer senso de humor e,
conforme j observou inmeras vezes, no tenho mais emoes do que Gem. Como eu poderia me divertir ante seus problemas com o computador?
Dani bufou.
	Ainda no acredito!
	Pois acredite. Peter no se esforou nem um pouco para entender como se operava Gem. Simplesmente exigiu que eu instalasse Gem nesta casa e providenciasse os cdigos. Foi o que fiz.
Dani estava longe de se deixar apaziguar.
	Seu...
	Se algum merece ser xingado,  seu falecido  advertiu Nick.  Nunca vi sujeito mais arrogante e negligente. Ao assumir o trono do pai na SSI, esperou receber tudo de mo beijada, em vez de aprender sobre o negcio. S lhe interessava o resultado final. De quanto dinheiro podia dispor na qualidade de scio? No que tivesse que trabalhar para fazer jus  quantia.  Seus olhos se obscureceram de rancor.  Era um idiota. Nunca considerou o reconhecimento de voz ou as impresses digitais, sendo que bastava abrir mo de cinco minutos de suas aulas de golfe para ler os relatrios de vendas e saber dessas opes.
- Pois eu lia todos os relatrios  declarou Dani, indignada.  Mas achava que esses recursos no estavam disponveis no sistema instalado aqui!
	Bem, estava enganada. Podia ter me perguntado, Dani. Se um dos dois houvesse tomado a iniciativa, eu teria feito a mudana.
Nick tinha razo. Ela e o marido nunca questionaram a capacidade de Gem, demonstrando muita ignorncia.
Os co-proprietrios da SSI no sabiam de nada.
Peter no teria se divertido com o logro. Quanto a ela... Se Nick houvesse pregado aquela pea em outra pessoa, teria morrido de rir! No que isso o inocentasse.
Eis que Abigail abre os olhos e contempla os arredores. A seguir, com uma careta, solta um grito forte e poderoso.
	Ela deve ser noventa por cento pulmes  admirou-se Nick.
Dani pegou o beb.
	Metade pulmes e metade estmago, eu diria. Ela deve estar com fome, por isso, no vou acompanh-lo, est bem?  Era incrvel a civilidade que ainda demonstrava, considerando quo raivosa se encontrava.  Vou amament-la.
Ao menos, tentaria. Ainda no se acostumara quele aspecto da maternidade, mas evidentemente no confessaria tal falha ao pai da criana. No depois do que ele fizera. Estreitando Abigail nos braos, tomou o corredor rumo ao quarto.
	SENHOR COLTER?
	Sim, Gem?
	IDENTIFICAR SOM.  O sistema acionou a gravao do choro de Abigail.
	 minha filha  esclareceu Nick.  Ela se chama Abigail.
O sistema procurou nos arquivos a palavra filha.
	O SENHOR PRODUZIU UM REBENTO FEMININO?
	Isso mesmo, Gem. Alis, a senhora Sheraton  agora a senhora Colter. Ela  minha esposa e me de Abigail.
	UM MOMENTO. ACESSANDO. O SENHOR ESTABELECEU UM LAO CONJUGAL COM A SENHORA SHERATON-COLTER?
	 s senhora Colter agora, Gem. Pode apagar o nome Sheraton de seus bancos de memria  instruiu Nick, com muito prazer.  E, sim, estabeleci um lao conjugal com ela. Ao menos estou tentando.
	A SENHORA COLTER AJUDOU NA PRODUO DO REBENTO FEMININO?
	Sim, ela deu o beb  luz.  Nick lembrou-se de algo importante.  Gem, programe seu sistema para captar aquele som que acaba de gravar. Se ele durar mais que trs minutos, avise Dani.
	EXPLICAO?
	O som significa que o rebento feminino precisa de ateno imediata. Como a casa  muito grande, Dani pode no ouvir.
	AFIRMATIVO, SENHOR COLTER.
Nick teve outra ideia, mas hesitou. Dani no apreciaria nem um pouco. Mas ela no apreciara nada do que ele fizera nos ltimos cinco anos mesmo!
	Gem, ative o sistema de monitoramento  instruiu.  E me contate se ocorrer algo diferente.
	DEFINA DIFERENTE.
	Diferente  todo evento que tira Dani de sua rotina normal. Os relatrios tero nvel de segurana alerta um. Entendido?
	ENTENDIDO.
	Restabelea o sistema depois que eu sair.
	AFIRMATIVO. TENHA UM BOM DIA, SENHOR COLTER.
	Vai ser difcil  resmungou ele.
Com esforo, ele deixou a pequena famlia que acabara de ganhar.
SENHORA COLTER?
Dani acordou sobressaltada, olhando atnita para o quarto s escuras.
	Gem,  voc?
	SIM, SENHORA COLTER.
	O que foi?
	O REBENTO FEMININO ABIGAIL EST EMITINDO UM SOM AGUDO H TRS MINUTOS E DOIS SEGUNDOS. FUI INSTRUDA PARA AVIS-LA DO FATO.
	Abigail est chorando?
	UM MOMENTO.  O sistema transmitiu o som de um choro infantil.  POR FAVOR, CONFIRMAR QUE SOM AGUDO SIGNIFICA CHORAR.
Dani pulou da cama.
	Confirmado!
Num segundo, adentrava o quarto ao lado do seu e tirava o beb do bero, horrorizacta por no ter ouvido seu choro. Abigail estava com fome. Sentou-se na cadeira de balano prxima e desabotoou a frente da camisola.
Era sua quinta tentativa de amamentar a filha. A primeira ocorrera na maternidade, com uma enfermeira dando-lhe instrues detalhadas de como realizar a tarefa que sempre considerara simples, se no instintiva. Pelo jeito, no era mais simples ou instintiva do que programar Gem. Fora o que descobrira, desalentada, nas trs vezes em que tentara alimentar Abigail desde que chegara em casa. O que a lembrava...
	Gem, disse que foi instruda a me avisar sempre que Abigail chorar?
	AFIRMATIVO. SEMPRE QUE O REBENTO FEMININO EMITIR O SOM AGUDO POR MAIS DE TRS MINUTOS, DEVO AVIS-LA. NVEL DE SEGURANA ALERTA UM.
	Foi Nick quem instruiu, no foi?
	AFIRMATIVO.
Aquele autoritarismo de Nick irritava-a, mas tinha de reconhecer que sua atitude se devia  preocupao com a filha. Olhou-a. Ela se recusava a mamar.
	Vamos, meu amor. Voc precisa se alimentar.
Abigail chorava, longa e sonoramente. Numa pausa,
encaixou a boquinha no mamilo outra vez, sugando avidamente por alguns segundos, at abandon-lo com um grito de frustrao.
Dani embalava-a freneticamente, sem saber o que fazer. Por que o beb no mamava? O que havia de errado? Lgrimas lhe embaaram os olhos. Desejara muito um beb, sempre acreditara ser uma me nata. O que podia ser mais natural do que amamentar uma recm-nascida? Seus seios estavam cheios de leite, mas nem uma gota dele se transferia para Abigail.
	SENHORA COLTER?
	O que ?
	EST ACONTECENDO ALGO DIFERENTE?
	Como assim?
	EST SE DESVIANDO DE SUA ROTINA NORMAL?
	Sim, estou me desviando de minha rotina normal  confirmou Dani, em prantos.  Estou falhando como me.  desvio bastante para voc?
	AFIRMATIVO.
	SENHOR COLTER?
A luz se acendeu automaticamente no quarto de Nick e ele se soergueu, alerta.
	O que foi, Gem?
	NVEL DE SEGURANA ALERTA UM. A SENHO^ RA COLTER EST SE DESVIANDO.
	Como?
	HA UM DESVIO EM PROGRESSO NA RESIDNCIA DA SENHORA COLTER.
	Mas o que est acontecendo?
	UM MOMENTO.
O som do choro de Abigail encheu o ambiente, seguido de um soluo de mulher. Dani! Nick pulou da cama e agarrou a cala que deixara dobrada bem  mo.
	Rebobine a fita. Agora.
A tela da televiso se iluminou. A uma ordem de Nick, a cmera focalizou Dani na cadeira de balano com o beb junto aos seios. Por algum motivo, ambas choravam copiosamente.
Pegou a chave do carro em cima da cmoda e saiu voando.

CAPITULO 5

Dani? Ela se voltou para a porta do quarto, interrompendo um soluo. Nick olhava-a preocupado, trajando uma cala jeans e nada mais.
	Nick? O que est fazendo aqui?
	Gem me disse que voc estava com problemas. O que houve? Por que est chorando?
Dani olhou para o beb.
	 Abigail. Ela no mama.
	Por que no?
	Eu no sei! Se soubesse, no estaria chorando!
	Est bem, est bem.  Ele se curvou e tomou a filha nos braos.  Qual o problema, doura? Voc chora muito para quem no quer mamar...
	A culpa  minha!  lamuriou-se Dani.  Ela suga, mas o leite no sai!
	A enfermeira no disse que era preciso dar um tempo?
	Eu j fiz de tudo, mas no adianta!  Dani inspirou nervosamente.  Deve estar entupido!
	Parece que a ouvi dizer que voc tinha de relaxar para a coisa funcionar  lembrou Nick, tentando acalmar a criana.  Voc no parece relaxada.
	Como posso relaxar, com o beb chorando desse jeito?  gritou ela. Ento, respirou fundo.  Desculpe-me  sussurrou, arrependida.  Estou me esforando ao mximo para tudo dar certo, mas no est adiantando.
	A enfermeira no sugeriu que tomasse um banho quente antes das primeiras tentativas?
Dani encarou-o.
	Tinha me esquecido.
	V para o chuveiro, ento, que eu fico com a pequena aqui. Depois, v para a cama. Vamos tentar de novo. Talvez d certo, que tal?
Dani no precisou de mais incentivo. Estava disposta a tentar tudo. No banheiro, despiu a camisola e abriu a gua do chuveiro, regulando bem a temperatura no aquecedor. Sentia os seios dolorosamente cheios e ardentes. Lgrimas voltaram a assalt-la. Talvez fosse defeituosa e no pudesse amamentar. Chorou mais um pouco e fechou a gua. At a toalha machucava sua pele sensvel, mas conseguiu enxugar-se. Vestiu a camisola, foi para o quarto e estacou.
Nick ocupava metade de sua cama, e no estava sozinho.
Como se houvesse nascido para ser pai, ele segurava Abigail no brao, deixando-a sugar a ponta de seu dedo mnimo. Recostado em meia dzia de travesseiros, ao v-la deu palmadinhas no espao estreito ao lado.
	Pronta para tentar de novo? Dani umedeceu os lbios, apreensiva.
	O que pensa que est fazendo?
	Abrindo espao para voc.
	Quero saber o que est fazendo em minha cama.
	Ora, Dani, voc precisava de ajuda e eu era o nico disponvel. Venha c. Vamos ver se conseguimos resolver isto juntos.
Ela no queria ficar junto dele. Era ntimo demais, sugestivo demais. Trazia  lembrana o que acontecera nove meses antes.
	Nick...
	No foi aqui que aconteceu  observou ele.  Foi na minha casa.
	Pare de ler meus pensamentos!  Tarde demais, ela mordeu o lbio.  Como adivinha sempre?
Ele deu de ombros.
	 psquico.
	Falo srio. Como sabe?
	Quer a verdade?
	Por favor.
	Voc fica vermelha. Dani refletiu.
	S isso? Fico vermelha?
	E seus olhos ficam assim.
	Assim como?
	Vamos, mulher, estamos perdendo tempo! J para c!
Mulher. Em termos, pensou Dani.
Ento, Abigail comeou a se agitar de novo, deixando-a sem opo. Rendeu-se ao inevitvel. Gatinhando entre as pernas de Nick, acomodou-se de costas no vo estreito entre suas coxas.
Ele no deixara muito espao, de propsito. Aps transferir Abigail para seus braos, manteve ambas estreitadas. Ela podia sentir o calor dele atravs da cambraia de algodo da camisola, trilhando fogo ao longo de sua coluna. Pior foi o movimento dos msculos e tendes dele junto a suas costas ao se ajeitar contra os travesseiros. Como ela podia relaxar recostada nele, estando ele seminu? No podia ter vestido uma camisa antes de sair? No teria levado mais que dois segundos.
Fechou os olhos. No, Nick no teria desperdiado nem dois segundos. Ela precisara dele, e ele fora correndo. Inspirou de modo entrecortado, rogando para que ele no notasse sua perturbao. Por que ele tinha de ser to generoso e diligente? Por que no adotava a atitude de Peter, o eterno egosta? Nenhum dos dois acreditava no amor. Como poderiam, se eram desprovidos de sentimentos? Se ao menos Nick admitisse isso, poderia elimin-lo de sua vida e, mais importante, de suas lembranas!
Impunha-se encarar a verdade dolorosa. Por mais que desejasse o contrrio, seu marido no podia satisfazer suas necessidades. Ele a beijara ao chegarem da maternidade sabendo qual seria a reao dela, optando pelo caminho mais curto para obter o que desejava, a filha. Era to lgico e frio quanto o programa de computador que inventara, e to incapaz quanto este de experimentar o amor. Mesmo cnscia de que o amor dele pela nova famlia era genuno, de que ele queria mesmo ser um bom pai, alm de um bom marido, no lhe permitiria arrast-la para o deserto ermo de sua vida. Peter quase a destrura com sua falsidade e carter caprichoso. No daria a Nick Colter a oportunidade de completar o trabalho. No o deixaria congelar o que restara de seu corao e alma.
Ele roou o queixo em sua tmpora.
	Agora, querida. Tente.
Constrangida, Dani abriu a frente da camisola e levou Abigail ao seio. O beb comeou a espernear.
	Eu no disse? No consigo!
	Claro que consegue. S est nervosa. A enfermeira disse que era normal em mes de primeira viagem. Feche os olhos.
	Para qu?
	Feche os olhos. Cansada, ela obedeceu.
	Andei pensando nesse problema.
	Logicamente. Nick deu de ombros.
	E existe outra maneira? O fato  que, ao usarmos uma bomba pela primeira vez, temos de excit-la.
	E como se excita uma bomba?
	Normalmente, fora-se a gua pelo cano a fim de expulsar o ar. To logo o ar escapa, a gua jorra.
Dani abriu os olhos.
	Nick, acho que no d para fazer isso nesta bomba. Vou deixar claro: voc no vai fazer isso com esta bomba.
Nick riu.
	No se aflija. Pensei noutro mtodo.
	Que seria?
	Bem, essa bomba no est funcionando porque a tenso contraiu os dutos e o leite no flui.  Ele comeou a massagear-lhe os ombros.  Vamos ver se isto ajuda.
No, no daria certo! Ela no conseguiria desobstruir nada com as mos dele em contato com seu corpo!
	Nick...
	Psiu. Feche os olhos e me deixe amaciar estes msculos. Gem, pode tocar uma msica suave, bem baixinho, por favor?
	AFIRMATIVO, SENHOR COLTER.
Instantaneamente, o som lmpido e melodioso de um
saxofone encheu o quarto. Nick sintonizou os movimentos das mos com a msica, localizando e desfazendo com os polegares os pontos de tenso. Aps alguns minutos, Dani parou de resistir e permitiu que as mos dele realizassem a mgica. Puxa, como estava cansada. Acontecera tanta coisa nos ltimos dias. Para comear, tinha um beb junto ao seio e um marido tocando-a no corpo todo.
	Solte-se, querida  sussurrou ele em seu ouvido.
 Recoste-se em mim. Eu a manterei segura.
Sem pensar, ela relaxou no abrao dele. Abigail choramingou e abocanhou o mamilo mais uma vez.
Surpresa, Dani sentiu o leite fluir no seio, uma sensao nunca experimentada antes. O beb comeou a sugar avidamente.
	Oh!
	Deu certo?
Dani olhou para a frente da camisola, encharcada de leite. Aparentemente, aquela bomba tinha s um controle para as duas torneiras.
	Parece que seu mtodo funcionou bem demais. Est vazando mais leite do que Abigail precisa.
	Antes assim.
A mamada de Abigail agora servia de acompanhamento ao pungente som instrumental. Dani se afundou no abrao de Nick e fechou os olhos, feliz por ter superado o primeiro obstculo como me. Ele estreitava a ambas em calor e segurana.
Virando o rosto, Dani viu os plos castanhos que cobriam o peito de Nick. J adormecera assim uma vez, havia muito tempo. Tivera sonhos doces, num ar repleto de encantamento.
	Como soube que eu precisava de ajuda?  indagou, curiosa.
	Gem me avisou. Dani estava surpresa.
	No sabia que as duas casas estavam conectadas.
	No estavam, at ontem  noite.
	Voc interligou os sistemas?
	Assim que Abigail nasceu. Dani no entendia.
	Mas quanto tempo levou? Nick bocejou.
	Quase toda a noite.
	E ainda foi comprar a cadeirinha para o carro?
	Isso mesmo. Depois, fui buscar minha famlia na maternidade.
Nick falava sem emoo, mas Dani sentia o afeto por trs de cada palavra. A partir do momento em que batera a sua porta e a vira grvida, ele tomara todas as providncias para cuidar dela e de Abigail, para impor seu lugar na vida de ambas. A cada passo, enfrentara a resistncia dela com igual determinao. Sem dvida, seu objetivo era tornar-se indispensvel. Ainda que se sentisse sufocada com a atitude autoritria dele, nunca duvidara da sinceridade de seus motivos.
S que ele queria algo que ela no podia lhe dar.
	Como Gem sabia que devia contatar voc?
	Eu a instru a me avisar se algo diferente acontecesse.
Dani recordou as perguntas do sistema computadorizado.
	Quer dizer, se eu me desviasse de minha rotina normal?
	Mais ou menos isso.  Nick enganchou um cacho de seu cabelo atrs da orelha.  Ficou chateada?
Ela achou por bem dizer a verdade.
	Um pouco.
	Talvez devesse considerar isso. Uma vez que no quer ir morar comigo, tem de haver um jeito de eu saber se voc e Abigail esto bem. Gem pode tratar disso. Sempre que precisar de mim, diga a ela, e ela me encontrar.
Dani levou o beb ao ombro e deu-lhe palmadinhas nas costas at que liberasse um pequeno arroto.
	Voc tem de estar sempre no controle, no , Nick?
	Se tomar conta de voc e Abigail significa estar no controle, a resposta  sim. Vocs so a minha famlia agora. No me pea para ignorar esse fato.  impossvel.
	No se trata apenas de ns. So os negcios, sua vida pessoal e mesmo Gem. O que acha que aconteceria se se desligasse um pouco?
	Sei o que aconteceu na nica vez em que perdi o controle. Voc engravidou e minha filha quase recebeu o nome de outro homem.  Sem aguardar resposta, supondo que ela tivesse alguma, disparou:  Pois me diga voc: o que teria feito esta noite, se eu no tivesse aparecido?
	No sei  admitiu Dani.  Acho que teria telefonado para minha me, ou para a maternidade, pedindo instrues. Se no conseguisse mesmo amamentar Abby, teria lhe dado um leite especial.
	E perderia a chance de amamentar. No acha que a experincia compensa sacrificar um pouco sua privacidade?
	Acho que sim.  Ela suspirou.  Foi bom voc ter vindo.
	Se voc se mudasse l para casa, eu no teria que pegar o carro e vir aqui no meio da noite na prxima vez que tivesse um problema.
	No abuse da sorte Nick. J ganhou bastante terreno por uma noite. Desista.
	Est bem, est bem.  Ele falava brandamente, mas com um leve tom de advertncia:  Por ora.
Devagar, ele a soltou e saiu da cama. Sem poder evitar, ela o admirou ao espreguiar-se cheio de graa e poder masculinos. Seus cabelos loiros estavam em desalinho, um fascinante emaranhado de mechas em vrios tons. Seu corpo lembrava uma esttua grega, com ombros to largos quanto se lembrava e pele lindamente bronzeada. Os plos castanhos no peito desenhavam uma pirmide invertida, a ponta desaparecendo sob a cala jeans de cintura baixa. Baixou mais o olhar, percorrendo as longas pernas envoltas em denim. Ento, no pde evitar o sorriso.
	Saiu s pressas, no foi?
Nick ajeitava os cabelos com as mos.
	Voando. Por qu?
	Esqueceu os sapatos.
	E a camisa. E a carteira.
	No  do seu feitio. Ele ergueu o sobrolho.
	Como pode saber?
	Cinco anos de observao me ensinaram um pouco sobre voc.
Nick balanou a cabea, discordando.
	Posso ter sido seu scio todo esse tempo, posso ser seu marido agora e, por tabela, voc pode at ter me classificado, mas no me conhece.
Dani arrepiou-se ao som glido da voz dele.
	O que eu no sei, Nick? Explique.
	V morar comigo, e logo saber.
Pela primeira vez, ela experimentou uma sensao de perigo, instintiva, como nunca imaginara existir. Agita-va-se em seu mago, assim como o instinto de subjugar e conquistar manifestava-se dentro de Nick. Com a boca seca, sentia nas entranhas uma estranha combinao de medo e excitao. As narinas dele inflavam, como se testassem o ar. Ele absorvia o cheiro dela, concentrava os sentidos em sua essncia nica. Gravava-a na memria para uso futuro, quando poderia aproveitar-se do desejo implacvel que ela revelara de modo to insensato.
	Abby dormiu  comentou, nervosamente.
O sorriso dele foi como um flash na penumbra do quarto, carregado de perspiccia e intenes.
	Pode deixar que eu troco a fralda dela e a ponho no bero. Voc precisa descansar.
Dani no se ops quando Nick lhe tirou a criana dos braos, at perceber o quanto ficara exposta. Tinha a camisola toda aberta na frente, em boa parte encharcada com o excesso de leite.
Nick olhava-a com indisfarado fascnio. A maternidade transformara seu corpo ao longo daqueles nove meses, fortalecendo-a para que pudesse nutrir o beb em formao, alterando a forma e a textura de seus seios. Maiores do que antes, exibiam veias azuis sob a pele branca, e os mamilos haviam se alargado e obscurecido.
	Eu no tinha percebido...  Ele teve de fazer uma pausa, ofegante.  Voc est linda, querida.
Dani fechou o decote da camisola. O que deveria dizer? Por algum motivo, "obrigada" no lhe parecia apropriado. Ora, sua me no descrevera nenhuma situao como aquela em suas conversas sobre amor e casamento.
	Voc... vai embora depois que puser Abby no bero?
	Com certeza no vou ficar aqui.
Ela devia deixar o assunto morrer ali. Mas no pde. Viu-se compelida a fazer a pergunta que deveria evitar:
	Por qu?
	No vou dormir na cama de outro homem.
Dani contraiu a boca.
	No era um convite. Alm disso, no foi esta cama que Peter e eu partilhamos.
	Mas partilharam este quarto  replicou Nick, desgostoso.  Partilharam esta casa.
	E da?  questionou Dani.  No vou fingir que nosso casamento no aconteceu.
	No estou lhe pedindo isso.  Ele apoiou Abigail contra o ombro com incrvel facilidade para quem era pai havia apenas um dia.  S que no vou tomar o lugar dele.
	Isso no seria possvel  garantiu Dani.
Era verdade. Peter fora um garoto inconsequente. Nick era um homem, e dos mais responsveis. Ele a encarou pesaroso.
	Desculpe-me. Sei que deve sentir falta dele.
Tratava-se de um comentrio generoso, ainda mais
considerando os sentimentos dele pelo falecido scio. Mas a triste verdade era que ela no sentia a menor falta do finado marido. Lamentava sua morte, com certeza, mas no sentia falta dele. Nenhuma.
	No tenho do que me queixar.
Nick cortou o assunto dando-lhe as costas.
	Troque a camisola e tente dormir, querida. Acho que nossa filha vai querer mamar de novo daqui a pouco.
Telefone se precisar de mim.
	Pode deixar. Nick? Ele se voltou da porta.
	Sim?
	S quero que saiba: voc j me deu muito mais do que Peter.  Ante o olhar interrogativo, Dani explicou:  Eu sempre quis ter um beb. Cheguei a me desesperar. Peter no poderia realizar meu sonho, mesmo que quisesse.
Nick franziu o cenho.
	Como assim?
	Peter era estril.
Ele no disfarou o espanto.
	Nunca imaginei.
E deixou o quarto com expresso enigmtica.
Nick acomodou a filha no bero e ficou um bom tempo observando-a.
	Boa noite, amorzinho  murmurou, por fim, girando o mbile pendurado no gancho.
	SENHOR COLTER?
Ele sorriu. O sistema computadorizado baixara o volume, a exemplo dele.
	Sim, Gem?
	EXPLIQUE A CORRELAO ENTRE REBENTO FEMININO, MSICA SUAVE E TENTATIVA BEM-SU-CEDIDA DE AMAMENTAO.
	A msica suave ajudou Dani a relaxar o bastante para alimentar o beb.
	TENTATIVAS ANTERIORES NO FORAM BEM-SUCEDIDAS?
	Isso mesmo, Gem.
	A MSICA  NECESSRIA AO SUCESSO DA TCNICA DE AMAMENTAO?
	Parece que sim.  O silncio tomou conta do quarto, e Nick deu uma ltima olhada em Abigail.  No se preocupe, pequenina. No vai demorar muito agora. Eu prometo.
Dani cerrou os dentes.
	Pouco me importa o que o senhor Colter disse, Gem. A senhora Colter est ouvindo a mesma msica h duas semanas. Desligue isso j.
	A MSICA SUAVE  NECESSRIA AO SUCESSO DA TENTATIVA DE AMAMENTAR O REBENTO FEMININO.
	A msica suave no  mais necessria ao sucesso da tentativa de amamentar o rebento feminino. Na verdade, se voc no a desligar agora, a tentativa de amamentar o rebento feminino ir fracassar. Est me entendendo, seu emaranhado de circuitos defeituoso?
	FAVOR UTILIZAR FORMA ADEQUADA DE TRATAMENTO AO FAZER UMA REQUISIO.
	Gem! Desligue essa msica!  Como o sistema computadorizado no obedecia, Dani s viu uma soluo:  Nvel de segurana alerta um. Informe ao senhor Colter que estou me desviando de minha rotina normal.
	FAVOR CONFIRMAR. NVEL DE SEGURANA ALERTA UM EM ANDAMENTO?
	Confirmado!
Quinze segundos depois, o telefone tocou. Era Nick.
	Estou a caminho. O que houve?
	Faa Gem desligar a msica suave.
	O qu?
	Isso mesmo que ouviu! Ela pode tocar o que quiser, mas mais um minuto desse saxofone e eu vou pegar uma machadinha e comear a cortar fios at desligar esse monstro!
	Gem!
No mesmo instante, o sistema computadorizado passou a emitir uma sinfonia de Mozart.
	Oh, obrigada  aliviou-se Dani, desligando o telefone.
Gem no era to cabea-dura quanto queria fazer crer.
Diante do monitor de televiso desligado, Nick esforava-se para tomar a atitude correta. Para optar pela moral. Para escolher o caminho mais elevado. Aguentou trinta segundos.
	Ligar monitor  ordenou, cedendo ao trao inferior de sua natureza.
A tela se iluminou. Sentada na cadeira de balano, Dani amamentava Abigail, agora com trs semanas. A imagem era perfeita, nas cores e no foco. Ao acionar o zoom da cmera, pde ver em detalhes a pele cremosa do seio da esposa, bem como os dedinhos do beb nele apoiados. Abbey contemplava a me enquanto sugava satisfeita, um fio de leite escapando pelo canto da boquinha cheia. De vez em quando, ela agitava a mozinha, mas logo a pousava de novo sobre a fonte de seu sustento.
A cena o tocou de maneira instantnea e inequvoca.
	Som  ordenou ao sistema.
	SENHOR COLTER?
	Eu disse para transmitir o som, Gem.
	EST ACONTECENDO ALGO DIFERENTE? Nick fez uma careta.
	, acho que sim.
	EST SE DESVIANDO DE SUA ROTINA NORMAL?
	Sim, Gem, estou me desviando de algo terrvel.
	ENTENDIDO.
	Gem, e o som?
Por algum motivo, o sistema computadorizado no respondeu. Pelo monitor de televiso, Nick viu Dani levan-tar-se de repente e sair do quarto. Segundos depois, o telefone ao lado dele tocava.
	Aqui  Colter.
	Nick?  Dani. Est tudo bem?
Pego desprevenido, ele levou um instante para se recuperar.
	Est. Por qu?
	Gem me disse que voc estava se desviando. O que aconteceu?
Ele fechou os olhos, desolado.
	Nada.
	Ento, por que est se desviando?
	Eu no estou me desviando.
	Mas Gem disse que...
	Desde quando presta ateno a que Gem diz?

	Desde agora. Estou indo a. Ele ficou rubro de raiva.
	Se aparecer aqui,  para ficar. Entendeu?
Dani soltou um suspiro e foi como se o tocasse, afagasse e abraasse. De punhos cerrados, ele lutava contra o desejo que buscava liberao. Ardia por ela, por transformar aquele suspiro num gemido, por restabelecer contato com cada centmetro dela.
Fizeram amor duas vezes na noite em que Abigail foi concebida. A primeira, s pressas, em desespero. Mas a segunda... Cus, ainda lhe coloria os sonhos. Aquela segunda vez fora irreal. Nunca tivera uma mulher to aberta, to honesta, entregando-lhe o corpo com tanta alegria. Mais que isso, ela lhe confiara o corao e a alma. Ainda os guardava. Infelizmente, porm, ela era proibida. Ao menos por ora.
	Por favor, Nick, deixe-me ajudar.
	No desta vez. Pode deixar que eu cuido do meu desvio.
	 uma estrada de mo nica, certo? Voc vem correndo quando Abby e eu precisamos de ajuda, mas ns no podemos fazer o mesmo.
	O casamento  uma estrada de mo dupla, querida. Venha, se  isso o que quer.  Nick fez uma pausa.  Mas, uma vez aqui, ter de ficar.
	No  possvel  lamentou Dani. Pela tela, ele via o quanto lhe custava dizer tais palavras.  No vou embarcar noutro casamento vazio.
	No vai ser vazio, Dani.
	No entende? Voc  to incapaz de emoes quanto Peter. Ele passou a vida toda no raso, sem imaginar que existiam guas mais profundas, mais ricas, a explorar. Voc at sabe dessas guas, mas...
Nick engoliu o n na garganta.
	Prossiga.
	Mas tambm as evita.
	Concluindo?
	Voc enterrou suas emoes muito fundo, e h tanto tempo, que duvido de que as reconhecesse mesmo que o esbofeteassem.
Ele cerrou os punhos at os dedos ficarem brancos.  Mais alguma observao, Dani?
	No quero Abigail compartilhando uma vida to rida. Eu me criei cercada de amor, alegria e afeto...  Dani se agarrou ao beb como se precisasse de sua fora vital para concluir a declarao.  Ento, ao me casar, foi como me mudar para um mausolu frio. No suportaria isso novamente.
Nick fechou os olhos, incapaz de emitir qualquer som. Controle. Precisava de controle absoluto. No era fcil de obter. Felizmente, tinha prtica.
	Eu entendo  assegurou, por fim.  Eu no faria nada que magoasse voc ou Abigail.
	Nick...
	No se preocupe, Dani. Eu estou bem. At amanh.
	Espere, Nick...
Ele desligou o telefone, gentil.
	Cessar imagem  ordenou ao sistema.
Instantaneamente, a tela se apagou.
CAPITULO 6

Diante da escrivaninha no escritrio de Nick, Dani procurava coragem para revelar o verdadeiro motivo de sua presena ali.
	Est ouvindo, Dani?  ralhou ele, interrompendo a explanao sobre a situao financeira da SSL  Isto  srio.
	Estou ouvindo, s no estou entendendo.  Decidindo pr de lado as preocupaes quanto ao que ele lhe dissera pelo telefone  noite, ela se concentrou nas informaes expostas, mas teve pouco esclarecimento.  Como podemos estar em dificuldades financeiras? O ltimo relatrio que me deu diz exatamente o oposto.
Nick baixou os olhos para os papis espalhados sobre a mesa. Era estranho que no a encarasse. Nunca o vira agir assim antes.
	 a concorrncia  revelou, por fim.  Sem Peter para cuidar de nossos assuntos domsticos enquanto eu estava no exterior, ficamos com uma certa defasagem a alcanar.
Dani franziu ainda mais o cenho. Peter nunca contribura tanto com a empresa. Era especialista em vendas. Mesmo a essa rea, dedicava o mnimo tempo aceitvel. Por que a falta dele acarretaria tantas dificuldades, considerando o exrcito de vendedores e executivos de marketing com que contavam?
	Continuo no entendendo.
	Vou simplificar. Neste ltimo ano, praticamente no realizamos vendas domsticas. Nesse perodo no conquistamos nenhum cliente importante. E alguns dos antigos compradores esto abandonando o navio. Precisa mos recuper-los, bem como fechar novos contratos.
Ela suspirou.
	O que quer que eu faa?
	Tenho sondado um cliente em potencial, Raven Sier-ra, dono de uma cadeia de cooperativas agrcolas. J quase o convenci a testar um sistema de segurana semelhante ao Gem. Se ele aceitar um teste experimental e o aprovar, vai comprar o sistema para a casa e o escritrio. Isso nos dar todo um novo nicho do mercado a explorar.
	Sierra tem tanta influncia assim?  A confirmao de Nick, Dani quis saber:  E meu papel ser exatamente...?
	Mostrar a ele como  fcil operar Gem. Dani no se conteve e riu.
	S pode estar brincando!
	Ele quer ter certeza de que a filha no ter problemas com o sistema.
	Nesse caso, voc devia estar tendo esta conversa com seu computador.
	Quantas vezes terei de dizer que...
	Eu sei, eu sei, que Gem  uma mquina e desempenha funes para as quais foi programada.
	Exatamente.
	Sem raciocnio. Sem emoes. Apenas placas de circuitos e chips de memria, certo, Nick?
Ele contraiu os lbios.
	A exemplo de seu criador.
Dani paralisou-se ante o comentrio, de repente lem-brando-se da razo de sua visita: retomar a conversa telefnica que tinham tido  noite.
	No foi o que eu quis dizer.
Nick empurrou a cadeira para trs e levantou-se.
 Mas foi o que pensou.
Ela se enrijeceu, cautelosa.
 Por algum motivo, voc est determinado a transformar este casamento numa unio verdadeira, mas no vai conseguir. Tivemos uma nica noite. Nada mais.
Ele caminhou at a janela e ficou de costas para ela.
	Uma noite espetacular.
	Sim, uma noite espetacular  concordou Dani, devastada pelas lembranas.  Mas no uma base suficiente para um casamento. Tem de haver confiana e... compromisso emocional.
Nick voltou-se.
	E Abigail? Ela no constitui base suficiente?
	Podia constituir, se as coisas tivessem sido diferentes.
	Especifique.
Ela balanou a cabea.
	Est se ouvindo, Nick? "Especifique." No pode sim
plesmente gritar uma ordem e esperar que eu execute
alguma funo. Sou uma mulher.
Ele esboou um sorriso.
	Acha que no sei disso?
	Acho que no. No sou Geim No pode apertar um boto ou programar certas funes para me transformar numa esposa modelo. No sou uma mquina, Nick. Quero mais.
	Diga-me o que quer.  O tom dele era de exigncia, ainda que sob aparente calma. A frustrao, mantinha sob controle, rgido controle.  Diga e ser seu.
Dani fechou os olhos, refletindo. Ao chegar a uma concluso, deu uma risada vacilante.
	Sabe, estou tentando elaborar um argumento lgico, esforando-me ao mximo para no me mostrar emocional, porque sei que isso no faz sentido para voc.  Pitou-o nos olhos azuis de ao.  Mas no consigo e o problema est em mim. Sou uma pessoa emocional, Nick. Voc programou Gem para avis-lo quando eu me desvio.
O que voc parece no entender  que eu me desvio o tempo todo.
	Acha que no entendo?
	Pelo que sei, isso aconteceu s uma vez.
O semblante dele se endureceu. E os olhos... oh, os olhos dele fulguravam com mais emoo do que ela jamais imaginara possvel!
Com poucos passos determinados, ele eliminou a distncia entre ambos.
	Nick, no...  murmurou Dani, apertando as mos nos braos da cadeira.
	S uma vez?  replicou ele, inclinando-se e to-mando-a nos braos.  Caso ainda no tenha percebido, mulher, estou me desviando neste exato momento. Estou me desviando de um jeito inacreditvel.  Com a boca a um centmetro da dela, enterrou as mos em sua basta cabeleira.  Quero voc, Dani. Quero voc nos meus braos. Quero voc na minha cama. Mas, acima de tudo, quero voc na minha vida.
Ento, ele a beijou.
Desesperado e vido, ele a consumia, sorvia, saboreava a essncia rica e doce. E ela se via indefesa em seus braos. Ou melhor, no totalmente indefesa. Podia retroceder quando quisesse. S que no queria. Cus, no suportaria abandonar o den que ele criara. Nunca experimentara nada igual com Peter. Partilharam uma paixo, mas no nesse nvel, ou altura, ou profundidade, ou grau. Tinham sido como crianas brincando de amor.
No se comparava a essa fora consumidora. A cada beijo, a cada mordiscada e toque de lngua, Nick provava que o que ambos sentiam ultrapassava a mera paixo. Impondo um compromisso, revelava uma splica sob a exigncia selvagem.
	O que quer de mim?  indagou Dani, perdida no beijo.
Ele no respondeu de imediato, mas era certo que ouvira. Tomando-lhe o rosto, roou os lbios por suas plpebras. A seguir, saciou-se em sua boca uma ltima vez, num tributo s emoes que ela estava determinada a negar.
	Quero o que puder me dar  esclareceu ele, por fim.  Quero tudo, mas aceito as sobras.
Os olhos de Dani encheram-se de lgrimas.
	Ser que no entende? No sobrou nada!
	Dispe de mais do que imagina. S est com medo de confiar em mim.  Nick posicionou as mos junto aos seios dela e passou os polegares pelos mamilos dilatados.  Isto basta para voc, Dani?
	Isso s prova que voc me quer.  Ela sentiu uma lgrima escorrer pelo rosto afogueado.  Disso eu j sabia. Peter tambm me quis. Por algum tempo. Meu erro foi confundir desejo com amor. Eu tinha dezessete anos e acreditava ter encontrado minha alma-gmea. Dei a ele tudo o que havia dentro de mim. E ele foi tomando, tomando, at que no restasse nada.  Sufocou o choro.  S ento percebi que ele no me amava, nunca tinha me amado e jamais me amaria.
	Dani...
	Sabe quais foram as ltimas'palavras que ele me disse: "Bem, doura, foi divertido, mas voc sabia que no ia durar para sempre". E sorriu, esperando que eu encarasse o fato com bom humor. Como eu continuei sria, ele me olhou condescendente e aconselhou: "Da prxima vez, encontre algum que acredita no amor".
Nick envolveu-a nos braos.
	Ele se foi, Dani. No pode mais mago-la.
	Mas ele falou certo  concluiu ela, a voz fria.  Talvez pela primeira e nica vez na vida, ele falou certo. Na prxima vez que eu me comprometer, presumindo que confie o bastante para me comprometer, ser com um homem capaz de me amar tanto quanto eu a ele. No vou aceitar menos do que isso. Nunca mais.
	SENHOR COLTER?  interrompeu Gem, como um vento frio anunciando a chegada do inverno.
	O que foi?  bronqueou ele.
	RECADO PRIORIDADE UM.
	Transmita.
A gravao de uma voz feminina encheu a sala:
	Jantar s seis na sexta-feira.
	FIM DO RECADO  declarou Gem. Dani umedeceu os lbios.
	Quem era?
Nick retornara a seu lar glido. Um frio de amargar eliminava o calor que ele desprendera segundos antes. Separando-se de Dani, foi de novo postar-se  janela.
	Era minha me.
Ela no pde evitar o espanto.
	Sua me?
	Sim, eu tenho me. E pai.  Nick deu um sorriso amargo.  J sei. Sempre imaginou que eu era formado de fios e arames.
Ela ignorou o sarcasmo.
	Pensei que fossem falecidos. Nunca falou deles. Nick deu de ombros.
	No, no so falecidos. No fisicamente.
	No estou entendendo.
	No importa. Creio que o convite se estende a todos ns. Eles devem querer conhecer minha mulher e minha filha.
	Eu adoraria conhec-los tambm. Pena que no tenham podido comparecer ao casamento.  S ento Dani cogitou:  Voc os convidou, no?
Ele riu ante a pergunta, de um jeito to amargurado que ela se amedrontou.
	O que voc acha?
Dani lembrou-se de que ele aguardara um bom tempo  porta do gabinete do juiz, ansioso, olhando para os dois lados do corredor. At perder a esperana.
De que seus pais chegassem?
 NVEL DE SEGURANA ALERTA UM EM ANDAMENTO. REBENTO FEMININO EMITINDO SOM AGUDO. POR FAVOR, RESPONDA IMEDIATAMENTE. Dani grunhiu de impacincia.
	Gem, eu sei que Abigail est chorando. Ela est chorando porque estou trocando a fralda dela.
	EMISSO DE SOM PROGREDINDO H UM PONTO TRS MINUTOS. RECOMENDA-SE OFERECER NUTRIO IMEDIATA.
	Acabei de amamentar o beb. Ela no est com fome.
Dani s no sabia por que se incomodava em discutir com aquela idiota mecnica. Aprendera havia muito que era um exerccio vo.
	O SOM INDICA QUE SE EXIGE ATENO IMEDIATA. POR FAVOR, OFEREA AO REBENTO FEMININO NUTRIO SUFICIENTE PARA CANCELAR O ALERTA.
Dani olhou raivosa para o alto-falante mais prximo, inutilmente. Como enfrentar uma voz sem corpo? Sentiria algum alvio chutando o microprocessador?
	Abbey est recebendo a devida ateno, caso seus circuitos defeituosos no tenham percebido. Agora, cancele o alarme.
	ERRO NMERO UM-ZERO-SETE  replicou Gem, emitindo um som agudo.
Em resposta, Abigail tambm aumentou o volume do choro.
	Veja s o que voc fez!  ralhou Dani.  Ela no gosta desse seu bip.
Instantaneamente, uma estonteante sequncia de sons derramou-se dos alto-falantes pelo quarto. Primeiro, a melodia em saxofone, depois, Mozart, em seguida, dez segundos de Wagner, seguido por uma mescla rpida de msica pop. Uma vez que o beb continuava berrando, Gem apelou para as gravaes da voz da av Ruth, do assobio do av Austin e dos cacarejos das titias tentando acalm-la quando a visitavam.
	Gem, desligue essa cacofonia imediatamente!  ordenou Dani.  Est na hora de Abbey dormir.
Os alto-falantes silenciaram. Um segundo depois, o telefone tocou. Com um suspiro cansado, Dani sacou o aparelho do bolso. Nas ltimas quatro semanas, acostu-mara-se a carreg-lo pela casa, para no ter de correr para atender Nick toda vez que Gem o avisava de outro desvio seu.
	Estamos com um problema  anunciou Nick, sem prembulos.  Estou indo a.
	No h nenhum problema, eu juro. No estou me desviando. Gem...
	No tem nada a ver com Gem. Estamos com um problema na SSL
Dani encaixou o telefone entre o ouvido e o ombro, enquanto embalava a filha.
	Que tipo de problema?
	Explico quando chegar a. Sua me est comigo. Ela concordou em tomar conta de Abigail por algumas horas.
Dani sobressaltou-se.
	 to srio?
	.
	Est bem, vou trocar de roupa. Acabei de amamentar Abby e posso sair assim que voc chegar.  Dani desligou o aparelho, guardou-o no bolso e acomodou o beb no bero.  Deixe-a dormir, Gem. Nada de falatrio, entendeu?
Assim que saiu do quarto, o sistema computadorizado comeou a sussurrar:
	ERA UMA VEZ...
Balanando a cabea, Dani foi para a cozinha escrever instrues para a me. Aps informar o nmero do telefone celular de Nick, acrescentou: "Se tiver algum problema, diga a Gem que o rebento feminino est se desviando da rotina normal, nvel de segurana alerta um".
Assim que Nick estacionou o carro junto ao meio-fio, Ruth saltou, abraou Dani e entrou na casa.
Assim que Dani sentou-se no banco, Nick arrancou de novo para a via expressa.
	O que foi que aconteceu?
	Lembra-se da Toy Company?
	Claro, a fbrica de brinquedos de Kit e Stephen St. Clair. Iniciaram em Carlsbad, depois expandiram para Concord. Ns instalamos o sistema de segurana.
	Isso mesmo.
	O que houve?
	Parece que o sistema entrou em pane. Chamaram-nos para corrigir o defeito.
Dani paralisou-se.
	Que tipo de pane?
	O sistema trancou tudo. Kit e Stephen esto presos no escritrio e no conseguem sair.
	Oh, no.
	Acontece que eles mantm uma creche no local. Dani olhou-o.
	E as crianas?
	No se sabe. Esto todos trancados do lado de fora, ou do lado de dentro.
	Que modelo eles compraram? No consigo me lembrar.
	Uma unidade Gemini. E menos sofisticada do que Gem.
	Pode ser menos sofisticada, mas aposto como tem os mesmos defeitos.
Nick bufou.
	Gem no tem nenhum defeito!
	Ah, no? Como explica que eu tenha tido de suportar aquele saxofone por duas semanas a fio?
	Quantas vezes terei de dizer? Gem  um computador. Se fizer um pedido, a mquina obedece. Quer coisa mais fcil?
	S Gem  um computador, por que a chama de "ela"?
	Eu a antropomorfizei.
	Grande.
	Significa...
Com um gesto, Dani o fez calar-se.
	Nem quero saber.  intelectual demais para o meu gosto. E, para sua informao, j me cansei de fazer pedidos ao seu computador. S que ela nunca obedece. Pode imaginar por qu?
Nick endureceu o queixo.
	 s um capricho dela.
	Um capricho.  cime, isso sim!
	O qu?
	Isso mesmo que ouviu. Ela no ouve a ningum alm de voc. Alm do rebento feminino. Parece que se apegou a Abigail.
	Eu a programei para monitorar o beb.
	Jura? Determinou que conversasse com Abbey tambm?
	O que quer dizer?
	Sem ser requisitada, ela tentou acalmar o beb, do mesmo jeito bobo que os adultos costumam fazer.
	Deve ser um defeito no modulador de voz.
	Vai me convencer que isso explica tambm a imitao de personagens de histrias em quadrinhos, bem como a execuo de msicas que ela acha que ajudam o beb a dormir. E os contos de fadas que comea a contar. Ah, lembra-se do alarme de trs minutos que estabeleceu?
	Se Abigail chorar por mais de trs minutos, Gem a avisa, certo?
	Deveria ser assim. Mas Gem achou...
	Gem no acha nada  resmungou Nick.
	Perdo, vou reformular. Gem chegou  concluso lgica e no-emocional de que trs minutos so um tempo longo demais para deixar o rebento feminino chorar.
Ele franziu o cenho.
	Ela est avisando antes?
	O alarme soa no instante em que Abbey inspira para dar o primeiro berro. No vou me espantar se Gem passar a me avisar que acha que Abigail vai comear a chorar.
Nick suspirou.
	Vou dar uma olhada nisso.
	Otimo.
Entraram no estacionamento, pondo fim  discusso. Os funcionrios da loja de brinquedos se aglomeravam diante da porta frontal, bloqueada pelo sistema de segurana. Um homem alto e magro destacou-se ao v-los.
	Ei, Colter! Ainda bem que chegou.
Tratava-se do chefe do setor de Pesquisa e Desenvolvimento da fbrica.
	Oi, Todd  cumprimentou Nick.  O que foi que houve?
	Quase nada. Parece que o computador enlouqueceu. Uma vez assisti a um filme em que o sistema de segurana tranca humanos inocentes num prdio e ento comea a mat-los, um por um.
Nick ergueu o sobrolho.
	Isso  inconcebvel.
	Ser?  murmurou Dani.
Nick achegou-se ao painel de controle junto  porta frontal.
	Sistema cancelado. Colter zero-zero-um. Relatar situao.
	BOM DIA, SENHOR COLTER  respondeu uma voz semelhante  de Gem.  UM MOMENTO PARA RELATRIO DE SITUAO. SEGURANA ALERTA UM. TRAVAMENTO TOTAL EM PROGRESSO.
	Cancelar nvel de segurana alerta um.
	CDIGO DE AUTORIZAO?
	Colter zero-zero-um.
	AUTORIZAO RECUSADA. ERRO NMERO DOIS-DEZENOVE. TENHA UM BOM DIA, SENHOR COLTER.
Dani no pde conter o riso.
Nick olhava pasmo para o painel.
	Como assim, "autorizao recusada"?
	No falei?  vangloriou-se Dani.
Nick olhou-a raivoso e voltou a estudar o painel.
	Aqui  Colter, cdigo de autorizao zero-zero-um. Recalibre.
	AUTORIZAO NEGADA.
	No pode recusar minha autorizao, seu monte de ferro...
	NEGADA! NEGADA! NEGADA!
Nick conteve o impulso de chutar o painel.
	Dani, v buscar meu celular no carro. Ela ergueu o sobrolho.
	Como uma esposa obediente?
Nick experimentou ento a sensao mais curiosa de toda sua vida. Comeando na base da espinha, um formigamento percorreu-lhe toda a medula at chegar ao crnio, pelo qual se espalhou. Dani deu um passo atrs, temerosa.
	Estou a ponto de explodir  avisou ele.
Os funcionrios da empresa formavam um semicrculo a certa distncia deles.
	Quer que v buscar seu celular?  indagou Dani.
	Por favor.  Nick aguardou com falta de pacincia. Ao ter o aparelho nas mos, contatou Gem.  Ligue para a Toy Company. Autorize acesso pela porta dos fundos. Colter zero-zero-um.
	AUTORIZAO SECUNDRIA?
	Cdigo de autorizao, controle a todo custo. No tenha piedade, Gem.
	UM MOMENTO. TENTANDO INTEGRAO.
	NEGADO!  gritou Gemini uma ltima vez, e emudeceu.
	TENTATIVA BEM-SUCEDIDA  anunciou Gem.
	Prossiga!  incentivou Dani.
Nick sorriu sagaz.
	Destrave a porta frontal e acesse o sistema de alto-falantes interno. Comando de voz de Colter somente.
	SIM, SENHOR COLTER.
A porta frontal destrancou-se, e Nick olhou para Todd.
	Gostaria que permanecesse junto  porta e no deixasse ningum entrar, est bem?
	Entendido, chefe. Claro como alumnio transparente  O homem piscou para Dani.  Como diziam na Jornada nas Estrelas.
Nick pegou uma pedra e passou a jog-la de uma mo para a outra.
	Pronta?  indagou a Dani.
	Depende do que pretende fazer com isso.
Ele se curvou e encaixou a pedra entre a porta e o batente.
	Todd, no deixe ningum tocar neste calo. Vamos ver quantas pessoas esto l dentro e voltamos j. 
Olhou para Dani.  Damas na frente, senhora Colter.
Dentro do prdio, passaram pela recepo vazia e tomaram o corredor principal. No encontraram ningum em nenhuma das salas daquela ala.
	Gem, est no sistema de alto-falantes interno?
	AFIRMATIVO, SENHOR COLTER. Nick guardou o celular no bolso.
	Relatar situao.
	A UNIDADE GEMINI ENCONTRA-SE PARALISADA. TRAVAMENTO ELETRICO NOS ANDARES DOIS A CINCO. ELEVADOR INOPERANTE. BLOQUEIO EM TODOS OS ANDARES. ATIVIDADE MECNICA NO QUARTO ANDAR. MNIMAS MANIFESTAES DE VIDA NOS ANDARES TRS A CINCO.
	Ligue a fora, Gem. Em seguida, proceda ao desbloqueio.
	ENTENDIDO.
	Onde fica a creche?  indagou Dani.  Acho que  Prioridade.
	Gem?
	QUINTO ANDAR. SEO NOROESTE. SALA QUINHENTOS E TRINTA E OITO.
	Acho que vamos ter de subir pela escada.  Nick olhou preocupado para Dani. Nas ltimas quatro sema
nas, ela perdera quase todo o excesso de peso adquirido durante a gravidez, mas ainda no estava plenamente recuperada do parto.  Est em condies?
Ela deu aquele sorriso que nunca falhava em maravilh-lo.
	Claro que sim, no se preocupe.
	Ento, vamos. Gem, pode destrancar a porta da escadaria?
	AFIRMATIVO.
Nick tomou a frente, pronto a enfrentar problemas inesperados. Apesar da urgncia, subia devagar, respeitando o estado delicado de Dani.
	J ocorreu uma pane semelhante noutro sistema, lembra-se?  comentou, a voz ecoando entre as paredes de cimento.
	O de Kilburn  especificou ela.  Foram as trs horas mais longas ,da minha vida.
Pois Nick gostaria que tivessem se prolongado ainda mais.
	Ficarmos trancados naquele armrio no teria sido to ruim se tivssemos algo para beber.
	E um banheiro  completou Dani.  Gem aprontou mesmo naquele dia.
Chegando ao terceiro andar, ele parou para descansarem.
	Pois foi nesse dia que aprendi a carregar o celular comigo aonde quer que fosse.
Dani recostou-se na parede ao lado dele, ofegando levemente.
	O que deu errado daquela vez?
Nada dera errado. Tudo ocorrera exatamente conforme o programado. No se orgulhava de ter montado aquela armadilha, mas Peter j estava fora de cena ento e no resistira  tentao.
	Acho que foi s...
	Uma falha no sistema?
	E, uma falha no sistema.  Nick se deu ao luxo de um sorriso.  Mas o incidente rendeu algo bom.
	Mesmo?  A vulnerabilidade ficou patente nas profundezas dos olhos escuros de Dani.  O qu?
Ela no o enganava, apesar do tom descontrado. Lem-brava-se de tudo to bem quanto ele. Enquanto aguardavam o salvamento, haviam conversado, descobrindo mais um sobre o outro naquelas poucas horas do que nos vrios anos de contato superficial. Sentada a seu lado no cho, ela recostara a cabea na parede e, ao adormecer, escorregara para junto dele. Ele a envolvera com o brao e mantivera acomodada contra o ombro, at que ela despertou.
O prazer do contato continuava vivo na memria, aps um ano. Naqueles breves segundos de torpor em que os sonhos se chocam com a realidade, uma aguda e agridoce conscincia florescera entre ambos. Desconfiava de que fora a primeira vez em que ela o vira como homem. Mas no a ltima.
Definitivamente, no a ltima.
	Ora, passamos trs horas inteiras no mesmo ambiente sem discutir  esclareceu ele, por fim, enganchando um cacho do cabelo dela atrs da orelha.
Embaraada, Dani observou o prximo lance de degraus a enfrentar.
	Imagine o que teria acontecido se tivssemos brigado.
Talvez at nos houvessem resgatado com mais urgncia.
Nick alcanou-a no quarto andar. Ao olhar para os degraus que conduziam ao quinto, estacou e alarmou:
	Espere!
Dani assustou-se quando ele a agarrou pela cintura e protegeu atrs das costas.
	O que foi?
	Uma tarntula.
S ento Dani viu o monstro de um metro de comprimento bloqueando a passagem. Ao mesmo tempo que balanava o corpo, abria e fechava a boca cheia de dentes pontudos, deixando escapar uma substncia pegajosa das pinas negras.
	 s um brinquedo, Nick.
	Eu sei, mas no sabemos o que est programado para fazer, nem o que  aquela gosma. Gem?
Nenhuma resposta.
Acho que ela no capta sons aqui  opinou Dani.
 Vamos fazer uma pausa, ento.
Nick abriu a porta e adentrou o quarto andar. A viso no foi mais tranquilizadora. Um batalho de tarntulas
e guardas mecnicos patrulhavam a rea.
Qual o problema, Gem? Por que as luzes continuam apagadas?
	DIFICULDADES, SENHOR COLTER. SOLICITO DESLIGAR MANUALMENTE A CONEXO DO COMPUTADOR LOCALIZADA NO SETOR DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO NO QUARTO ANDAR.
	 de l que vm os problemas?
	AFIRMATIVO.
Dani tocou-lhe o brao e apontou para uma porta de madeira no outro extremo do corredor.
Acho que  ali, Nick.
 Vamos l.
Numa corrida louca, ele foi empurrando as tarntulas mecnicas no meio do caminho e arremessou-se contra a porta em questo, arrombando-a. Viu-se dentro do escritrio, sentindo o ombro dolorido. Quando Dani colidiu com suas costas, segurou-a antes que casse.
No acredito  murmurou, embasbacado.
CAPITULO 7

Diante de um computador, uma loirinha de no mais que dez anos de idade dedilhava o teclado, com culos imensos equilibrados na ponta do nariz arrebitado. Girando na cadeira, fitou Nick e Dani com os olhos castanho-dourados arregalados atrs das lentes grossas.
	Oh-oh  murmurou, apreensiva.
	Nunca ouvi frase mais longa  retrucou Nick, calmo como um vulco prestes a entrar em erupo.
Dois meninos gmeos, vrios anos mais novos do que a menina, apontaram para ela e denunciaram:
	Foi a Viki. Ns s ficamos olhando.
	Vou mat-la  anunciou Nick, avanando um passo. Dani segurou-o pelo brao.
	Calma, Nick.  uma criana.
	Mesmo assim, vou mat-la.
Dani postou-se entre ele e a menina.
	No precisa se dar ao trabalho. Os pais dela vo fazer isso.
	 Ah, no, eu cheguei primeiro!
Se Vick se assustava com o tema da conversa, no o demonstra.  Aparentemente, j assistira a cenas semelhantes antes.
	Vamos Nick, encare como um treinamento de paternidade  para quando Abbey estiver mais crescidinha.
	Eu consigo arrumar tudo  garantiu a menina, mordiscando o lbio inferior.  S preciso de mais tempo.
	No se incomode  adiantou-se Nick, aproximan do-se do computador.  Pode deixar que eu cuido disso.
Aps digitar algumas instrues, desligou a mquina da tomada.
	V em frente, Gem. O caminho est livre.
	FAVOR AGUARDAR. ASSIMILANDO.
	Situao?
	CANCELAMENTO COMPLETO. VERIFICAO EM ANDAMENTO. SISTEMA ELTRICO AGORA RESTABELECIDO.  As luzes se acenderam.  TRAVAMENTOS DESATIVADOS. ELEVADORES AGORA EM OPERAO. FORMAS DE VIDA VAGANDO EM ALTA VELOCIDADE NOS ANDARES DOIS A CINCO. OPERAES MECNICAS AINDA EM PROGRESSO NO QUARTO ANDAR.
	Que operaes mecnicas? Viki ajeitou os culos.
	Est falando das aranhas e robs.
	Eles nos protegem  explicou um dos gmeos.
	Dos bandidos  completou o outro.
	Porcaria!  gritou um homem, no corredor. Uma tarntula entrou voando pela porta.  Victria! Voc est em maus lenis, mocinha!
	Pai!  exclamaram os gmeos, e foram se esconder atrs de uma mesa.
Stephen St. Clair assomou  porta, soltando fogo pelas ventas.
	Desta vez, vou fazer com que aprendam a lio!
Kit St. Clair juntou-se ao marido, tentando arrancar uma aranha das costas.
	Stephen, foi sem querer, tenho certeza.
De trs da mesa, os gmeos esticaram o brao e apontaram para a irm.
	Foi a Viki! Ns s ficamos olhando!
	Linguarudos  murmurou a menina. O dono da fbrica dirigiu-se a Nick.
	Desculpe o transtorno. No sei o que foi que essa menina fez...
	Acessei Gemini atravs de uma falha em seu cdigo de autorizao  explicou Viki.
Nick olhou pasmo para a pequena.
	Voc o qu?
	Digitei Colter zero-zero-um, porque ouvi voc comentar que era o cdigo de acesso ao computador. Fiquei umas duas horas mexendo no programa e consegui assumir o comando. Comecei a dar ordens a Gemini e ela fez tudo o que mandei.
Dani suprimiu o riso. A julgar pelos grunhidos que Nick emitia, ele estava prestes a explodir, a exemplo de Stephen St. Clair.
	No entendo  declarou o pai da menina, perplexo.  Por que no consegui cancelar o sistema? Pensei que o meu cdigo controlasse o funcionamento de Gemini.
Viki deu de ombros.
	Parece que o cancelamento do senhor Colter cancela o seu.
	O cancelamento do senhor Colter sempre cancela o de todo mundo  especificou Dani, amuada.
Seguiu-se um silncio pesado. Ento, Nick encarou o cliente.
	Peo desculpas. Trata-se de uma medida de segurana. Pelo menos, eu assim considerava. Amanh, vou instalar um programa de cancelamento de ativao por voz, que s aceitar a sua voz e a de Kit.  Elevou o tom.  Gem, limpe todo o computador. Quero Gemini fora do sistema. Reinstale com acesso de retaguarda licitado. Somente cdigos de voz.
	AFIRMATIVO. LIMPEZA DE MEMRIA EM ANDAMENTO.
stephen balanou a cabea, j quase sorrindo.
	Acho que no se lembrou de minha filha quando planejou esse sistema, hein?
	No mesmo, o que me faz lembrar...
	Quer que barremos a entrada de Viki pelos prximos vinte anos?  sugeriu o cliente.  Com prazer.
	No, quero ser o primeiro a oferecer-lhe um emprego quando se formar na universidade, daqui a alguns anos.
	Melhor t-la a seu lado do que contra voc?  adivinhou Stephen.
	Mais ou menos isso.
	O que diz, Viki? Gostaria de trabalhar com o senhor Colter?
A pequena pensou um pouco, mordiscando o lbio.
	Depende. Vou poder trabalhar com Gem? Nick confirmou.
	Se quiser. Poder at criar sua prpria Gem. Os olhos castanho-dourados fulguraram.
	Ah, ento eu quero!
	Combinado!  Nick apertou a mo da menina.  Pea a seu pai para me telefonar no vero, quando voc entrar em frias. Temos na SSI um programa de aprendizagem pelo qual pode se interessar.
	Vou poder usar os computadores?
	Somente aqueles sem acesso direto a Gem.  perigoso deixar vocs duas trabalharem em conjunto.
A hora seguinte transcorreu rapidamente. Nick certi-ficou-se de que Gemini fora removida do sistema e instalou uma verso modificada. Quando tudo funcionava a contento, deixou a fbrica.
	Voc foi um amor  elogiou Dani, enquanto seguiam para o estacionamento.
Ele ergueu o sobrolho.
	Eu?!
	E.  Dani acomodou-se no assento.  Com Viki.
Divertido, Nick instalou-se atrs do volante.
- Ela fez um bom trabalho, no? At Gem ficou impressionada.
	Imagino.  Dani bocejou.  Vamos para casa. Abbey logo vai sentir fome.
	Obrigado por ter vindo. Voc ajudou muito.
	No fiz quase nada, mas gostei de vir, mesmo assim.
Dani sentiu-se em paz durante todo o trajeto de volta.
Chegando, pensou que a casa fosse desmoronar, tamanho o alvoroo l dentro. Sua famlia inteira ocupava-se em encaixotar todos os seus pertences.
	Algum pode me informar o que est acontecendo aqui?  indagou, polida, tentando no explodir.
Ningum lhe deu ateno, exceto a me, que lhe sorriu de trs de uma caixa de papelo.
	Oh, querida, desculpe-nos.
	Desculp-los?!
	Por no termos pensado nisto antes. J faz um ms que se casou.
Sem mais esclarecimentos, a me voltou a colocar ob-jetos dentro da caixa.
	Continuo no entendendo!  protestou Dani.
A me sentou-se sobre os tornozelos.
	Voc foi uma santa, Danielle. No reclamou nem uma vez desta situao, apesar de agonizante. Ento, seu pai sugeriu que a ajudssemos...
Aquela falta de clareza era mau pressgio. Muito mau pressgio.
	Ainda no entendi, me. O que foi agonizante para mim?
	No poder se mudar, por estar de resguardo  explicou Ruth.  Estamos empacotando o bsico. A transportadora se encarregar do resto. Marcamos para o sbado. Est bom para voc?
	S um minuto, me! Ainda no explicou por que esto fazendo isso!
	Porque voc no est podendo cuidar de si mesma, querida. No estamos querendo interferir...
	Mas esto interferindo!
A me repuxou o canto da boca.
	Dani, Abbey j est com um ms. Voc e Nick no podem estar felizes morando cada um numa casa.
	Isso no  da conta de vocs.
	Est na hora de voc pensar primeiro na famlia
 orientou a me, severa.  Deve se mudar para a casa de Nick.
Dani estava boquiaberta.
	No acha que cabe a ns decidir isso?
	J est decidido, Danielle. Se Nick no se ope, por que voc se oporia?
Dani empalideceu.
	Nick? Ele arranjou tudo isto?
	Para empacotarmos? Claro que no. Ns nos oferecemos. Ele disse que era capaz de fazer tudo sozinho, mas duvido de que encontrasse tempo...
	Me...
Ruth calou-a com um gesto.
	No precisa agradecer! Dani murchou, derrotada.
	Eu no ia agradecer.
	Est sendo um prazer, acredite. Considere como mais um presente de casamento. Agora, sente-se, relaxe e tome conta da minha netinha. Deixe tudo por nossa conta. Na semana que vem, quando levarem o resto da mudana, voc, Nick e Abigail sero uma pequena famlia feliz sob o mesmo teto. E sabe o que mais?
Dani tinha at medo de saber, mas perguntou:
	O qu?
	Os lenis com o monograma de vocs bordado chegaram hoje. No  maravilhoso?
	Maravilhoso, me. Maravilhoso demais para ser verdade.
	Gem.
Instantaneamente, o monitor de televiso se iluminou, mostrando o quarto de Abigail na casa de Dani.
Nick j no precisava especificar a instruo. Visitar a filha pela manh tornara-se rotina, assim como tomar banho. Gem assimilara o fato.
Enquanto se enxugava com a toalha, contemplava a filha aninhada no bero, desperta e satisfeita, olhando o mundo com seus grandes olhos azuis. O mbile sobre o bero girava devagar, o sol matinal refletindo-se nos personagens de histrias em quadrinhos. O computador a distraa. Podia ouvir Gem "sussurrando" uma historinha.
Nick no pde evitar um sorriso ao se vestir. O sistema computadorizado gostava mesmo de narrar contos de fadas para o rebento feminino. Abigail parecia apreciar Os Trs Porquinhos, ainda mais com efeitos sonoros.
Minutos depois, Dani entrava no quarto.
	O que est acontecendo aqui?  indagou, brava, com as mos na cintura.
	PESQUISA REVELA QUE REBENTOS HUMANOS APRECIAM NARRATIVAS DE HISTRIAS FICTCIAS SOBRE CRIATURAS FANTASIOSAS.
	Est contando histrias para Abigail de novo?
	AFIRMATIVO.
	Mas, Gem, j lhe expliquei que ela ainda  pequena demais para entender.
	O REBENTO FEMININO NO COMPUTA?
	No, ela no computa, Gem. Talvez daqui a alguns anos.  O telefone tocou, e Dani instruiu:  Avise-me se Abbey chorar.
	PEDIDO DESNECESSRIO. O CHORO ACIONA O NVEL DE SEGURANA ALERTA UM.
	Ah,  mesmo...
Dani saiu do quarto. Dali a segundos, a tela mostrou-a na cozinha, atendendo ao telefone. S podia ser a me dela. Ento, Nick viu inmeras caixas de papelo empilhadas por todo lado.
	Gem, conhece as regras  advertiu, alisando a camisa branca.  O quarto de Abigail  o nico lugar que pode mostrar, salvo em caso de emergncia.
	AFIRMATIVO.
A tela voltou a mostrar Abigail no bero. O uivo de um lobo encerrava a histria do dia. Nick balanou a cabea.
Esperar Dani sair do quarto para retomar a histria no  certo, Gem. No me lembro de ter programado isso em voc.
	A PROGRAMAO FOI ACESSADA NA TOY COMPANY.
	Tambm j discutimos a respeito de pegar programas avulsos, Gem. Pode comprometer seu sistema. Descarregar arquivo no computador trinta e quatro. Vou examin-lo mais tarde. Desligar monitor de vdeo.
	AFIRMATIVO.
O telefone tocou em seguida. Atendeu ao segundo toque:
	Colter.
	Nick?  Era Dani, nervosa.
	O que foi?
	Preciso de sua ajuda. Estou com um problema.
	O que aconteceu?
Dani hesitou por alguns segundos, ento revelou:
	 que minha famlia esteve aqui ontem e encaixotou todas as minhas coisas.
Nick disfarou o divertimento.
	Vai se mudar?
Dani explodiu:
	Nick, minha me deixou escapar que voc arranjou tudo isto! Para morarmos juntos!
	, parece que comentei com ela que trataria disso.
	Pois saiba que eles tomaram a dianteira. Minha mudana chega a no sbado.
	Por mim, tudo bem.  Nick escolheu uma gravata.
	Mas ainda no disse qual  o problema.
Dani ofegou ao telefone, a ponto de explodir.
	O problema  que no quero me mudar para a sua casa!
	Por que no?
	Porque no faz parte do nosso acordo.
	 uma objeo s sua.  Aps fazer um n caprichado, ele fixou a gravata com um belo alfinete dourado.
	Eu nunca me opus.
	Nick...
	O que espera que eu faa, Dani? Que arranje uma sada para voc?  Ele adotou um tom frio.  No tem sada. Quero minha mulher e minh-a filha aqui, morando comigo em minha casa.
	Eu devia saber que no podia contar com voc!
	Devia mesmo! At sexta-feira.
	Sexta?
	Esqueceu que vamos jantar com meus pais? Dani refletiu um segundo.
	No, no esqueci.
Era mentira, e Nick recuperou o bom humor.
	Otimo. Alis, Raven Sierra e a filha tambm vo jantar conosco, no sbado. Voc vai mostrar a eles como  fcil operar Gem, est lembrada?
	Ora, Nick...
Ele tirou o palet do suporte.
	Sim?
Dani suspirou profundamente, resignada.
	Sexta-feira a que horas?
	s cinco e meia. Ah, s mais uma coisinha.
	O qu?
	Xeque-mate.
Dani bateu o telefone em resposta, mas ele ouviu seu riso antes.
	Vamos parar e comprar comida chinesa  avisou Nick, estacionando numa esquina diante de um restaurante.
	Pensei que seus pais tivessem nos convidado para jantar  comentou Dani, confusa.
	Convidaram.
	Por que vamos levar comida, ento? Nick deu de ombros.
	Para ganhar tempo.
	Sua me cozinha to mal assim?
	Pode ter-se aprimorado desde a ltima vez que provei, mas duvido. No se preocupe, Dani. No vai passar fome.
	No  isso. S no quero ofend-la.
	Ela no vai se ofender.
Dani resignou-se. Nick devia conhecer bem seus pais. Quanto a ela, ansiava pelo primeiro encontro, na esperana de desvendar o passado misterioso de Nick. Queria muito saber por que ele se empenhava tanto em sufocar as emoes. Talvez os pais dele lhe dessem alguma pista.
Depois que Nick comprou a comida chinesa, percorreram um caminho tortuoso na rea de Berkeley, at chegarem a um casaro protegido por cerca de ferro no alto de uma colina.
	Nossa, Nick, foi aqui que se criou? : espantou-se Dani.
	Aqui mesmo.
Dani contemplou a fachada desbotada. Ao contrrio das residncias vizinhas, aquela necessitava urgentemente de pintura nova e pequenos reparos. Com um grande azevinho de um lado e uma magnlia imensa do outro, a manso permanecia nas sombras, obscura por fora e por dentro. Arbustos, superdesenvolvidos meio que bloqueavam o caminho at a porta frontal. O gramado, se um dia existira, estava completamente tomado por ervas daninhas.
	De quando data esta construo?  indagou, arrepiada.
	Tem mais de noventa anos. Foi construda em 1906, logo aps o terremoto.
	E impressionante.
	Voc est sendo gentil  percebeu Nick.  Esta casa  como uma mulher velha tentando esconder a idade atrs de um monte de maquiagem. Apesar dos artifcios, no consegue.
Dani quis discordar, mas Nick fora acurado na descrio. Tendo se criado naquela casa, at que ponto suas caractersticas influenciaram no homem que se tornara?
	J passa das seis  observou ela.  Vamos entrar?
	Vamos. Por que no pega a bolsa? Eu levo Abigail.
Dani pegou a bolsa com os apetrechos do beb e subiu os degraus de madeira  varanda. Chegou a espiar pelas janelas que ladeavam a porta, mas no viu sinal de vida dentro do casaro.
	Esquea a campainha  avisou Nick, com Abigail nos braos.  No funciona h anos. Bata na porta. Bem alto.
Dani bateu sonoramente na porta macia. Silncio.
	E agora?
	Pegue o beb.
Livre do pequeno fardo, Nick tirou um molho de chaves do bolso, separou uma dourada e introduziu-a na fechadura. No sem esforo, abriu a porta e empurrou-a. Logo localizou um interruptor antigo. Luzes fracas se acenderam no imponente saguo de entrada.
	Ser que erramos o dia?  cogitou Dani, desconfortvel na manso que mais parecia uma cripta.  Ela no disse sexta?
	Disse.
	Onde esto eles, ento?
	Provavelmente no poro.
Dani espantava-se cada vez menos.
	So cientistas loucos, por acaso?
Nick encarou-a glido.
	Acertou em cheio.  Fez um gesto para a sala.  Acomode-se. Vou pegar a comida no carro e depois os procuro no poro.
Dani engoliu em seco.
	Vai me deixar aqui sozinha com Abigail? Com um casal de cientistas loucos por perto?
Nick riu, descontraindo-a.
	No vou demorar. Acomode-se.
Ainda relutante, Dani adentrou a ampla sala e sen-tou-se na beirada de um sof desbotado, sempre com Abigail nos braos. O ambiente estava razoavelmente limpo, mas no parecia ser muito frequentado. Os mveis e objetos permaneciam arrumados, intocados. Que infncia incomum Nick devia ter vivido naquela casa. Os pais seriam mesmo cientistas loucos, ou ele apenas se divertia a suas custas?
Um minuto depois, a porta frontal se abriu de novo. O rangido acordou Abigail, mas ela no chorou. Bocejando, levou o pequenino punho cerrado  boca. Dano sorriu enternecida e passou a mo por seu sedoso cabelinho ruivo.
Considerava-se abenoada. Peter no pudera dar-lhe filhos, nunca desejara nenhum, na verdade. Ainda que ele no houvesse optado pelo divrcio, teriam enfrentado uma srie crise conjugal em algum momento, pois famlia significava muito para ela e nada para ele. Evidentemente, ela no o culpara pela esterilidade, mas teria adotado uma criana, algo a que ele sempre se opusera.
Olhou para Nick. Como ele era diferente do falecido marido. No fosse seu dom de encontrar momentos felizes e uma imprevista noite de enlevo, talvez jamais conhecesse as alegrias da maternidade, nem experimentasse o incrvel prazer que Nick lhe proporcionara.
	Trouxe o assento de Abigail  comentou ele.  Assim, no vai ter de segur-la no colo o tempo todo.  Pousou o acessrio no cho.  Vou levar a comida para a cozinha.
	Vou com voc.
Antes que Nick contrariasse, Dani levantou-se. Tomaram um corredor rumo aos fundos da manso. A cozinha espaosa fora reformada e modernizada havia uns vinte anos.
Quando Nick abriu a geladeira, Dani se assustou.
	O que  isso?
	Frmulas. Muitos elementos qumicos devem ser mantidos a baixa temperatura. E terra vegetal.
	O que seus pais fazem exatamente?
	J disse: so cientistas.
Dani estudou um recipiente de vidro com uma espcie de esponja disforme coberta por uma mistura de substncias laranja, azul e verde.
	Mas que tipo de cientistas?
	Minha me  qumica e meu pai  bilogo.
	E eles fazem experincias aqui, em casa?
No se trata de explosivos, se  o que teme.
Dani continuava contemplando o frasco com substncias coloridas.
	E os vrus? Sabe, do tipo que acabam de descobrir, aquele que corri a gente de dentro para fora.
	Eles no mantm aqui nada que ultrapasse o nvel quatro de segurana. Eu juro.
Dani estreitou Abigail nos braos.
	Por favor, diga que  tudo brincadeira.
Nick olhou-a por sobre o ombro, a luz da geladeira destacando o ngulo de suas faces, revelando o humor em seus olhos.
	Estou brincando  afirmou.  No se preocupe,  perfeitamente seguro aqui. Meus pais se recusam a trabalhar para corporaes, so free-lance. Coisa da dcada de sessenta, acho. O laboratrio deles  dos melhores..
	Esse que fica no poro.
	Esse mesmo.
	Vamos ter de ir l?
Nick negou balanando a cabea.
	No temos acesso ao laboratrio.  lacrado.  Fechou a geladeira e caminhou at um pequeno painel, digitando um cdigo no teclado.  Agora j sabem que estamos aqui. Instalei o dispositivo quando garoto.
De fato, em poucos minutos ouviram-se passos na escada que levava do poro  cozinha e Dani se viu diante dos sogros. O senhor Colter lembrava muito Nick, apenas engordara e se curvara um pouco com a idade. Mas foi da senhora Colter que Nick herdou os cabelos loiros e os grandes olhos azuis, sem dvida.
	No vai nos apresentar?  indagou a me a Nick.
	Dani, gostaria que conhecesse meus pais, Ellie e Hugh Colter.  Nick olhou para os pais friamente.  Lembram-se de Dani, pois no?
	Dani  Danielle? - exclamou o pai, surpreso.  Sim, eu me lembro.  um prazer rev-la, querida.
A me balanou a cabea.
	Eu no me lembro. Quando a conhecemos?
	No meu casamento  esclareceu Nick.
	No, no me lembro dela  declarou a me.  Alis, no me lembro do seu casamento.  Voltou-se para o marido.  Quando foi, Hugh?
Ele deu de ombros.
	Eu esqueo esses detalhes, se no escrever. No foi no ano passado?
	Durante a experincia da fotossntese? No teramos podido comparecer.
Hugh olhou para o filho.
	Foi na primavera? Amargamos um fracasso monumental com o musgo. Estvamos de sada para o seu casamento quando o musgo morreu.
	Foi h cinco semanas  declarou Nick, paciente.  Estavam acompanhando a taxa de crescimento do centeio, lembram-se?
	Claro, o centeio!  exclamou Hugh.  Foi um sucesso. Muito promissor. Mas o que o traz aqui hoje, filho?
	O jantar.
	Maravilha!  O cientista olhou em torno.  O que vai ser?
	Vocs nos convidaram, lembram-se?  esclareceu Nick.  O que preparou, me?
	Deixe-me ver...  Ellie abriu a geladeira.  Ah,  comida chinesa!
O pai esfregou as mos.
	Perfeito! Adoro comida chinesa. Tem carne de porco, querida?
	Tem!
Dani acompanhara toda a cena em silncio, cada vez mais confusa. Por fim, desabafou:
	No estou entendendo nada!
O sogro fitou-a de cenho franzido.
	Qual o problema, querida?
	Vocs agem como seja tivssemos nos conhecido antes, mas no  verdade. Sou a mulher de Nick. No podem se lembrar do nosso casamento, porque" no compareceram.
O sogro confirmou.
	Se foi durante a experincia com o centeio, no pudemos.
Dani retraiu-se. Nick fitava-a sereno, apenas esperando que compreendesse.
	O que quero dizer  que... bem, este  o primeiro encontro entre mim, vocs e Abigail?
Ellie voltou-se da geladeira.
	Abigail? Quem  Abigail? Dani descobriu o rostinho do beb.
	Sua neta.
	Temos uma neta?  espantou-se Hugh.  No me lembro de ter sido avisado. Quando ela nasceu?
	No ms passado  respondeu Nick, pegando pratos no armrio.  Deixei gravado na secretria eletrnica.
	Faz tempo que no verifico os recados  explicou Ellie.  Por isso no ficamos sabendo.
Nick encarou a me.
	Se no recebeu o recado, por que nos convidou para jantar?
	Porque  lua azul,  claro!  esclareceu Ellie, exultante.
Aliviada, Dani viu Nick to espantado quanto ela.
	Lua azul  repetiu ele, sem entender nada.
	Exatamente. A segunda ocorrncia de uma lua cheia no mesmo ms. Na ltima vez em que esteve aqui, voc disse que devamos nos ver de novo nessa ocasio. Anotei no calendrio. Por isso o convidamos.
Nick passou a mo nos cabelos.
	Eu comentei que ns s nos vamos em ms de lua azul, ou seja, muito raramente. Foi uma crtica, me.
Alheio  conversa, Hugh promovia uma pesquisa em seus neurnios.
Abigail... Abigail... estou quase me lembrando o significado.
Dani olhou para o sogro, impressionada.
	Sabe o significado de todos os nomes?
	Claro. Hugh  pensamento. Nick  vitria. E Eloise  a mais sbia.  Olhou carinhoso para a esposa.
	Meu pai tem memria fotogrfica  explicou Nick.  Tem gravado tudo quanto  lista de informaes. S no consegue se lembrar de coisas sem importncia.
Dani conteve a indignao. O jantar para o qual tinham sido convidados no era importante, ento? A julgar pela expresso de Nick, no era.
	Precisam de ajuda?  ofereceu-se, simplesmente.
Se Nick captou o duplo sentido da pergunta dela, no o demonstrou.
	Por que no coloca Abigail no assento e depois se junta a ns na sala de jantar? Vamos pr a mesa.
Hugh suspirou aliviado.
	Significa "meu pai alegra-se"  informou.  Muito bom gosto.  um nome de famlia, Danielle?
Dani sentiu um aperto no corao e seu olhar encontrou o de Nick.
	No. Foi Nick quem escolheu.
	Pois agora sabe por qu  concluiu Hugh.  No sou o nico aqui com memria fotogrfica, querida.  evidente que ele escolheu um nome com um significado.
	Nick?
Ele no respondeu de forma alguma. Sem palavras. Sem expresso. Sem emoo. Nada.
Mas era tudo fingimento. Toda aquela indiferena. Como no percebera antes?

CAPITULO 8

	Nick...  Este no  um bom momento, Dani.  Nick tinha os olhos totalmente inexpressivos, como se voltados para dentro, contemplando uma paisagem que s ele podia ver.  Importa-se de pegar o assento de Abigail?
Parecia mais fcil concordar do que discutir, naquela conjuntura. Mas Dani o interrogaria a respeito da escolha do nome de Abigail, mais tarde. Tratava-se de um fato importante demais para ignorar. Quando voltou com o assento, a famlia j se reunira na sala de jantar.
Nick despejou vinho nos clices de fino cristal, to destoantes da comida chinesa embalada em caixinhas de papelo. Sabendo que Dani evitava ingerir lcool por estar amamentando, serviu-lhe gua.
	Esqueci de comprar suco. Desculpe.
Dani no queria que ele pedisse desculpas. Por nada. Nem pela casa esquisita, nem pela excentricidade dos pais.
	Prefiro gua mesmo  assegurou.
	Mas o que  que voc faz, Dani?  indagou a sogra, gentil.
	No momento s estou cuidando de Abigail. Mas
durante cinco anos colaborei com a SSL
	O que  SSI?
Dani arregalou os olhos.
	 a empresa de Nick. Security Systems International.
	Ah, sim, de computadores. Voc tambm cria programas?
	No, somos incompatveis. Meu ramo  vendas.
	Ah, voc vende computadores.
	No, eu...
O sogro interveio:
	Por que vende computadores se so incompatveis? Dani refrescou-se com um gole de gua.
	Eu vendo sistemas de segurana.
	Pensei que tinha dito que vendia computadores.
	No, eu no disse isso.
Dani buscou socorro nos olhos de Nick, mas ele se limitou a erguer o clice de vinho e, sarcstico, brindar:
	Boa sorte.
	Eu vendo sistemas de segurana operados por computadores  especificou Dani, encarando os sogros.
	Ela vende alarmes, querido  resumiu Ellie, tirando arroz de uma caixa de papelo.  Como o que Nick instalou no laboratrio, para nos avisar de que chegou.
Dani respirou fundo.
	Trata-se de algo um pouco mais sofisticado. Temos de aperfeioar constantemente os sistemas, pois o mercado est cada vez mais competitivo. Mas estamos indo bem. A SSI est presente em vrios pases e  conhecida mundialmente.	
	Mundialmente, ?  O sogro refletiu um pouco.  E quanto ao mercado domstico?
Dani baixou o garfo.
	Temos muitos clientes domsticos tambm.
	Uma vergonha que s tenham conseguido isso  replicou Hugh.  Bem, ao menos tentaram.
Estupefata, Dani protestou:
	Mas a SSI  uma empresa de sucesso. Nick  um homem muito bem-sucedido.
	Voc  mulher dele  rebateu Ellie.   claro que pensa assim.
	Muito mais fcil vender alarmes  concluiu Hugh.
	A instalao  mais simples.
	E funcionam a bateria.  Ellie fitou Dani com a cabea inclinada.  Seus sistemas funcionam a bateria?
	Claro que no!
	Pois a est, minha querida.  Hugh espetou no garfo um cubo de carne suna.  Os alarmes so mais fceis de usar. E mais baratos. Quanto mais barato um produto, mais se vende, voc sabe.
	Mas nossos sistemas vendem como po quente! 	garantiu Dani, certa de que mergulhara num filme surrealista.
	No exagere, querida  manifestou-se Nick, pela primeira vez em dez minutos.  Pes vendem muito mais.
Hugh concordou:
	Pes so muito populares. Praticamente se vendem sozinhos.
	Assim como nossos sistemas de segurana  rebateu Dani.  E  fcil vend-los porque Nick  brilhante. Na verdade,  a ele que vendo.
	O Q.I. dele  mesmo muito alto  orgulhou-se Ellie. 	Coloca-o na categoria de gnio, se no me engano.
Pena no ter estudado biologia.
	Ou engenharia qumica  completou Hugh.
	Mas ele inventou um programa de computador que pensa!  replicou Dani.  Gem  um sistema incrvel.
	Olhou para os sogros.  No se orgulham disso?
	Voc  uma mulher apaixonada, mas no muito lgica  observou Hugh.  No estamos criticando Nick, querida. Estamos s discutindo suas realizaes, ou a falta delas.
Dani empurrou o prato para o lado, sem apetite.
	Para sua informao, seu filho  to genial que j se tornou bilionrio.
	Nem tanto  contrariou o sogro.  Devem ter somado errado. Se refizerem as contas, chegaro  verdadeira cifra, bem mais modesta.
	Ele est bilionrio, sim  garantiu Dani.  No est, Nick?
Nick parecia constrangido.
	J fui. Mas, como sabe, os negcios no vo muito bem
por aqui. Acho que, no momento, sou apenas milionrio.
	Por que no se defende?  ralhou Dani, inconformada. Ele bebericou o vinho antes de retrucar, calmo:
	De que adiantaria?
Dani sentiu os olhos arderem com lgrimas. Mais um minuto e cairia em prantos.
	Veja s o que voc fez.  Colocou o guardanapo de linho sobre a mesa.  Abigail est chorando.
Com o beb adormecido nos braos, retirou-se para a sala. Estava mesmo na hora de amamentar, supondo que conseguiria acalmar-se o bastante para faz-lo. Ao desabotoar a blusa, pela primeira vez em semanas sentiu falta da melodia suave ao saxofone. De repente, em algum lugar do casaro, um alarme soou. Cadeiras arrastaram-se, vozes murmuraram e, ento, silncio. Fechou os olhos e tentou relaxar. Sem sucesso. Abigail choramingou.
	Voltamos  estaca zero  sussurrou  filha, cansada.
Dali a pouco, o sof afundou a seu lado e mos quentes envolveram seus ombros.
	Relaxe  sugeriu Nick, carinhoso. Dani fungou.
	No consigo.
	Vou ajudar.
No instante seguinte, Dani viu-se no colo dele. Recostando a cabea em seu ombro, suspirou.
	E a msica?
	No instalei Gem aqui. Ela no gostaria deste mausolu, e meus pais tambm no se entenderiam com ela.
	Dou razo a ela.  Percebendo que se mostrara crtica demais, Dani pediu desculpas.  No foi o que eu quis dizer.
	Eu sei o que quis dizer.
	Nick...
	Esquea, Dani. Eu no devia ter trazido vocs. Meus pais... Leva-se tempo para se acostumar com eles.
	Mas...
	No pense mais nisso. Se continuar preocupada, no vai conseguir amamentar.
Ela aquiesceu, roando o rosto no algodo da camisa dele. Era como um porto seguro, firme, tranquilo. A tenso aos poucos esvaiu-se.
	Parece que a bomba trava quando fico chateada  confidenciou.
	Eu sei.  Nick afagou-lhe os cabelos e pousou o queixo no topo de sua cabea.  Vamos ver o que se pode fazer.
Mas Dani no conseguia esquecer a causa de seu estresse.
	Onde esto seus pais?
	De volta ao laboratrio. Ela o espiou.
	Por minha causa?
	No. No ouviu o alarme? A experincia deles atingiu um estgio crucial e eles tiveram de descer l.
	Hum...  Dani refletiu um pouco.  Isso acontecia muito quando voc era criana?
	Eu era uma criana independente.
	Por escolha ou... por necessidade?
Nick afastou uma mecha de cabelo escuro de sua testa.
	Isso importa?
Nick mostrava-se estico e falava em tom fatalista. Dani decidiu imit-lo.
	Se no importasse, eu no perguntaria.
O suspiro que ele soltou pareceu vir de muito fundo, de um lugar que ele devia ter encerrado em gelo havia muito.
	Meus pais sempre se envolveram muito com suas experincias. Em consequncia, no tinham muito tempo livre. Logo descobri que era mais fcil e mais rpido resolver tudo sozinho. Isso responde a sua pergunta?
Dani franziu o cenho, balanando um p. Nick tivera uma infncia radicalmente diferente da dela. Com tantos filhos e filhas, seus pais no poderiam ter-se refugiado no poro da casa nem que quisessem. Viviam apressados, levando-os  escola, a apresentaes de dana e a eventos esportivos.
	Hugh e Ellie assistiram a alguma atividade sua na escola?
	Dani, para que...
	Assistiram, Nick?
	Foram a algumas.  Ele no pde evitar o riso.  S que sempre chegavam atrasados.
A pequena Abbey agarrou o tecido da camisa do pai e puxou-o com fora.
	Como em nosso casamento?  sugeriu Dani, adivinhando tudo.  Aquele tipo de atraso?
	Exato.
Ela o viu, ento. O menino loiro, magro, de olhos carentes e expresso fechada. Ia da escola para uma manso sombria com jardim mal cuidado. Tinha de fazer muita fora para abrir a porta. E l dentro encontrava... o silncio. Nenhuma luz, nenhum cheiro de comida gostosa vindo da cozinha. S uma geladeira cheia de produtos qumicos, frascos com experimentos e terra vegetal. Seus pais passavam o tempo todo no poro. Quando sentia fome, preparava sozinho uma refeio. Para discutir matrias do colgio, procurava um vizinho. Mas e quando precisava de um abrao ou de um tapinha nas costas?
Dani fechou os olhos, tomada pela dor. Ainda menino, Nick instalara o alarme no laboratrio dos pais. Quando se desesperava por um pouco de ateno, apertava o boto. Duvidava de que ele houvesse cedido ao impulso muitas vezes. Quando cedia, sem dvida tinha de esperar nos degraus da escadaria escura. Muito tempo. Provavelmente, passara a vida toda esperando. E se decepcionando.
No dia do casamento, a cena se repetiu. No corredor, junto  porta do gabinete do juiz, ele retardara ao mximo o incio da cerimnia. Nutrira a esperana de que os pais, daquela vez, compareceriam?
Aquela altura, Dani no conteve as lgrimas.
Nick se enrijeceu.
	No quero sua piedade, Dani. No quero, nem preciso disso.
	Do que voc precisa?
	Disto.
Ele pousou a boca sobre a dela, apartando-lhe os lbios com insistncia. Tratava-se de um contato bem diferente do que haviam tido no escritrio, uma centelha rpida e ardente. O desejo avassalara, espiralando-se e torcen-do-se a ponto de no poderem mais det-lo. Mas o beijo de agora era nico, terno, no duro, uma bno, no uma exigncia.
Nick estreitava Dani e a filha, com extremo cuidado. Sua boca degustava vinho e gengibre. Com um suspiro brando, ela apoiou a cabea em seu ombro e relaxou, sentindo o estresse desaparecer. Ele abriu-lhe a blusa e apalpou um seio repleto de leite, afagando o mamilo sensvel com o polegar. Tratava-se do momento mais ertico que ela j experimentara, e sua resposta foi instantnea e inequvoca.
	O leite fluiu  informou Nick, com a mo molhada.
Erguendo a cabea do beb, aproximou-o da fonte de alimento.  Prontinho, doura. Hora do jantar.
Dani fechou os olhos, mais confortvel do que imaginava ser possvel, e aprofundou-se no abrao de Nick. Apenas um pensamento ameaava o prazer do momento. Como transformar aquela fantasia em realidade? Tinha um marido e uma filha. Devia estar satisfeita. No entanto, ansiava por mais. Queria um casamento de verdade e um marido em quem pudesse confiar. Mas, acima de tudo...
Queria amor.
O amor de Nick.
Nick certificou-se de que a porta frontal da casa dos pais estava bem trancada. Satisfeito, deteve-se um pouco na varanda, contemplando o desolado jardim. Fazia anos que estava assim. Certa vez, muito tempo antes, tentara transformar o canteiro de ervas daninhas num recanto verde, florido. Tentativa v. As mudas no vingaram.
	Nick, vamos?
Ele ergueu o olhar do jardim abandonado. Atravs do porto de ferro frio, viu Dani com metade do corpo dentro do carro, prendendo o assento de Abigail no banco traseiro. Enquanto o belo bumbum rebolava para l e para c, o tempo pareceu transcorrer mais lentamente.
A suas costas, erguia-se seu lar de infncia, sombrio contra o cu nublado de inverno. Uma folha solitria flutuou diante de seus olhos, tremulando ao sabor do vento arisco. No conseguia se mover, a despeito do ar glido e da luz cada vez mais escassa, cedendo  escurido. No podia liberar as emoes que lhe aoitavam a alma.
	Do que voc precisa?  indagara Dani.
Sabia a resposta. Apenas fora incapaz de explicar, de revelar do que precisava para sobreviver. As palavras haviam desaparecido de seu vocabulrio, assim como as emoes que expressavam tinham sido banidas de sua alma.
Dani apoiou as duas mos nas grades enferrujadas.
	Nick, o que est esperando?
Ele inspirou ofegante, com o queixo duro e os punhos cerrados. Havia vida do outro lado do porto. Uma vida rica e abundante.
Era disso que precisava. Para escapar do frio, precisava do que estava alm daquele porto.
	No estou esperando nada  declarou, por fim, convicto.  No mais.
Dani deu um chute na pilha de caixas de papelo.
	Nick, no cabe mais nenhuma caixa no quarto de hspedes. Do jeito que est, j vou ter que subir nelas para chegar a minha cama.
	No precisa dormir l. Sabe disso.
	J discutimos isso. No vou dormir com voc. Agora, onde vamos pr estas outras caixas?
	Que tal no corredor?

	No. As visitas vo ver. Nick exasperou-se.
	E da?
	Voc me disse que Raven Sierra ficou com trauma de casamento por causa da ex-mulher. No quero aprofund-lo.
Nick ergueu o sobrolho.
	No entendi. De que maneira as caixas empilhadas no corredor o fariam ter um conceito ainda pior do casamento?
Dani bufou, impaciente.
	Se vir as caixas, ele vai ficar intrigado. Estamos casados h cinco semanas. No acha que ele estranharia o fato de eu estar me mudando s hoje?
	Voc nunca deu importncia  opinio pblica antes.
	Pois mudei.
Era verdade, ainda que no soubesse explicar por qu. Chutou de novo a pilha de caixas. Ou melhor, podia explicar, sim. Desde que conhecera os pais de Nick, passara a abominar a ideia de infligir-lhe o mnimo sofrimento ou constrangimento. Eleja sofrera e se constrangera mais do que era justo.
	O fato de j termos uma filha de cinco semanas, em cinco semanas de casamento, chama muito mais a ateno do que algumas caixas empilhadas no corredor.
Dani endureceu o queixo.
	Que tal colocarmos no seu escritrio?
	No. Que tal no quarto do beb?
	No. E no seu quarto? Nick suspirou.
	Est bem. Mas vamos logo. Raven chega daqui a uma hora e ainda temos de nos aprontar.
Dani ficou apreensiva.
	Esqueci de perguntar sobre o jantar. Posso ajudar em alguma coisa?
	No ser preciso. Encomendei tudo a um bufe, uma vez que no teramos tempo para preparar nada.
	Esse jantar  to importante assim?
	Mais ou menos. J se espalhou a notcia de nosso fiasco na Toy Company.
	Mas no foi culpa nossa!
Ele ergueu a caixa de cima.
	Claro que foi. Um sistema de segurana tem de ser seguro. Os concorrentes no vo perder a oportunidade de alardear que uma menina de dez anos conseguiu violar nosso sistema e causar muita confuso.
Dani estremeceu.
	Tem razo. Precisamos ser muito convincentes esta noite.
	Seremos.  Nick ergueu o queixo.  Formamos uma boa equipe, no, querida?
Ela sorriu lindamente.
	Formamos.
Dani acabara de fechar o zper do vestido quando Gem anunciou a chegada das visitas.
	EXPLICAR REBENTO FEMININO SIERRA  requisitou o computador.
	A filha de Raven? O que quer que eu explique?
	O REBENTO SIERRA ANDA E FALA. ESCLARECER ANOMALIA.
	Ah, River  mais velha do que Abbey. Acesse estgios de desenvolvimento humano, Gem. Ter todas as informaes de que precisa. Logo Abbey tambm vai andar e falar.
	PROCESSANDO.
	timo. Processe. Mas, enquanto isso, vou me juntar aos convidados.
Todos j se encontravam acomodados na sala. Raven Sierra era um tipo alto e magro, de cabelos pretos e feies rudes. Lembrava um puma ferido e esfomeado que se aproximara da civilizao em busca de ajuda, mas que, cauteloso demais, no a aceitava, ainda que isso implicasse morte certa.
No podia evitar imaginar qual seria a escolha de Raven, confiar e salvar-se, ou isolar-se e, por consequncia, morrer emocionalmente. Mas o que desencadeara tais pensamentos? Raven Sierra submetia-se ao exame com descontrao, observando-a tambm com uma intensidade semelhante  do puma. Eis que ele estende a mo, num aperto frio e firme. Havia um certo cinismo em seu olhar, como um j entediado conhecedor do mundo.
 um prazer conhec-la, senhora Colter.
Dani notou um certo distanciamento na voz spera, como que anunciando um "homem da zona proibida".
Por favor, me chame de Dani.  Olhou ento para a filha dele. Coitada. Como seria ter um pai to sexy quanto pecador, mas que no pretendia dar  filha uma me?  E voc deve ser River.
O nome combinava com a garota pequena e gil, de olhos num raro tom entre o cinza e o azul. Tinha cabelos negros, como os do pai, e usava-os compridos, os cachos chamando a ateno para os olhos incomuns. Aps estudar Dani sria por alguns segundos, deu um tmido sorriso banguela.
Gostaria de ver Abbey?  convidou Dani.  Ela est dormindo, mas pode dar uma espiada nela, se quiser.
A pequena River no esperou que insistissem. Ps a mo na de Dani e acompanhou-a ao quarto do beb. Gem contava uma historinha.
	O que  isso?  indagou a garota, de olhos arregalados. Dani suprimiu um gemido de desgosto.
	Deve ser A Bela Adormecida.
River olhou em torno pelo quarto.
	Mas quem est contando?
	E Gem, nosso computador. Ela faz todo tipo de coisas para ns. Acende e apaga luzes, tranca e destranca portas, faz caf, ch e chocolate. Consegue at cozinhar, com um pouco de ajuda.
	Ela... conversa com voc?
	O tempo todo.  Dani alegrou-se com o fato de a pequena visitante no poder detectar a secura em sua voz.  Gostaria de falar com ela?
	Gostaria.  A menina uniu as duas mos, incerta.  O que posso dizer?
	O que quiser. River respirou fundo.
	Ol!
	IDENTIFIQUE-SE, POR FAVOR.
Ante a expresso atnita da garota, Dani explicou:
	Ela quer que voc se apresente. Diga-lhe seu nome.
	Ah, meu nome  River Sierra e vim ver o beb.
A curta sentena bastou para que se estabelecesse uma amizade. Com grande -prazer, Gem contou a River tudo sobre o rebento feminino. Aparentemente, j acessara os vrios estgios de crescimento e desenvolvimento humano. Dani tratou de interromper o discurso quando o computador ia detalhar a puberdade.
	Implementar programa educacional concentrador na faixa etria de seis anos, para discusses com River.
	CDIGO DE AUTORIZAO?
	No preciso de cdigo de autorizao, Gem. Nick j lhe disse para aceitar o comando de voz, e voc sabe muito bem disso.
	COMANDO DE VOZ ESTABELECIDO NA RESIDNCIA DE SHERATON, NO NA RESIDNCIA DE COLTER.
	S pode estar brin...
	Algum problema?
Dani abriu um sorriso ao voltar-se para Raven Sierra, rezando para que o cliente no notasse sua perturbao. Se bem que estivera quase gritando com o computador.
Nenhum. Eu s estava programando o computador para manter a conversa e a linguagem apropriadas  idade de River.
Tive a impresso de que no se saa muito bem.
Para alvio de Dani, Nick entrou no quarto.
Creio que a culpa  minha. Gem, o comando de voz de Dani aplica-se a todos os lugares.
AFIRMATIVO. REPROGRAMAO EM ANDAMENTO.
	Pronto, River  anunciou Dani.  Se Gem disser algo que voc no entenda, basta pedir-lhe que explique.
	Ela pode me contar uma histria?  A menina olhou apreensiva para o pai.  Como as mes fazem?
A tenso endureceu os ombros quadrados de Raven, e Dani desejou ter coragem para abraar maternalmente aquela criana.
	Claro. Gostaria de se sentar na cadeira de balano ao lado do bero? Pode olhar o beb enquanto ouve a histria. Se ela chorar, v me chamar.
	PEDIDO DESNECESSRIO' protestou o computador.  O CHORO DO BEB DISPARA O NVEL DE SEGURANA ALERTA UM.
	Gem, eu gostaria que River fosse me avisar, est bem?
O computador emitiu um som grave de desgosto. A menina ergueu o sobrolho e Dani deu um sorriso inocente.
	Isso significa "est bem".
Felizmente, Gem comportou-se aps o episdio. "Brincou" um pouco com River e depois explanou em detalhes suas capacidades, demonstrando-as. Durante o jantar, discutiu-se como o sistema beneficiaria a famlia Sierra tanto em casa quanto na empresa. Difcil, como sempre, era determinar o grau de interesse do cliente. Raven era capaz de manter-se to inexpressivo quanto Nick. 
Terminada a refeio, Dani foi para a cozinha preparar um caf, enquanto Nick respondia s questes tcnicas. A equipe que levara e servira o jantar pronto partira havia muito, deixando a cozinha impecvel. Os balces, os armrios e at os eletrodomsticos reluziam de to limpos. Como tudo era preto e com puxadores e painis de controle embutidos, no conseguia mais distinguir o fogo e a geladeira.
	Gem, sabe onde est o fogo?
	AFIRMATIVO.
Dani fechou os olhos e contou at dez.
	Pode me dizer onde est?
	INCAPAZ DE REALIZAR. TAL INFORMAO REQUER A RETIRADA DO NVEL DE SEGURANA ALERTA UM.
	S pode estar brincando!
	ACESSANDO "BRINCANDO". UM MOMENTO.  Segundos depois, Gem anunciou:  BRINCANDO. MENTIR POR BRINCADEIRA. UTILIZAR OU EMPREGAR PROVOCAO, HUMOR OU LOGRO PARA BRINCAR. NO ESTOU PROGRAMADA PARA TAL FUNO.
	Nick me deu comando de voz, seu monte de lixo mecnico. Agora, me diga onde esto o fogo e a geladeira!
	INCAPAZ DE REALIZAR. TAL INFORMAO REQUER A RETIRADA DO NVEL DE SEGURANA ALERTA UM. VOC TEM ACESSO AUTORIZADO SOMENTE AO NVEL DOIS.
	O qu?!
Nick escancarou a porta da cozinha.
	Que diabo est havendo aqui? D para ouvir vocs duas berrando l da sala!
	A culpa no  minha!  eximiram-se Gem e Dani, ao mesmo tempo.

CAPITULO 9

Dani olhou furiosa para Nick.  Seu computador no quer me dizer onde est a geladeira.
	Gem!
	A SRA. COLTER EST LIMITADA AO NVEL DE SEGURANA DOIS. PEDIDO PARA INFORMAO DE SEGURANA NVEL UM NEGADO.
	Conceder nvel de segurana um  senhora Colter. De agora em diante, responder a todas as perguntas e obedecer a todas as ordens dela. Todas. Est claro, Gem?
	AFIRMATIVO. Dani cruzou os braos.
	Agora, diga onde est a geladeira!
	PROCESSANDO. A GELADEIRA ENCONTRA-SE DOIS METROS  SUA DIREITA. QUER QUE EU ABRA A PORTA?
	Quero!  rosnou Dani.  Quero tambm que meu marido explique por que os eletrodomsticos se referem ao nvel de segurana um, bem como por que eu, sua esposa e companheira, no tinha acesso a esse nvel.
Nick olhou para o cho.
	Vamos ter que adiar esta discusso at que nossos convidados tenham ido embora.
Dani teve uma sensao estranha. Nick escondia algo. Tinha certeza. E devia faz-lo explicar-se agora, antes que tivesse tempo para inventar uma resposta convincente.
Seja breve  sugeriu, autoritria.  Tenho certeza de que Raven no se importar em esperar mais trinta segundos.
Aps alguma hesitao, Nick esclareceu:
	Eu era o nico com acesso ao nvel de segurana um, com exceo do pai de Peter. Voc nunca teve. Nem Peter.
	Por qu?
	Porque o acesso ao nvel um possibilita mudar a programao de Gem.  Os olhos de Nick se obscureceram, meio sarcsticos.  Acho que entende minha relutncia em lhe conceder tanto controle.
Dani concluiu que ele dizia a verdade, se bem que no toda.
	Est bem, Nick. Estou satisfeita. Por ora.  Vi-rou-se para os armrios negros. A porta da geladeira estava aberta. Gem era a responsvel. Incrvel.  Minha nossa. Mostrou isto a Raven?
	Pensei em mostrar, mas ento me lembrei de que voc ainda no conhecia o sistema. Considerando sua preocupao quanto a Raven descobrir que voc acaba de se mudar, sua reao podia entregar o jogo.  Ele ps um dedo sob o queixo dela e fechou-lhe a boca.  Gem, pode preparar o caf?
	AFIRMATIVO.
Numa das extremidades do balco, um cilindro negro comeou a emitir sons tpicos da preparao do caf. Dani balanou a cabea.
	 incrvel.
	Que bom que est impressionada.  Nick fitou-a por um segundo, ento inclinou o rosto e beijou-a. Sem pressa, iniciou uma lenta e sedutora explorao. Aparentemente, conclura que o cliente podia esperar mais um pouco.  Bem-vinda ao lar  saudou, por fim.
Dani apertou-se contra ele, vendo promessa nas palavras possessivas. Pela primeira vez em muito tempo, a esperana retornava a sua vida.
A noite fechou-se sobre a casa em que Nick abrigava havia muito um silncio doloroso. Sofrendo de insnia desde a infncia, muitas vezes recorrera ao trabalho como panaceia. Dessa vez, porm, o trabalho no estava consolando. Uma hora antes, ouvira Dani ir de mansinho ao quarto de Abigail. Mais que tudo, quisera juntar-se a elas. Mas hesitara, inseguro quanto  recepo que teria e ainda mais quanto  prpria capacidade de man-ter-se a distncia da esposa.
Sem fazer barulho, levantou-se da cama e postou-se  porta entreaberta do quarto de Dani. O abajur estava aceso. Entrou. Ela dormia com um livro aberto no colo. Colocou o volume de lado e ajeitou-lhe as cobertas. Pelo jeito, no era o nico com dificuldade para adormecer.
Vinha tendo sorte, nas ltimas semanas. Aps cinco longos anos, finalmente convencera Dani a despos-lo. Ela o presenteara com uma filha e, agora, dormia sob seu teto, comprometida com um casamento de um ano. Bem antes de completar-se esse prazo, esperava v-la partilhando tambm sua cama. Tinha tudo. Tudo o que sempre desejara.
Restava-lhe agora descobrir uma maneira de manter o que conseguira.
No seria fcil. Ela no confiava nele, graas a Peter. Alis, o fato era mais compreensvel do que ela imaginava. Ela esperava do casamento um compromisso total, o que ele era capaz de conceder. S que ela queria tambm amor. Eis algo difcil para ele ceder. J no sabia nem se era capaz de tal emoo. O desejo fsico, entendia-o e a ele podia entregar-se plenamente. Mas amor? Re-traa-se  possibilidade.
	SENHOR COLTER?  sussurrou o computador.
	Sim, Gem?
	EST ACONTECENDO ALGO ANORMAL? Ele abriu um sorriso tnue.
	No, Gem. S estou cuidando de minha famlia.
	NENHUM DESVIO EM ANDAMENTO?
	At agora, no.  Nick estendeu a mo para tocar em Dani, mas conteve-se. No devia, ainda. No at que pudesse oferecer mais do que luxria. Baixou a mo.  Apague as luzes, Gem. Avise-me se ela precisar de algo. De qualquer coisa.
	AFIRMATIVO, SENHOR COLTER.
Trs semanas aps aquele jantar em casa de Nick, Raven Sierra concordou em testar Gem. Dani e Nick trabalharam juntos no projeto, aproximando-se de uma maneira que ela nunca imaginara possvel. Todo dia, aps o expediente, relaxavam juntos, conversando sobre os mais variados assuntos, divertindo-se assistindo a televiso ou a algum vdeo. Mas o que mais gostavam de fazer era ficar juntinhos no sof, com Abigail entre eles, passatempo bastante raro, infelizmente.
	Dani?  Nick saiu do estdio.  Onde tinha ido?
Ela parou no corredor, com o beb nos braos, surpresa por v-lo to tenso.
	Oh, esqueci de dizer a Gem que tinha consulta no mdico hoje.
	Com o pediatra de Abbey?  quis saber ele, amuado.
S ento Dani compreendeu.
	No roubei nenhuma lembrana de voc, Nick  afirmou, suave.  Jamais faria isso. Fui ao meu mdico.
J faz dois meses que Abbey nasceu e...  Corada, no completou.
Nick relaxou.
	E est tudo bem?
	Est.
Dani receou alguma indiscrio, mas ele s comentou:
	Que bom.
	Obrigada.  Sem jeito, ela fez um gesto para o corredor.  Vou estar no quarto do beb, se precisar de mim. Est na hora da mamada.
	Claro.
Nick fez que ia entrar de novo no escritrio, no antes que Dani detectasse um flash saudoso nos olhos dele. Por instinto, indagou:
	Quer vir tambm?
Ele balanou a cabea.
	Acho que no vai conseguir relaxar se eu estiver assistindo.
	Consegui em todas as outras vezes.  Era verdade. Ele a deixava um pouco constrangida, atiando sentimentos que deviam ser suprimidos, mas apesar disso conseguia faz-la relaxar o bastante para amamentar Abigail.  No quer mesmo? No me importo.
Ele se ps de lado junto  porta do escritrio.
	Se tem certeza de que no vou atrapalhar, venha.
	Aqui?
	Por que no? Pode se sentar no sof e me contar como foi seu dia enquanto amamenta.
Acomodou-se na beirada do sof e olhou-o curiosa. Conhecia-o havia cinco longos anos, crente de que ele no diferia em nada de seus computadores. Tal ideia parecia ridcula agora.
	V mais para l  sugeriu ele.
Sentando-se na ponta do sof, recostou-se contra o brao e estendeu uma das pernas ao longo do assento, deixando a outra apoiada no cho. Com tapinhas no couro, convidou-a a instalar-se entre suas coxas. Ela no se retraiu, permitindo que ele a puxasse de encontro ao vo estreito. O encaixe foi perfeito e delicioso, como sempre. Ele segurou Abigail enquanto ela abria a blusa e a frente do suti.
	Nick?
	Hum?
	Voc no  como Gem, ?
	Claro que sou.  Ele colocou o beb nos braos dela.  Somos almas-gmeas, querida. No  o que sempre disse?
	.  Dani observou o beb abocanhar o mamilo o comear a sugar com sofreguido.  Mas agora sei que estava errada.
	O que est tentando dizer, querida?
Dani no sabia. No mesmo. Seria bom mudar de assunto.
	O que  aquilo atrs de sua mesa?
	Um monitor de vdeo. Pode mostrar at dezesseis imagens diferentes ao mesmo tempo. Os outros s aces-sam uma de cada vez.
	H um em cada cmodo?
	Exato.
	O que voc monitora?
	Tudo o que est conectado ao sistema de vdeo. A casa, o escritrio. A televiso. E at alguns de nossos clientes cujos contratos determinam isso.
	No sabia...  Dani enrijeceu-se de repente.  Um momento. Todos os cmodos esto no sistema de vdeo? Todos tm uma cmera?
	Isso mesmo. Em caso de emergncia, Gem liga a cmera para que eu possa avaliar a situao.
	Mas ela no grava a imagem o tempo todo?
	No. Ela s grava com autorizao.  Aps uma pausa tensa, Nick suspirou sonoramente.  Saiba que havia cmeras em sua casa. Peter mandou coloc-las quando instalamos Gem. Mas ele nunca as ativou.
Dani lembrou-se de que Nick interligara as moradias de ambos logo que Abbey nasceu. Mais um segundo e ocorreu-lhe a lgica questo seguinte:
	E voc? Alguma vez as ativou?
Ele apertou os braos em torno dela, como que para impedi-la de fugir.
	Ativei.
Nick respondera em tom to brando e pesaroso que Dani sentiu sua raiva morrer antes de nascer. Afastou o beb do seio.
	Por que, Nick? Por que invadiu minha privacidade desse jeito?
	Na primeira vez, foi quando voc no conseguia amamentar Abigail.  Nick tinha a voz embargada. Para um homem sem emoes, o incidente parecia t-lo afetado bastante.  Gem me disse que estava havendo uma emergncia e eu ordenei que ligasse a cmera. Voc estava sentada na cadeira de balano, chorando quase tanto quanto o beb...
E ele sara correndo para ajud-la, trajando apenas uma cala jeans. No obstante, precisava saber.
	Mandou Gem ligar a cmera outras vezes?
	Mandei.  Ele se mexeu, e ela sentiu os msculos do peito msculo contra suas costas.  Eu dava uma olhada em Abigail todas as manhs. Precisava v-la. Falar com ela. Passar algum tempo com ela. Estava errado, eu sei, mas, Dani, ela  minha filha. Eu queria v-la. No s de vez em quando, mas todos os dias. Pode entender isso?
	Sim, eu entendo. Mas devia ter pedido, Nick.  Dani achou que era o momento de se arriscar a excitar a bomba dele.  Voc ama Abbey, no ama?
	Ela  minha filha  esquivou-se ele.
	Mas voc a ama, no ama?
Ele estava tenso.
	Eu daria minha vida por ela  esquivou-se de novo.
 Faria tudo o que estivesse a meu alcance para proteg-la. Quero fazer parte da vida dela e t-la como parte
da minha.
	Diga as palavras, Nick. Diga.
Silncio. Dani fechou os olhos.
Sentindo as lgrimas aflorarem, ela baixou a cabea.
	No  suficiente  murmurou.  No posso viver assim. Pensei que pudesse, mas no d.
Levantou-se apressada do sof, com Abigail nos braos. Nick seguiu-a pelo corredor, alcanando-a  porta do quarto do beb. Pegou a filha, acomodou-a no bero e s ento encarou-a, os olhos azuis frios e distantes.
	O que quer de mim? Que mais posso oferecer que j no tenha dado?
	Por que fez amor comigo na vspera de ano-novo, quando vim aqui trazer aqueles documentos? Por que me beijou?
	Sabe por qu.
	Desejo.
	Tambm.
	S isso?  Dani estudou-lhe o rosto desesperada, tentando adivinhar seus pensamentos mais ntimos, descobrir algum sinal de que ele sentia algo.  Aquela noite significou to pouco para voc? Foi uma maneira divertida de saudar o ano-novo?
	Eu nunca disse isso?
	Voc nunca disse nada!  Ela balanou a cabea.  E impossvel que eu tenha s imaginado a ligao entre ns. No pode ter sido s fantasia. No posso acreditar. No vou acreditar!
	Palavras?  sem elas que no consegue viver? Quer mentiras confortadoras? Do tipo que Peter lhe contava?
	No!
	Ou  isto o que quer?
Nick tomou-lhe a boca, vido, exigente e suplicante. Puxou-a contra si, to apertada que ela no deixaria de perceber sua reao masculina ao contato. Ele a queria com um desespero que se equiparava ao dela, avassalador, devastador.
	No, Nick. No podemos.
	J fizemos. Nossa filha  a prova.
	O que no significa que seja certo. Voc no me ama. Voc no ama nem sua filha.
Ele contraiu os lbios.
	Estou aqui, comprometido a fazer este casamento vingar. Estou me dando inteiro a voc e Abigail. E que remos um ao outro. Vai negar?
Os olhos dela encheram-se de lgrimas.
	No, no vou. Mas isso no quer dizer que seja certo. No foi certo quando concebemos Abbey e no  certo agora.
	Faltam dez meses para o trmino de nosso acordo, pretende mesmo passar todo esse tempo em celibato?
 Pretendo.
	Dani, por favor. Vamos ter um casamento de verdade.
	Casamentos de verdade devem durar para sempre. No era isso o que Peter queria.  Ela o encarou firme.  E o que voc quer, Nick?
Ele fechou os olhos, encurralado.
	Peter era um idiota. No era digno nem de seu amor, nem de sua confiana.
	Voc no respondeu. Quer um casamento para sempre?
A questo pendeu entre ambos. Rijo, Nick raciocinava furiosamente em busca de mais uma resposta evasiva.
	No vou abandonar voc e Abigail. Vou fazer tudo ao meu alcance para que sejam felizes. Pode confiar em mim, Dani. No vou tra-las.
	E o amor?
Como Nick no respondia, Dani concluiu que cabia a ela decidir. Podia viver sem amor? Assim vivera com Peter. E quem podia predizer o futuro? Talvez o amor chegasse mais tarde, com o convvio. Talvez conseguisse quebrar o gelo em que se encarcerava o corao dele, ou derret-lo com seu calor. Sabia que Nick no a magoaria. Ele no era Peter.
Nick pareceu adivinhar sua deciso. Erguendo-a nos braos, carregou-a para o quarto. Assim que transpuseram a porta, pousou-a de p. Diante dele, ela viu nos olhos dele aquilo que devia estar evidente nos seus. Cautelosos, ambos queriam aproximar-se, mas hesitavam. Temiam arriscar aquele ltimo passo avante.
Foi s ao respirar fundo que Dani percebeu que sua blusa continuava aberta. Perturbada com a frieza de Nick, esquecera-se de aboto-la aps amamentar Abbey. No fechara o suti, tampouco. Nick tambm percebeu. Erguendo as mos, afastou ainda mais as abas da blusa.
Longe de protestar, ela permitiu que ele apreciasse seus seios.
	Voc mudou.
Ela riu brandamente.
	Experimente ter um beb.
	Quero ver as outras mudanas. Todas.  Nick puxou a blusa por sobre os ombros dela, e ao longo dos braos. O suti tambm foi descartado. Com os polegares, acariciou os mamilos rgidos, contornando os bicos escurecidos.  Esto maiores. Mais escuros.  Sopesou os seios.  E mais cheios.
Um arrepio percorreu-a toda.
	Acha ruim?
	Nem um pouco. Quando fizermos amor, o leite vai sair?
Apesar do espanto, Dani conseguiu murmurar:
	No sei.
	Vamos descobrir juntos, ento.  Ele baixou as mos.  Vou tirar o resto de suas roupas.
Sem fala, ela apenas aquiesceu nervosa, concordando. Ele lhe desabotoou a cala e abriu o zper, baixando-a at os quadris. Ento, agachando-se, livrou-a da pea erguendo primeiro um p, depois o outro. Ela enterrou a mo nos cabelos dele, cnscia de que s lhe restava sobre o corpo uma pecinha de algodo branco com elstico na cintura. Estremeceu.
Para surpresa de Dani, Nick no a despiu imediatamente. Em vez disso, pousou a mo na suave curvatura de sua barriga, aquecendo-a.
	Difcil acreditar que, h poucos meses, Abigail estava aqui.
	Difcil para voc. Para mim, nem tanto.
	Gostaria de ter estado aqui o tempo todo. Eu teria gostado de acompanhar todos os estgios da sua gravidez.  Ele a fitou no rosto, os olhos azuis flamejantes.  Talvez da prxima vez.
	Ainda nem recuperei a forma, e voc j est falando na prxima vez?
	Sou filho nico. No quero que Abigail tambm seja. Quero que ela tenha uma famlia como a sua, no como a minha.
Segurando-a pelos quadris, Nick roou a boca nas linhas brancas sobre o abdmen dela.
	Estrias  explicou Dani, pesarosa.  So como fios corridos na meia-cala, s que piores. Infelizmente, no se pode arrancar a pele e comprar outra nova, como se faz com as meias.
	Nesse caso, pensemos nelas como cicatrizes de guerra. Condecoraes de honra. De qualquer forma, ningum ir v-las, a no ser eu.  No se tratava de uma pergunta, mas de uma declarao.  E eu as acho lindas.
Antes que ela pudesse responder, ele introduziu os polegares por dentro do elstico da calcinha e puxou-a ao longo de suas pernas. Ela podia ter-se sentido vulnervel e exposta, mas no se sentiu. Graas a Nick, sen-tia-se bela e desejada. Ele se ps de p e despiu-se em poucos movimentos, atirando a camisa e a cala sobre as roupas dela empilhadas no cho. Num minuto, estavam um diante do outro, sem artifcios.
E juntaram-se, espontneos e seguros, redescobrindo seus pontos secretos  medida que transferiam as lembranas para a realidade. Ao sentir a boca vida de Nick em seus seios, Dani passou as mos pelas costas dele, deliciando-se com o contato. Ele foi baixando o rosto, detendo-o entre o ventre e as coxas generosas, aos quais aquecia com a respirao ardente. Aps deter as mos sobre os quadris estreitos dele, ela contornou o delta sombreado entre as pernas musculosas, ao mesmo tempo que ele a agarrava pelo bumbum.
Aninharam-se entre os lenis bordados com o monograma de ambos.
Haviam resistido quele momento, sabendo que corriam de encontro a ele, tragados por uma gigantesca onda de desejo. Dani abriu-se para Nick, rebolando os quadris com graa, prendendo-a entre as coxas macias. Ele planejara possu-la devagar, ela via nos olhos dele, mas no conseguia controlar a tempestade, assim como no conseguira na vspera do ano-novo. Ele avanou, introduzindo-se fundo, deslizando pelo caminho de doura indescritvel.
A exploso final atingiu-os. Foi uma bno, uma celebrao, uma fuso de corao e alma. Passara-se quase um ano, meses interminveis de morte emocional.
Quando Dani despertou, j estava escuro. Nick permanecia abraado a ela, envolvendo-a toda com seu calor.
	Luzes  sussurrou ela.  Dez watts.
Com cuidado, desvencilhou-se dos braos dele, assolada por uma inexplicvel inquietao. Vestindo uma camisola, foi ao quarto do beb, embora no estivesse na hora de amamentar. Apoiou-se na cerca do bero e observou a filha no sono, acariciando-lhe a bochecha rosada. Passou a vaguear pela casa ento, at chegar  sala de estar. Diante da imensa janela, sentiu a proximidade da aurora, bem como o gradual despertar da prpria alma.
Era como seu amor por Nick. Sempre estivera presente, ainda que oculto, encerrado numa noite de cinco anos at romper o horizonte, quente e radiante.
	SENHORA COLTER?
	Sim, Gem?
	EST OCORRENDO ALGO ANORMAL?
Sim, est, pensou Dani. Dois anos de escurido chegam ao fim e a manh est chegando. Riu divertida.
	No, Gem. No est ocorrendo nada anormal.
	TEM ALGUMA SOLICITAO? Dani surpreendeu-se.
	Por que pergunta?
	O SENHOR COLTER DETERMINOU QUE EU O AVISASSE SE A SENHORA PRECISASSE DE ALGUMA COISA.
	No preciso de nada.
No era bem verdade. Queria fazer uma pergunta  qual Nick nunca respondera satisfatoriamente. No entanto, hesitava. Mais tarde, atribuiria  premonio. Mesmo apreensiva, deu vazo  preocupao:
	Gem, por que a SSI est em dificuldades financeiras?
	ACESSANDO. PERDA DE ATIVOS RESULTOU NA REDUO DO LUCRO LQUIDO. RELATRIOS FINANCEIROS DISPONVEIS NO TERMINAL PRINCIPAL DO COMPUTADOR.
Dani franziu o cenho.
	Perda de ativo? Como isso aconteceu?
	ATIVO FOI REMOVIDO ILEGALMENTE DA SSI.
Dani levou alguns segundos para entender. Ento, foi tomada por um mau pressentimento.
	D explicaes detalhadas, Gem.
	EXPLICAO REQUER ACESSO AO NVEL DE SEGURANA UM.
	Eu tenho acesso ao nvel de segurana um!  protestou ela, nervosa.  Agora, explique o que acabou de informar.
	PROCESSANDO.  Passou-se um tempo que pareceu interminvel. Por fim, Gem retomou a palavra.  FUNDOS DAS SEGUINTES CONTAS FORAM REMOVIDOS ILEGALMENTE PELO SENHOR PETER SHE-RATON. CONTA NMERO...
	Encerrar transmisso  ordenou Nick.
CAPTULO 10

Dani girou nos calcanhares, confrontando-se com Nick.
	 verdade?  questionou, incrdula.  Peter desviou dinheiro da SSI?
	.
	Como? Quando?
	No dia em que morreu.
	E voc no recuperou esses fundos?  Com os lbios trmulos, Dani esforava-se para manter a compostura.   por isso que estamos em dificuldades financeiras.
	No, no recuperei  respondeu Nick, por fim.  E, sim,  por isso que estamos em dificuldades financeiras.
	Mas o que foi que ele fez com o dinheiro? Por que voc no conseguiu encontr-lo?  Vendo-o esquivo, ela soube que havia mais.  Nick?
Ele passou a mo pela nuca e, por fim, encarou-a.
	Quer a verdade?
	Seria bom, para variar.
	Encontrei o dinheiro, mas optei por no recuper-lo. Dani ficou estupefata.
	Mas por qu? Nick, ele deve ter levado milhes!
	Levou.
	Por que no quis de volta?
	Sente-se, Dani.
	No! Quero que responda a minha pergunta!
	Sente-se.  S depois que Dani se acomodou na cadeira, Nick revelou:  Ele deu o dinheiro a Kristy Vallens.
	A assistente dele?  Dani levou cinco segundos para compreender.  Ele ia se separar de mim para ficar com ela. Estava indo a seu encontro quando espatifou o carro.
	Isso mesmo.
	Mas isso no explica...
	Ela estava grvida.
Dani experimentou uma sbita tontura.
	No...
	Teve um menino. Ambos encontram-se na Europa.
	No pode ser. Ele era estril!
Nick deu um sorriso irnico.
	Parece que no. Foram realizados testes, Dani. Apesar da probabilidade nfima,  verdade. O beb  de Peter.
	Dani descabelava-se.
	Ela est mentindo! Deve ter usado parte do dinheiro para falsificar o resultado dos exames!
Nick balanou a cabea.
	Por que acha que passei tanto tempo na Europa? Tive que investigar a respeito.
	Como a encontrou?
	Os documentos que voc me entregou na vspera de ano-novo forneceram todos os dados de que precisava para rastre-la.
	Por que no a entregou  polcia?
	Para qu?  Ele tinha os lbios duros, tensos.  Para v-la na cadeia, ao mesmo tempo que o beb era entregue  assistncia social? Para tirar do filho de Peter o direito  herana? Voc teria feito isso?
Dani balanou a cabea negativamente.
	O dinheiro era de Peter, assim como metade da SSL  Esforou-se para falar sem emoo.  Eu s peguei uma carona.
	S ele houvesse me oferecido a parte dele, eu teria comprado  garantiu Nick.  Acho que ele preferiu roubar porque a gravidez de Kristy os pegou de surpresa. Se no agissem rpido, se veriam amarrados a um interminvel processo litigioso.
Dani fitou o tapete.
Mesmo vendendo a parte dele, ele teria me abandonado.
	Sem dvida. E teria se apossado dos proventos antes de pedir o divrcio. Voc teria levado um tempo para pr as mos em algum dinheiro. Ele cuidaria disso.
Dani imaginou-se falida, despojada financeiramente, sem trabalho, nem meios de se sustentar. Levou a mo  boca.
	Oh, no...
Nick devia ter-lhe lido os pensamentos. Agachando-se a seu lado, tomou-lhe os ombros.
	Voc  minha mulher agora, Dani. Nada mais importa. Peter no importa. O dinheiro no importa. Vamos viver nossa vida. Temos Abigail. Vamos superar tudo isso.
	Voc me sustentou todo esse tempo, no ?
	J lhe disse: no importa!
	Importa, sim.  Dani endureceu o queixo, contendo as lgrimas.  Para mim, importa. Por que no me contou?
	Pelo mesmo motivo que a levou a esconder sua gravidez de mim. Eu sabia que tomaria alguma atitude desastrada se descobrisse. Uma atitude nobre e abnegada.
Furiosa, Dani levantou-se e foi at a janela, apertando os braos em torno do corpo. Ento, voltou-se para Nick.
	Voc tomou decises a respeito da minha vida. Decises que no tinha o direito de tomar.
	Voc tambm. Ou j esqueceu o motivo de nosso casamento?  Nick esperou que ela digerisse a acusao antes de perguntar:  O que teria feito se eu tivesse contado a verdade?
Dani pensou um pouco.
	Eu... teria vendido a casa. Com o dinheiro, teria me sustentado at arranjar trabalho.
	Quando Peter morreu, a casa de vocs j estava hipotecada.
Dani tentou conter o pnico.
	No, no estava! Era propriedade nossa, sem nus!
Nick balanou a cabea.
	Nick hipotecou a casa e juntou o dinheiro obtido quele que roubou da empresa. E ainda fez com que as prestaes mensais fossem debitadas de uma conta da SSL A primeira ocorreu exatamente trs semanas aps a morte dele. Eis como descobri. Quitei a dvida com o banco imediatamente. Enxergue a realidade, Dani! Peter no ligava a mnima para voc! Pretendia deix-la sem um tosto. Fez tudo o que estava a seu alcance para mago-la.
Dani no conteve mais a torrente de lgrimas.
	Por qu? Por que ele teria feito isso comigo? Eu era mulher dele. Eu o amava. E ele...
Nick tomou-a nos braos, apertando-a com fora.
	Ele lhe fez um favor. No v? Se ele no a houvesse abandonado, voc no teria tido Abigail.
	Mas e se nao houvesse acontecido aquilo na vspera de ano-novo? E se eu no houvesse engravidado? Voc teria continuado fingindo que eu era sua scia?
	Voc  minha scia.
Dani balanou a cabea.
	No, no sou. Peter me excluiu da empresa ao roubar o dinheiro.  O orgulho obrigou-a a encar-lo.  Responda, Nick: por quanto tempo continuaria com os subterfgios?
	Pelo tempo que fosse necessrio.
	Concordamos num casamento de um ano. Daqui a dez meses, voc compraria minha parte na empresa. S que no existe tal parte. O que planejava? Anunciar, ao final desse perodo, que eu no tinha direito a dinheiro nenhum? Que Peter levara tudo?  Dani arrepiou-se, gelada.  Sem fundos, eu no poderia sair desta casa, nem iniciar meu prprio negcio. Tampouco poderia sustentar Abbey. Voc teria todo o controle. Voc teria a ns duas exatamente onde queria.
Nick retrara-se a cada palavra, voltando a ser o homem de gelo que ela conhecera muito tempo antes.
	E assim que pensa?
	No sei mais o que pensar! Nossas vidas tm sido uma grande mentira! Afinal, onde terminam as mentiras e comea a verdade?  Dani desvencilhou-se do abrao.
	Por que no me contou a verdade? A nica coisa que lhe pedi foi honestidade.
	Voc no quer honestidade. Por causa de Peter, quer uma garantia. Quer as palavras, ainda que no tenham validade. E quer que eu lhe d algo que no tenho. Onde est sua honestidade?
	Voc disse que eu podia confiar em voc. Esta noite no significou nada?
Nick endureceu o queixo.
	Se quer a verdade, no me pea para mentir.
Era a resposta de que Dani precisava.
	Pois bem. Basta de mentiras.  Num supremo esforo, evitou a histeria. No daria rdeas s emoes que ele tanto desprezava.  Falta me contar alguma coisa?
	S uma.
Dani no sabia se suportaria outro golpe, ainda que fraco.
	SENHOR COLTER?
	Agora no, Gem.
	ALERTA DE EMERGNCIA NA RESIDNCIA DO SENHOR COLTER PAI.
	Transmita a mensagem  ordenou Nick.
	Nick,  sua me. Houve um acidente no laboratrio. Precisamos de ajuda.
	J estou indo! Gem, monitore a ligao e pea  polcia que me encontre em frente  casa em dez minutos.
	Nick fitou Dani no rosto perturbado.  Ainda vai estar aqui quando eu voltar?
	No sei. Juro que no sei.
	Apesar de tudo, eles so a minha famlia. Tenho que ir.
	Eu entendo.
	Ainda no acabamos, Dani. Se voc no estiver aqui quando eu voltar, vou encontr-la de qualquer maneira.
Com isso, Nick se foi.
Dani passou as horas seguintes tentando definir um curso de ao. Perturbara-a muito o fato de Nick ter mentido, de t-la sustentado financeiramente por quase dois anos sem que soubesse, alm de ter mantido em segredo a vida dupla de seu falecido marido. Que chance tinha o amor sem honestidade? A vontade de fugir era ainda maior do que quando Nick aparecera  sua porta s vsperas do nascimento de Abigail. Ansiava por ordenar todas as informaes que ele lhe transmitira. Mais que tudo, queria assumir o controle da prpria vida.
Sabia de apenas um lugar onde isso poderia acontecer: a casa de seus pais. L, pensaria nas opes. Eles a ajudariam a definir a situao e a descobrir uma maneira de se desvencilhar da baguna em que se transformara seu casamento.
No quarto, puxou uma mala de baixo das caixas de papelo que atravancavam o armrio. Pensando primeiro nas necessidades de Abigail, foi ao quarto dela e comeou a ench-la de roupinhas.
	REQUISITO INFORMAO.
Dani parou de revirar a gaveta e olhou para o teto.
	Que informao?
	ATIVIDADE ATUAL NO FAZ PARTE DA ROTINA NORMAL. EXPLICAR ANOMALIA.
	Estou fazendo as malas.
	UM MOMENTO. ACESSANDO.  Segundos depois, o computador voltou a se manifestar:  EXPLICAR MOTIVO PARA ESTAR FAZENDO AS MALAS.
	 simples, Gem. Abbey e eu vamos embora.
	DESTINO?
Que computador xereta!
	Qualquer lugar, menos este.
	PRAZO DE RETORNO?
	Nunca.  Ajoelhada no cho, Dani completou a mala com um monte de fraldas.  Processe isso, seu monte de sucata.

	ERRO NMERO ZERO-ZERO-DOIS. De p, Dani fitou o alto-falante.
	E o que  um erro nmero zero-zero-dois?
	SITUAO DE EMERGNCIA EM ANDAMENTO. Dani franziu o cenho e pousou as mos nos quadris.
	Um momento! Que emergncia est em andamento?
	DESVIO RELATADO.
	Eu no relatei um desvio, seu monte de placas enferrujadas! Estou indo embora, no me desviando!
	TODOS OS SISTEMAS EM ALERTA TOTAL.
	No se atreva a chamar Nick, est me ouvindo?
	COLTER DESAUTORIZADO.
Dani arrepiou-se, imaginando o computador descontrolado e enlouquecido.
	Gem, no faa nenhuma bobagem! Isto aqui no  a Toy Company, sabe disso!
	PROCESSANDO. DESVIO INACEITVEL. PROCEDER A TRAVAMENTO TOTAL.
	Pare j com isso, Gem!  ordenou Dani, em pnico.  No h nenhuma emergncia em andamento e no se atreva a travar o que quer que seja! Gem? Gem? Responda! Abortar travamento!
	PEDIDO NEGADO.
	Tenho nvel de segurana um! No pode negar meu pedido!
	DESVIO ANULA NVEL DE SEGURANA UM.
	Desde quando?
	CORREO PROGRAMADA NOS LTIMOS DEZ PONTO QUATRO SEGUNDOS.
Dani esforou-se para controlar a fria.
	Voc mudou as regras h dez segundos?
	H DEZOITO PONTO DOIS SEGUNDOS.
Dani correu para a porta. Trancada. S tinha acesso ao banheiro.
	Considere-se um computador morto, Gem! Est me ouvindo?
A nica resposta foi um "bip" indiferente.
Dani?
A casa jazia em silncio mortal. Nick cerrou os dentes. Ento, ela partira. Bem que adivinhara.
	Gem, relatar situao.
	ALERTA DE SEGURANA  sussurrou o computador.  DESVIO EM ANDAMENTO.
	Por que est sussurrando, Gem?
	A SENHORA COLTER EST NO QUARTO COM O REBENTO FEMININO.
Dani no fora embora? Nick suspirou de alvio e correu para o quarto do beb. Qual no foi sua surpresa quando a maaneta no girou!
	O que est havendo?
	Nick?  chamou Dani, l de dentro.
	Por que trancou a porta?
	Pergunte ao seu maldito computador!
	Gem!
	ALERTA DE SEGURANA. DESVIO EM ANDAMENTO. PROCEDER A TRAVAMENTO TOTAL.
	O qu? Quem ordenou travamento total?  Silncio.  Gem? Gem? Destranque a porta!
	A SENHORA COLTER FAZIA AS MALAS PARA IR A DESTINO NO-ESPECIFICADO. PRAZO DE RETORNO DECLARADO: NUNCA. INFORMAO INACEITVEL. TRAVAMENTO TOTAL NECESSRIO A FIM DE IMPEDIR A OCORRNCIA DENOMINADA "PARTIDA".
	Gem, no se pode manter o que no se tem  ensinou Nick.  No podemos obrigar Dani a ficar, se ela no quer.
PORTA TRAVADA IMPEDE PARTIDA.
Fechando os olhos, Nick encostou a testa na fria superfcie de carvalho.
	Destranque a porta, Gem. Executar imediatamente.
Vinte segundos inteiros se passaram antes de se ouvir o trinco da porta.
	ORDEM EXECUTADA.
Dani abriu a porta. Tinha Abigail nos braos. Ao fundo, Nick viu a mala quase cheia.
	Oi, Nick.
	Voc vai embora.
	Estou tentando.
	No programei Gem para impedi-la.
	Eu sei. Ela fez tudo sozinha. No sei como, mas fez.
	Gem quer que voc fique, e no  a nica. No v, querida. Vamos superar todos os nossos problemas se voc der ao nosso casamento meia chance.
	No posso  murmurou Dani.  No me tome como ingrata. Aprecio o que tentou fazer. Mas eu lhe disse, j no incio, que no conseguiria sobreviver a outra relao vazia. Preciso de amor, Nick. E preciso de um companheiro honesto. Caso contrrio, no vai dar certo.
Desesperado, Nick agarrou-se ao primeiro argumento que lhe veio  mente:
	Voc prometeu um ano. E prometeu no afastar Abigail de mim.
	Eu sei. No vamos para longe.  Dani estudou o rostinho da filha.  Abigail. "Meu pai alegra-se". Sabia o significado do nome quando o sugeriu?
	Sabia.
	E por isso o escolheu.
	Claro.
Dani deixou entrever a impacincia nos olhos negros.
	Gostaria que falasse, para variar, para eu no ter de adivinhar o tempo todo.  Aps breve pausa, concluiu: Mas suponho que seja esperar demais. Pode levar a mala para o carro?
Nick passou a mo pelos cabelos, contendo um grito de negativa, forando-se a no reagir, a no perder o controle.
	Tenho escolha?
	Tem. Posso arrast-la eu mesma. Retrado, Nick buscou foras nas entranhas.
	Eu levo.
Cinco minutos depois, Nick acomodava Abigail no assento junto ao banco traseiro do carro. Dani brincava com o chaveiro.
	Vou estar na casa dos meus pais, caso queira entrar em contato  informou.
Nick endireitou-se, rgido. Precisou reunir todas as foras para no colocar Dani sobre o ombro e carreg-la de volta para casa.
	H algo que eu possa dizer para que mude de ideia?
Ela o fitou detidamente nos olhos. Por fim, balanou a cabea.
	Acho que no. Parece que as palavras necessrias no existem no seu vocabulrio.
Dani acomodou-se ao volante e ligou o motor. Nick buscou refgio em casa. No suportaria v-la partir. Seria como ver a prpria vida se escoar. No olhou para trs nem uma vez.
Dani comeou a dar marcha a r no carro, mas brecou. Precisava de mais uma resposta antes de partir. Horas antes, indagara a Nick se havia algo mais que ela deveria saber, e ele dissera que sim. No, no partiria sem saber do que se tratava. Tratava-se do ltimo segredo. Desligou o motor e saltou.
Nick estava parado no meio do escritrio, sem saber o que fazer. Sensao terrvel. Nunca sentira-se perdido antes. Sempre houvera o trabalho. Desde o incio, a SSI tanto  cativara quanto motivara. Agora, no tinha o menor interesse. Desaparecera, junto com Dani e Abigail.
Baixou a cabea, os msculos to tensos que se ressentiram dolorosamente. Por que Dani fora embora? No percebia que se tornara parte de sua vida, junto com Abigail? As palavras eram assim to vitais? Ela no era capaz de adivinhar aquilo que ele era incapaz de dizer? No ouvia as palavras trancadas dentro dele? No ouvia o anseio lutando por liberdade?
O que no daria para ir ao quartinho de Abbey e v-la em seu bero. O que no daria para ir ao quarto de hspedes e encontrar Dani discutindo com Gem enquanto revirava caixas de papelo. Mais que tudo, o que no daria para ir ao prprio quarto e encontrar Dani sob os lenis bordados com o monograma de ambos, os cachos negros esparramados sobre a seda cor de marfim, os olhos escuros seduzindo-o com o brilho do desejo.
Um som dbil chamou-lhe a ateno. Um soluo de beb. Voltou-se devagar e viu Dani  porta, com Abigail nos braos. Tentou dizer qualquer coisa, mas as palavras faltaram-lhe.
	Ficou uma questo pendente  explicou ela.  Ou melhor, duas questes. Esqueci de perguntar sobre seus pais. Eles esto bem?
Nick aquiesceu e recuperou a voz, embora as palavras sassem em tom baixo, grave, devido  tenso.
	Foi alarme falso. Meu pai derramou alguns produtos qumicos e o laboratrio foi lacrado automaticamente.
	Fico feliz que estejam bem.
	Qual  a segunda questo?
	Depois que me contou a verdade sobre Peter, voc disse que havia outra coisa que eu deveria saber. O que ?
Nick estremeceu, querendo sumir. Se j no perdera Dani, iria perd-la agora.
	Voc no vai gostar de saber.
	Eu j desconfiava.
Nick optou por no poup-la.
	Eu sabia o que Peter planejava fazer.
Dani encarou-o incrdula, branca como giz.
	Voc sabia?!
	E no fiz nada para det-lo.
	Por qu?
Ele contraiu a boca.
	No consegue adivinhar?
	Queria o controle total da SSI?
	Nada disso.
	Queria Peter fora de seu caminho?
Nick divertiu-se, sem deixar de lado a amargura.
	No, querida. Eu o queria fora do seu caminho. Dani olhou-o atnita.
	No entendo...
	Vou explicar. Ele era um pssimo marido, Dani. No a amava. No lhe dava o carinho e a ateno que voc merecia. Eu queria que ele a abandonasse. Facilitei tudo.
	Mas por que voc faria isso?
Nick no respondeu, embora quisesse. Empenhara-se tanto por exercer controle sobre as emoes. Como explicar sentimentos que passara cinco anos negando, at para si mesmo? As palavras necessrias no existiam.
	Nick, responda. Por que fez isso?
	Tem razo. Desculpe. Eu no tinha o direito de interferir.
	Obrigada pela honestidade  concluiu ela, por fim.
	Vai mesmo embora?
Dani ergueu os olhos negros, que cintilavam midos.
	Vou.
	Por causa de umas poucas palavras?  Nick deu um passo na direo dela.  Precisa tanto assim ouvi-las?
	Receio que sim.
Dani deu meia-volta. Antes que pudesse sair, a porta se fechou e trancou.
	Gem, nada disso!  rosnou Nick.  Abra j essa porta!
	NEGATIVO. PARTIDA NO-AUTORIZADA.
	Eu estou autorizando a partida dela. Agora, destranque a porta e deixe-a sair.
	INCAPAZ DE EXECUTAR.
	Como assim?
	A SENHORA COLTER IR EMBORA.
	Gem, est programada para obedecer a minhas ordens. Estou ordenando que abra a porta.
	A SENHORA COLTER IR EMBORA. PALAVRAS SO NECESSRIAS PARA QUE A SENHORA COLTER E O REBENTO FEMININO FIQUEM. CONCEDA AS PALAVRAS REQUERIDAS.
Nick no acreditava no que ouvia.
	Quer dizer que, se eu no disser a Dani que a amo, no vai abrir a porta?
	ACESSANDO. SENHORA COLTER?
Dani olhou para o alto-falante, sem saber se ria ou chorava.
	Sim, Gem?
	"EU TE AMO" SO AS PALAVRAS REQUERIDAS PARA EVITAR SUA PARTIDA?
As lgrimas venceram, escorrendo pelo rosto de Dani.
	Sim, Gem, so essas mesmas. Preciso saber que ele nos ama. Que se importa conosco. Que nunca ir nos deixar.
	ACESSANDO.
O conjunto de monitores de vdeo atrs da escrivaninha de Nick se iluminou. Imagens encheram as telas, de Dani com Abigail, de incontveis momentos ao longo daqueles dois meses de casamento. Exibiram-se tambm imagens mais antigas, dos cinco anos de trabalho conjunto na empresa.
	Mas o que  isso?  indagou Dani.
Todas as imagens se apagaram e uma nica tomou conta dos monitores, formando uma grande tela. Trata-va-se de um incidente ocorrido anos antes, pouco depois de Dani comear a trabalhar na SSL Peter sara da sala, deixando-a sozinha com Nick. Intimidada pela inteligncia e sucesso do novo scio, ela concentrava-se em suas anotaes. Ou melhor, fingia concentrar-se, uma vez que estava nervosa demais para falar. A cmera focalizou Nick. Ele a observava. Seu rosto expressava um desejo imenso, mas totalmente sem esperana.
	Apagar imagem!  ordenou Nick.  J!
	APAGANDO.
Dani ainda no se refizera do que acabara de ver quando outra imagem gigante ocupou todos os monitores. Tra-tava-se da vez em que ela e Nick ficaram trancados no armrio enquanto executavam o projeto Kilburn. Aninhada nos braos dele, com a cabea apoiada em seu ombro, ela dormia profundamente.
	No a mereo aps ter tramado tudo isto, mas juro que tudo farei para proteg-la  sussurrava ele.  Eu devia deix-la em paz, para cuidar de sua prpria vida, mas no posso. Preciso de voc, querida. Sempre precisei e acho que sempre precisarei.
Dani sentiu os joelhos fraquejarem e Nick amparou-a, junto com o beb.
	Desligue isso, Gem!  ordenou.  Desligue isso j!
	INCAPAZ DE EXECUTAR. PALAVRAS NO FORAM DITAS.
E surgiu outra imagem. Fora gravada minutos antes. De p no meio do escritrio, Nick mantinha a cabea baixa e os punhos cerrados, o rosto pura agonia.
S ento Dani compreendeu.
	Voc no consegue dizer, no ? No  que no sinta. S no consegue expressar os sentimentos.
Ou seja, j que as palavras no saam por si ss, ela teria que for-las para dentro. Desvencilhando-se de Nick, acomodou Abbey no sof entre almofadas. Ento, ajoelhou-se ao lado do marido e tomou-lhe o rosto nas mos, obrigando-o a encar-la.
	Nick...
	Por favor, Dani. Chega disso.
	Oua, meu querido marido. Todos esses meses, estive esperando que voc me dissesse as palavras, que confessasse que me amava. S agora percebo que nunca disse as palavras a voc.  Passou as mos pelos cabelos loiros dele.  Eu te amo. Amo voc de todo o corao e alma. Amo voc h muito tempo.
	No v embora, Dani. No sou Peter. Juro que no.
	Eu sei.  Ela roou a boca na dele, sentindo a recepo imediata. Encheu-se de esperana.  Quebrei a cabea tentando entender por que Peter me deixou sem nada. Era um homem egosta, mas nunca foi cruel. Agora, acho que ele fez isso para obrigar voc a se manifestar. Voc no teria me deixado  mngua. Peter sabia disso.
Nick fechou os olhos, o rosto tenso. Dani sentia o corao dele palpitando, como o de um corredor diante de uma disputa impossvel de vencer.
Por fim, as palavras jorraram, derrubando as barreiras de toda uma existncia.
	Apaixonei-me no instante em que nos conhecemos. Era errado, e eu sabia disso. Mas voc era tudo o que sempre sonhei numa mulher. Odiei Peter por t-la encontrado antes de mim. E odiava o descaso dele para com seu amor.
Nick abriu os olhos ento. Pela primeira vez, refletiam paz, como os de um homem que finalmente encontrara a salvao.
	Oh, Nick...  emocionou-se ela, o queixo trmulo.
	Voc perguntou sobre o nome de Abigail. Acho que lhe devo a verdade.  Ele tomou-lhe o rosto nas mos, acariciando-o com sua respirao.  Quando soube que voc estava grvida, mal acreditei. Sempre quis ter um filho, uma famlia, mas no esperava t-los.
	Por qu?
Ele a puxou para mais perto.
	Porque achava que nunca ia me casar.
	Mas por qu?
	Porque a nica mulher que jamais quis j estava comprometida. Se no fosse com voc, eu jamais me casaria. Quando descobri que voc estava esperando um filho meu, quando Abbey nasceu...
	Deu-lhe o nome que significava "meu pai alegra-se"  completou Dani, sentindo nova torrente de lgrimas.
	Comecei a comemorar no instante em que voc abriu a porta e eu vi seu estado. Voc me deu esperana e amor, algo que eu nunca tinha tido antes. Algo que eu nunca esperara ter.  Nick dedicou-lhe um olhar em que oferecia amor e compromisso pela eternidade.  Esperei tanto tempo por voc. Tive tantos dias vazios.
	No ter mais. Temos o hoje, cheio de vida, e temos o amanh, que ser ainda mais rico. Eu prometo.
	Eu te amo, querida. Sempre amei e sempre amarei.
Nick reclamou-lhe a boca ento, reclamou-a como companheira, reclamou-a por toda a eternidade. Baniram-se as sombras de seu corao e de sua alma. Nunca mais precisaria controlar as emoes, esconder-se atrs de muros glidos. Nunca mais. Encontrara a salvao no abrao doce da esposa.
Um "bip" satisfeito ecoou dos alto-falantes.
	PALAVRAS REQUERIDAS ACESSADAS. REBENTO FEMININO NO MAIS DE PARTIDA. ALERTA DE SEGURANA CANCELADO.
EPLOGO

	 uma tradio, Gem  explicava Dani ao computador.  No dia do aniversrio de uma pessoa, todos cantam Parabns a Voc.
	HOJE  ANIVERSRIO DO SENHOR COLTER?
	Afirmativo.
	EXPLICAR SIGNIFICADO DE ACENDER FOGO EM CIMA DE PRODUTO DE PADARIA.
	E um bolo de aniversrio com velinhas, Gem. Outra tradio. Pus um vela para cada ano de vida de Nick, mais uma. Neste momento, estou acendendo-as. Daqui a pouco, vamos cantar, ento Nick vai pensar num desejo e sopr-las. E assim que se faz.
	O DESEJO  NECESSRIO PARA APAGAR AS VELAS COM SUCESSO?
	 fundamental.	
	O ANIVERSRIO DE UM ANO DO REBENTO FEMININO OCORRER EM TRINTA E DOIS PONTO QUATRO DIAS. A TRADIO SER OBSERVADA NOVAMENTE?
	Claro que sim. Abbey vai precisar de ajuda para apagar a velinha, pois ainda  muito pequena. Mas logo vai aprender.
Aps acender a ltima velinha, Dani ergueu o bolo do balco e levou-o para a sala de jantar. Imediatamente, os convidados comearam a cantar. Ao ver o sorriso no rosto de Nick, percebeu o quanto ele viera a apreciar as interminveis demonstraes de afeto de seus familiares Ainda lhe doa pensar na carncia de amor e ateno que ele sofrera na infncia. Apesar de ele ter compreendido a incapacidade dos pais de prov-lo quanto a tais necessidades, sabia que ele ansiava por gozar a afeio incondicional que ela sempre tivera. Felizmente, sua famlia tinha felicidade de sobra para aproveitar a brecha e abraar o novo membro.
Inmeros presentes equilibravam-se numa pilha ao lado, mas o mais importante era o tempo e o trabalho que cada convidado dispensara para escolher algo especial para o aniversariante.
Nick agarrou Dan pela cintura e colocou-a no colo. Ignorando os risos e provocaes, ela abraou-lhe o pescoo e deu um beijo demorado.
	Feliz aniversrio  murmurou, por fim.
Enciumada, a pequena Abbey exigiu ser erguida para o colo dos pais, cujos rostos lambuzou de beijos achocolatados. Nick abraou a filha com fora.
	Obrigado pela surpresa  sussurrou ele a Dani.
	Eu teria de me ver com dona Ruth, se no houvesse organizado a festa.
	Por qu?
Dani sorriu perspicaz.
	Voc  da famlia agora. Se eu no os convidasse, estaria roubando uma lembrana deles.
Vendo Nick sem resposta, Dani desconfiou de que ele ainda duvidava de sua importncia no seio daquela famlia. Mas logo se convenceria. Pouco a pouco, mas com constncia, ele se abrira, raramente retrocedendo ao gelo. Sentia que, nele, a necessidade sobrepujava a cautela, o medo de que tudo terminasse no dia seguinte.
	Mas no precisavam trazer presentes  protestou, constrangido.
	Claro que precisavam.  tradio.  Dani apoiou a cabea no ombro dele e afagou os cachos ruivos da filha.  Conte qual foi o seu desejo.
	No  segredo?
	No para a esposa. Conte.
Ele aproximou os lbios do ouvido dela, agitando a penugem junto  tmpora.
	Desejei outro retrato para o camafeu que ganhou de sua me.
Dani levou um segundo para entender.
	Um irmozinho ou irmzinha para Abbey?
	Acha cedo? Estamos mais folgados no trabalho. Graas a Raven Sierra, as vendas domsticas dispararam.
	Quer dizer que no  mais apenas um pobre milionrio?
	Estou quase conseguindo subir de categoria.
	Vamos discutir esse seu desejo direitinho depois da festa, ouviu?
Os olhos azuis de Nick adotaram um tom escuro.
	Promete?
	Prometo. Afinal,  um desejo de aniversariante. E, caso no saiba, esses desejos sempre se realizam.
	O DESEJO  NECESSRIO PARA APAGAR AS VELAS COM SUCESSO  lembrou Gem.
A pequena River Sierra aquiesceu solenemente e contemplou o bolo que a governanta colocara sobre a mesa.
	Foi o que pensei. No d certo se eu no pensar no desejo primeiro, certo?
	AFIRMATIVO.
A menina olhou para o presente do pai, outro livro de histrias ilustrado com os desenhos mais lindos que j vira. Ele at mandara ampliar um deles e colocar num quadro na parede de seu quarto. Adorava o quadro, com todas as foras de seu corpinho de cinco anos. Tratava-se de uma fada voando numa borboleta, uma fada de longos cabelos negros, como os seus. No livro, a fada realizava desejos.
River tinha um desejo muito especial.
	J PENSOU NO DESEJO?  urgiu Gem.
	Ainda no.
	PERIGO DE INCNDIO IMINENTE.
	O qu?
	Apresse-se.
	J vou, j vou.  River fechou os olhos e sussurrou:  Quero uma me para mim. E quero que ela seja igual  fada da histria.
Com isso, a menina abriu os olhos e soprou as velinhas.
Pronto. Exprimira o desejo. Agora, era s esperar que se realizasse. Porque Gem lhe dissera que o desejo de uma aniversariante sempre se transformava em realidade.

FIM

DICAS

PENSANDO EM ENGRAVIDAR?
Quanto voc est pesando?
O ideal  que seu peso se mantenha correspondente  sua altura por pelo menos seis meses antes de voc ficar grvida.
Se ele estiver acima ou muito abaixo do normal, procure um mdico para corrigi-lo. No tendo problemas srios de peso, nada de regimes durante a gravidez, pois poder privar seu organismo de nutrientes vitais.
Sua alimentao  saudvel?
Voc aumentar as chances de ficar grvida e de ter uma criana saudvel com uma dieta variada e rica em alimentos frescos.
Voc fuma ou bebe?
Pare de beber ou fumar o quanto antes, se est pretendendo ter um filho. O cigarro e o lcool trazem problemas de fertilidade tanto para o homem quanto para a mulher, e podem tambm ser prejudiciais ao desenvolvimento do seu beb.
Costuma exercitar-se bastante?
Para manter-se em forma, organize-se para praticar algum tipo de exerccio, como caminhar ou nadar durante pelo menos 20 minutos por dia.

DAY LECLAIRE conta: "Meu marido e eu nos casamos cinco meses aps nos conhecermos, num verdadeiro casamento-relmpago. Foi um fiasco! amos fugir. E fugimos. Houve apenas um problema: cometi o erro de contar a meus pais. Bem, eles no gostaram muito da ideia. Por isso, em vez de ir para Las Vegas, 'fugimos' para Illinois, onde eles moravam, e l nos casamos! E nos fizeram repetir a dose, seis meses depois, na presena de todos os parentes. Dezenove felizes anos depois, ainda rimos da trapalhada!"
